Novas regras do MCMV começam a valer; construção sente os efeitos da guerra

Ampliação do valor dos imóveis e da faixa de renda das famílias dá fôlego ao mercado residencial; inflação setorial acelera, lançamentos esfriam e aluguel sobe

24 de abril de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:Henrique Cisman

Principais Insights

  • Ajustes no Minha Casa, Minha Vida têm potencial para adicionar 87,5 mil famílias no programa, além de dar fôlego para as incorporadoras. 
  • O fechamento do Estreito de Ormuz pressiona os preços de alguns insumos da construção civil, penalizando as margens das construtoras, que devem repassar o custo ao consumidor. Novos lançamentos podem ser adiados. 
  • Área média alugada em escritórios cresce, vendas em shoppings recuam e segmento logístico seque aquecido. 

Começaram a valer, na quarta-feira (22), os novos valores estabelecidos pelo governo federal para o programa Minha Casa, Minha Vida. As mudanças ampliam o alcance ao alterar dois pontos centrais: elevação da renda mensal das famílias aptas e aumento do valor máximo dos imóveis financiados. 

Novos limites de renda mensal por faixa:

Faixa 1: de até R$ 2.850 para até R$ 3.200;
Faixa 2: de até R$ 4.700 para até R$ 5.000;
Faixa 3: de até R$ 8.600 para até R$ 9.600;
Faixa 4: de até R$ 12.000 para até R$ 13.000.

Novos valores máximos dos imóveis em cada faixa:

Faixas 1 e 2: entre R$ 210 mil a R$ 275 mil, dependendo da localidade;
Faixa 3: de até R$ 350 mil para até R$ 400 mil;
Faixa 4: de até R$ 500 mil para até R$ 600 mil.

Os ajustes devem adicionar 87 mil famílias no escopo do Minha Casa, Minha Vida, segundo o governo federal. A medida visa dar fôlego para as incorporadoras e facilitar a aquisição da casa própria para a população em um momento de altas taxas de juros e subida nos custos da construção, que atingem especialmente a classe média - até então, sem subsídios e sem recursos suficientes para comprar ou mesmo financiar. Na recém-criada faixa 4, a taxa de juros é limitada a 10% ao ano. 

Segundo o CEO Global do GRI Institute, Gustavo Favaron, a medida é bastante positiva, mas ainda haverá um hiato no mercado de imóveis entre R$ 600 mil a R$ 1 milhão: "O desafio para vender para esse público vai persistir por mais tempo, enquanto a taxa básica de juros não cair de maneira substancial, chegando a 10% pelo menos, algo que viabilizaria mais aquisições de imóveis que estão imediatamente acima do limite do Minha Casa, Minha Vida. Até que isso aconteça, a tendência que temos observado é uma pressão no valor do aluguel, que tem subido acima dos índices de referência". 

Dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) divulgados pelo IBGE apontam que, em 2025, o número de famílias e indivíduos morando de aluguel chegou a 18,9 milhões, o equivalente a 23,8% do total. Trata-se do recorde da série histórica, iniciada em 2016, quando o aluguel representava 18,6% do total. 

Leia também: O paradoxo habitacional brasileiro e a ascenção do multifamily

"Ao notar a redução do poder de compra da classe média, o movimento natural das incorporadoras é voltar as atenções para o aluguel, suprindo uma necessidade do consumidor. Temos observado essa tese, conhecida como multifamily, crescer expressivamente no Brasil, com cheques de grandes investidores globais", completa Favaron. 

Construção civil sente os efeitos da guerra no Irã

Insumos da construção civil afetados pela alta do petróleo, como tubos e conexões em PVC e cimento, além do encarecimento do transporte em razão da escassez de diesel, começam a impactar as margens das construtoras, e a tendência é que o custo seja repassado para os compradores de imóveis. 

Segundo a FGV, o INCC-10 de abril acelerou para 0,88% - contra 0,29% no INCC-10 de março. Se a guerra persistir - especialmente as interrupções no fluxo do transporte no Estreito de Ormuz -, é provável que as incorporadoras adiem lançamentos, uma vez que o repasse dos custos no preço dos imóveis deve enfraquecer a demanda. 

No MCMV, o espaço para reajuste é menor, o que pode minar a saúde das incorporadoras - ou de projetos específicos em andamento. 

No médio e alto padrão, o panorama já era de esfriamento nos lançamentos antes mesmo do conflito entre EUA e Irã: segundo relatório do Itaú BBA com base nos balanços de nove incorporadoras, foram lançados R$ 6,2 bilhões no primeiro trimestre, queda de 1,6% em relação ao mesmo período do ano passado. 

A conjunção de fatores leva o mercado imobiliário residencial a depender cada vez mais do Minha Casa, Minha Vida: segundo a Brain Inteligência Estratégica, o programa representou 53% dos lançamentos e 49% das vendas de imóveis em 2025.  

Escritórios: área média locada cresce no primeiro trimestre

Segundo a Cushman & Wakefield, o espaço médio alugado pelas empresas nos escritórios de São Paulo foi o maior desde o último trimestre de 2022, nos primeiros três meses de 2026. A área média superou 1.920 metros quadrados, um aumento de 52% frente ao trimestre anterior e de 11% na comparação anual. 

Duas forças principais explicam o resultado: o retorno definitivo de muitas empresas ao modelo 100% presencial e a integração de diferentes times em um só espaço, movimentos que, em tese, aumentam a produtividade. Soma-se a isso o fato de que as estações de trabalho por colaborador estão maiores: segundo a CBRE, passaram de 7 m² para até 12 m² em média, necessitando de mais espaço para o mesmo número de funcionários. 

Shoppings enfrentam queda de público e retração real nas vendas

De acordo com a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers), a quantidade de visitantes mensais nos empreendimentos caiu 6,2% entre 2019 - antes da pandemia - e 2025. Após uma recuperação pós-pandemia que alcançou o pico em 2024, com média de 476 milhões de visitantes por mês, o segmento se deparou com uma retração no ano passado, quando a média foi de 471 milhões/mês. 

O faturamento nominal cresceu 4,2% entre 2019 e 2025, totalizando R$ 200,9 bilhões, mas se considerada a inflação do período, as vendas reais caíram 25%. Dentre os fatores que mais pesam, estão o alto número de famílias endividadas e inadimplentes, o custo do crédito em razão da taxa de juros e a concorrência com o e-commerce.

Para se ter uma ideia, as vendas online alcançaram R$ 235,5 bilhões em 2025, alta de 15,3% sobre 2024, segundo a Abiacom (Associação Brasileira de Inteligência Artificial e Ecommerce). Já no comparativo com 2019, houve um crescimento real das vendas - ou seja, considerando a inflação - de 88%. 

XP expande portfólio logístico

O XP Log (XPLG11) adquiriu seis ativos logísticos no interior de São Paulo por R$ 919 milhões, segundo fato relevante. Os galpões estão situados em Jundiaí, Jarinu, Atibaia e Piracicaba, cidades próximas a São Paulo e com fácil acesso rodoviário. 

Com as aquisições, o patrimônio líquido do XPLG11 salta para R$ 5,4 bilhões, consolidando-se dentre os maiores FIIs de tijolo do segmento imobiliário logístico. O número de inquilinos subirá de 75 para 95, reduzindo o risco de crédito. Vale destacar que 97% do pagamento pelos ativos será feito em cotas, uma estratégia que vem sendo bastante utilizada devido à dificuldade de captar dinheiro novo. 

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