Radar de Mercado: Caixa acelera no crédito imobiliário, mas medida do governo preocupa entidades do setor

Financiamento à construção via SBPE deve subir de R$ 6 bi para R$ 20 bi em 2026; saques do FGTS preocupam, e FIIs de shopping centers agitam o mercado

10 de abril de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:Henrique Cisman

Principais Insights

  • A Caixa Econômica Federal deve realizar a maior concessão de crédito de sua história em 2026, impulsionada pelo fim dos depósitos compulsórios.
  • O plano do governo federal de liberar o saldo do FGTS para a quitação de dívidas dos trabalhadores gerou manifestações de entidades do mercado imobiliário e da construção civil, preocupadas com o esvaziamento do fundo e o consequente impacto sobre o programa Minha Casa, Minha Vida.
  • Os fundos imobiliários de shopping centers podem ter um novo protagonista caso a união entre Allos e Kinea se concretize; o Patria está em busca de ativos para seu fundo recém-adquirido da Genial, e a Alianza captou "dinheiro novo", algo raro ultimamente. 

A Caixa Econômica Federal anunciou a ambição de realizar a maior concessão de crédito imobiliário de sua história em 2026. A projeção se baseia no orçamento aprovado, que foi ampliado em todas as frentes. O principal destaque é o FGTS, com R$ 144,5 bilhões, e o SBPE terá outros R$ 97 bilhões. O financiamento à construção com recursos da poupança deve subir dos R$ 6 bilhões em 2025 para R$ 20 bilhões ao longo do ano. Esse crescimento expressivo se deve ao fim da obrigatoriedade dos depósitos compulsórios no Banco Central, medida anunciada no fim do ano passado para estimular o crédito imobiliário.

Ainda no campo do funding, executivos do setor apontam que as operações no mercado de capitais serão um importante motor do mercado imobiliário em 2026, complementando o binômio SBPE-FGTS, ao mesmo tempo em que reduzem a dependência dessas fontes. 

Mas a semana também foi marcada por um movimento perigoso anunciado pelo governo federal, que consiste em liberar o saldo do FGTS para a quitação de dívidas dos trabalhadores. Entidades do mercado imobiliário e da construção civil se posicionaram contra a medida, alertando que ela compromete diretamente o financiamento do programa Minha Casa, Minha Vida - atualmente, o principal indutor de lançamentos no país. 

No plano externo, o cessar-fogo entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e Irã, de outro, aliviou a pressão sobre os preços do petróleo, que estavam em US$ 95 o barril na sexta-feira (10); ainda assim, a guerra já causou elevação nos custos logísticos e em alguns insumos da construção. O IPCA subiu 0,88% em março - puxado pelos combustíveis -, acumulando 4% em 12 meses. O contexto sugere que o Banco Central terá margem limitada para acelerar os cortes na Selic, o que modera as expectativas de queda no custo do financiamento - tanto para as incorporadoras quanto para o consumidor final.

Fundos imobiliários

O IFIX encerrou o primeiro trimestre de 2026 em alta, mesmo com os juros elevados, um sinal de que o mercado já precifica o ciclo de corte e, acima de tudo, uma prova da atratividade e resiliência dos fundos imobiliários. O número de investidores em FIIs atingiu 3 milhões em fevereiro, consolidando a classe como veículo relevante de poupança e investimento no Brasil.

Grandes movimentos no varejo físico

Allos e Kinea estão em conversas avançadas para criar um gigante nos FIIs de shopping centers, com o primeiro fundo podendo alcançar entre R$ 1-2 bilhões em captação. Trata-se do movimento mais expressivo do ano no setor até o momento. Na prática, Allos e Kinea serão co-gestoras dos fundos; de um lado, a JV aumenta a capilaridade do Kinea, que já tem R$ 40 bilhões geridos no setor; já a Allos inaugura uma nova frente de negócio com receita recorrente. 

A transação sinaliza que grandes players apostam na consolidação do varejo físico como classe de ativo, contrariando narrativas de declínio estrutural dos shoppings. 

Ainda neste sentido, o Patria está em busca de oportunidades de aquisição para encorpar o fundo de shoppings recém-adquirido da Genial - o PMLL11. O fundo já tem 14 imóveis no portóflio, com patrimônio líquido de R$ 1,6 bilhão. 

Por fim, mais um movimento relevante na indústria de FIIs é a captação realizada pela Alianza Investimentos, que levantou R$ 451 milhões no ALZR11 - a maior da história do fundo híbrido da gestora. O principal destaque é que a maior parte do volume captado é "dinheiro novo", ou seja, foram emitidas novas cotas do fundo. Isso só foi possível porque a captação foi iniciada antes da guerra entre EUA-Irã e o fundo negociava o preço de tela acima do valor patrimonial, algo raro desde a pandemia. 
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