Sem vento a favor, loteamentos precisam sofisticar estruturas de funding

Disparada no custo de capital, inflação setorial e desaceleração nas vendas alteraram o panorama para captação de recursos no setor

5 de agosto de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:Henrique Cisman

Principais Insights

  • Depois da euforia e da correção, tanto do ponto de vista regulatório quanto macroeconômico, a dinâmica do ciclo atual parece indicar para uma fase de liquidez seletiva, na qual os financiadores priorizam a robustez do balanço do tomador - mais do que a qualidade do projeto em si.
  • A tendência é que haja uma consolidação entre empresas do setor por meio de joint ventures, aquisições diretas de bancos de terrenos e SPEs, e execuções de garantias em operações insolventes. 
  • A maturidade do setor - após uma euforia causada pelo isolamento social e impulsionada por condições macroeconômicas favoráveis que tiveram prazo de validade - não implica a escassez de oportunidades, mas sim o fim do período de captura de rentabilidade sem exigência correspondente de governança e disciplina financeira.

O mercado de loteamentos e comunidades planejadas transicionou da euforia no ápice da pandemia de covid-19 para uma realidade que exige mais disciplina e diversificação na estrutura de financiamento. Entre os anos de 2020 e 2021, o setor experimentou uma expansão sem precedentes no acesso ao mercado de capitais, impulsionada pela proliferação de Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) de papel e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) de alta rentabilidade (crédito high yield).

Nesse ambiente de liquidez abundante e taxas de juros historicamente baixas, que saíram de 4,5% ao ano no início de 2020 para 2% ao ano até março de 2021, os FIIs originaram um volume expressivo de capital em direção a praças do interior do país - movimento incentivado pelo trabalho remoto - e polos do agronegócio, muitas vezes financiando empreendedores locais com estruturas de governança incipientes. A demanda existia, o crédito estava barato e a liquidez não era um problema.

Contudo, a subsequente elevação da taxa Selic, que em 12 meses saiu de 2% para 10,75% ao ano, em março de 2022 - combinada com a ascensão da inadimplência que afetou pequenas e médias empresas e o estresse de crédito verificado em carteiras pulverizadas de loteamentos - alterou profundamente a postura dos alocadores de capital. 

Em 2024, a publicação das resoluções 5.118 e 5.121, pelo Conselho Monetário Nacional, restringiram os lastros elegíveis e os emissores de títulos isentos, coibindo arbitragens regulatórias e forçando uma reestruturação profunda nas ofertas primárias de CRIs, uma medida para corrigir distorções que inflaram as emissões de CRIs e CRAs. 

Depois da euforia e da correção, tanto do ponto de vista regulatório quanto macroeconômico, a dinâmica do ciclo atual parece indicar para uma fase de liquidez seletiva, na qual os financiadores priorizam a robustez do balanço do tomador - mais do que a qualidade do projeto em si -, índices mais conservadores de Loan-to-Value (LTV), frequentemente abaixo de 60%, e estruturas de garantias mais rígidas.

As estruturas de financiamento para o setor serão debatidas em profundidade no GRI Loteamentos & Comunidades Planejadas 2026, nos dias 26 e 27 de agosto. Confira a agenda completa.

Qualidade do projeto ou solidez do balanço?

A evidência histórica recente indica que a qualidade do projeto, traduzida por localização privilegiada, conceito de comunidade planejada, inteligência de masterplan e rapidez de aprovação nos órgãos ambientais e municipais continua a ser uma condição necessária para a atração da demanda final. No entanto, ela deixou de ser uma condição suficiente para assegurar a sobrevivência financeira do loteamento no cenário atual.

Em outras palavras, bons projetos podem sucumbir se a loteadora não possuir capacidade de suporte financeiro para atravessar prazos de maturação mais longos ou descasamentos de caixa decorrentes do choque inflacionário sobre os custos de infraestrutura civil, traduzidos pelo INCC, que acumula alta de 4,27% no primeiro semestre (INCC-DI), segundo a FGV. Para efeito de comparação, o INCC-DI total de 2025 foi de 5,92%. 

Se o projeto por si só não é suficiente, entra em cena o balanço patrimonial do tomador do crédito, cuja estrutura é analisada desde a escolha do tipo de permuta para a aquisição dos terrenos. Do ponto de vista do mercado de capitais, a permuta física é altamente favorecida por credores e securitizadoras, uma vez que elimina a figura do terrenista como credor financeiro na cascata de pagamentos do projeto.

Na permuta financeira, por outro lado, o terrenista recebe um percentual fixo da receita bruta de vendas (VGV) líquida de impostos e comissões ao longo do recebimento das parcelas dos compradores, criando um passivo financeiro e operacional contratual que drena o fluxo de caixa direto gerado pela comercialização das unidades. Para financiar projetos com esse arranjo, o mercado de capitais costuma exigir cláusulas rígidas de subordinação das obrigações do terrenista em relação aos direitos dos investidores das estruturas de dívida.

Como as vendas de lotes estão desacelerando (veja os dados completos aqui), a capacidade do balanço tornou-se o fator preponderante. Um projeto mediano gerido por um loteador com balanço desalavancado, alto patrimônio líquido e baixa dívida de terrenos tende a obter financiamento à produção bancário ou realizar emissões no mercado de capitais com custos inferiores.

Uma era de consolidação

A crescente exigência de profissionalização e a seletividade de capital estão atuando como catalisadores de um movimento de consolidação no setor de loteamentos e comunidades planejadas - e que também deve ser impulsionado pela reforma tributária (entenda melhor aqui)

A disparidade no desempenho financeiro entre grandes plataformas consolidadas e desenvolvedores regionais de pequeno e médio porte intensificou-se drasticamente. Dados do Banco Central compilados pelo IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) indicam que a taxa média de inadimplência corporativa para micro, pequenas e médias empresas do setor elevou-se para patamares superiores a 5% ao ano, ao passo que a inadimplência das grandes empresas do setor imobiliário permaneceu em níveis residuais - em torno de 0,4% - no ano passado. 

Esse abismo operacional decorre da escala nas compras de insumos da construção, da capacidade de digerir os custos de conformidade regulatória e ambiental e, fundamentalmente, do acesso a canais diversificados de financiamento.

Assim, a tendência é que a consolidação se manifeste de algumas formas, sendo as mais prováveis a realização de joint ventures entre loteadoras locais detentoras de terras e grandes empresas que fornecem capacidade de execução de obras, governança e acesso ao mercado de capitais; holdings imobiliárias que acessam pequenas loteadoras e centralizam a infraestrutura financeira e a gestão do risco em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs); aquisições (M&A) de bancos de terrenos ou veículos específicos (SPEs) que pertencem a empresas locais descapitalizadas; e, finalmente, por meio da execução das garantias reais em operações insolventes. 

A aceleração da consolidação resulta no aumento das barreiras de entrada no setor. Nos próximos anos, a atuação isolada de pequenos loteadores estará confinada a mercados periféricos de menor concorrência, enquanto os polos urbanos de maior crescimento populacional e econômico - tais como as regiões metropolitanas do interior paulista, do Centro-Oeste agropecuário e do Sul - devem ser dominados por plataformas consolidadas e altamente capitalizadas.

Por que o CRI pode se tornar uma armadilha

O Certificado de Recebíveis Imobiliários tornou-se a ferramenta central para a desintermediação bancária do setor imobiliário desde a promulgação da Lei nº 9.514/1997. No segmento específico de loteamentos, o CRI permite ao empreendedor securitizar sua carteira de recebíveis performados ou a vencer, transformando um fluxo de caixa futuro de longo prazo - frequentemente financiado diretamente ao comprador final - em liquidez imediata para capital de giro, amortização de dívidas ou financiamento de novas obras.

Apesar dessas vantagens estruturais, a utilização ostensiva do CRI como fonte primária de financiamento expõe o loteador a uma dependência crítica do comportamento das curvas de juros e do apetite do mercado de capitais. Sob essa perspectiva, ao contrário do crédito bancário tradicional para produção, que possui cronogramas de liberação prefixados vinculados à evolução física da obra, o CRI está exposto a oscilações diárias de liquidez do mercado secundário. 

Ou seja, se o modelo de negócios de um loteador depende do lançamento sucessivo de novas séries de CRIs para dar continuidade às obras, qualquer retração na captação dos FIIs de papel paralisa a execução do projeto. 

O CRI resolve de forma eficiente a questão da monetização do ativo, mas cria uma dependência perigosa quando utilizado como fonte exclusiva de financiamento para a implantação da infraestrutura básica.

Qual a estrutura ideal? 

No ciclo atual, a estrutura ideal para as empresas do setor afasta-se de soluções monofásicas e migra para uma arquitetura financeira híbrida e modular, em que o crédito bancário é usado para financiar as obras de infraestrutura, protegendo a SPE contra choques de liquidez no mercado de capitais; os FIDCs entram na fase de vendas dos lotes e gestão do parcelamento realizado diretamente com o comprador, e o CRI passa a ser empregado na etapa posterior à conclusão das obras de infraestrutura, quando as carteiras já estão performadas - reduzindo o spread de crédito exigido pelos investidores devido à eliminação dos riscos de licenciamento e obra.

A maturidade do setor - após uma euforia causada pelo isolamento social e impulsionada por condições macroeconômicas favoráveis que tiveram prazo de validade - não implica a escassez de oportunidades, mas sim o fim do período de captura de rentabilidade sem exigência correspondente de governança e disciplina financeira.

O mercado provavelmente será liderado por empresas que dominarem a sofisticação da engenharia financeira sem descuidar da eficiência operacional no canteiro de obras, posicionando o balanço patrimonial como o verdadeiro alicerce do crescimento sustentável e perene.
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