
Operadores europeus redefinem a infraestrutura na América Latina: a batalha já não é só pelo capital
Egis no México, Grupo Ortiz na Colômbia e uma nova geração de atores cross-border deslocam o eixo de competição do financiamento para a execução e operação de l
Resumo Executivo
Principais Insights
A tese: quem controla a execução, controla o mercado
Durante mais de uma década, o debate sobre infraestrutura na América Latina girou em torno de uma única pergunta: de onde virá o capital? Fundos de pensão, veículos de capital privado, multilaterais e family offices protagonizaram a narrativa. Hoje, no entanto, o eixo de competição se desloca. A pergunta relevante já não é quem financia, mas quem executa, opera e mantém os ativos ao longo de sua vida útil. E nessa dimensão — a da cadeia operativa —, uma nova onda de operadores internacionais, predominantemente europeus, está redefinindo as regras do jogo no México, na Colômbia e no restante da região.
Esse fenômeno não é trivial. A entrada de firmas como a francesa Egis e a espanhola Grupo Ortiz no mercado latino-americano marca uma mudança estrutural na forma como os grandes projetos de infraestrutura são concebidos, executados e geridos. Não se trata de empreiteiras que chegam para construir e se retiram. São operadores integrais que participam da supervisão técnica, da gestão operacional e da manutenção de ativos sob esquemas de Parceria Público-Privada (PPP) com horizontes de décadas. É, em síntese, uma aposta pela permanência.
Por que os operadores europeus apostam no México e na Colômbia neste momento?
A resposta tem raízes tanto conjunturais quanto estruturais. No plano conjuntural, o impulso do nearshoring disparou a demanda por infraestrutura industrial, logística e de transporte no México a um ritmo que supera a capacidade instalada dos operadores locais. Os megaprojetos impulsionados pelo setor público — entre eles o Tren Maya, onde a Egis participa em tarefas de supervisão — exigem capacidades técnicas de engenharia e gestão de obra que nem sempre estão disponíveis no mercado doméstico. O México se tornou, de fato, um laboratório para a convergência entre demanda pública de infraestrutura de grande escala e padrões de execução internacionais.
Na Colômbia, a dinâmica é diferente, mas igualmente poderosa. O Programa de Concessões 5G — a quinta geração de Parcerias Público-Privadas em infraestrutura viária — representa um dos pacotes de investimento em transporte mais ambiciosos da América Latina. O Grupo Ortiz, com experiência consolidada em concessões de rodovias e obra civil na Europa e na África, lidera concessões-chave dentro desse programa e participa da rede ferroviária colombiana. Sua presença ilustra um padrão claro: os operadores europeus não competem apenas por contratos de construção, mas pela operação de longo prazo de ativos estratégicos.
No plano estrutural, as firmas europeias trazem consigo vantagens difíceis de replicar pelos incumbentes locais no curto prazo. Primeiro, uma trajetória comprovada em esquemas de PPP com marcos regulatórios exigentes, o que lhes permite gerir riscos contratuais complexos. Segundo, acesso a financiamento competitivo por meio de suas matrizes e de bancos europeus de desenvolvimento. Terceiro, capacidades tecnológicas avançadas em engenharia de supervisão, monitoramento de ativos e gestão digital de obras. E quarto, um modelo de negócio que integra projeto, construção, operação e manutenção (DBOM, na sigla em inglês), o que lhes permite capturar valor ao longo de todo o ciclo de vida do ativo.
A competição já não se define apenas por preço, mas pela capacidade de gestão integral do ativo durante décadas.
Como esses atores competem com as construtoras locais e que alianças estão formando?
A penetração de operadores internacionais não implica um deslocamento automático das construtoras latino-americanas. O que se observa é uma reconfiguração de papéis. As firmas europeias tendem a ocupar posições de liderança na supervisão técnica, na gestão de concessões e na operação de longo prazo, enquanto os atores locais — com conhecimento profundo do terreno regulatório, político e social — se integram como parceiros de execução, subcontratados especializados ou coinvestidores.
Esse modelo de aliança é, de fato, uma condição necessária. Os marcos de PPP no México e na Colômbia exigem, na prática, a participação de entidades com raízes locais. As licitações privilegiam consórcios que combinem capacidade técnica internacional com presença doméstica. A vantagem competitiva, então, não reside na origem da empresa, mas na qualidade da aliança que conseguir articular.
Em paralelo, o ecossistema de infraestrutura e real estate latino-americano mostra sinais de sofisticação crescente para além da obra pública. Atores locais de alto perfil, como Jaime Fasja por meio da Thor Urbana, diversificam o real estate para segmentos de ultraluxo sustentável — como o projeto Nauka —, o que indica que a demanda por padrões internacionais permeia tanto a infraestrutura pública quanto o desenvolvimento privado. No âmbito logístico, executivos como Hernán Gómez na SM SAAM consolidam operações portuárias em escala regional, evidenciando que a integração cross-border não se limita à construção, mas abrange toda a cadeia de valor da infraestrutura: de portos e rodovias a corredores industriais e comunidades planejadas.
O modelo vencedor na América Latina não será puramente local nem puramente internacional; será o consórcio híbrido que integre padrões globais com inteligência territorial.
Quais segmentos priorizam e qual é sua vantagem estratégica real?
Os operadores europeus que ingressam na América Latina não o fazem de forma indiscriminada. A segmentação é precisa. No México, o foco está em três verticais: infraestrutura de transporte (rodovias, sistemas ferroviários, supervisão de megaprojetos), infraestrutura industrial vinculada ao nearshoring (parques logísticos, corredores de manufatura) e operação de ativos de mobilidade urbana. A Egis, por exemplo, não apenas supervisiona o Tren Maya, como participa da operação de rodovias concessionadas, consolidando um portfólio de ativos de transporte diversificado.
Na Colômbia, o Grupo Ortiz concentra sua estratégia em concessões viárias do Programa 5G e em infraestrutura ferroviária, dois segmentos onde os prazos de concessão oscilam entre vinte e trinta anos e onde a capacidade de gestão operacional de longo prazo é mais valiosa que a eficiência construtiva pura.
A vantagem estratégica real desses atores não reside em construir mais barato. Reside em três capacidades diferenciais. A primeira é a gestão do ciclo de vida do ativo: a capacidade de otimizar custos operacionais e de manutenção durante décadas, não apenas de entregar obra. A segunda é a transferência tecnológica: sistemas de monitoramento digital, gêmeos digitais de infraestrutura e protocolos de manutenção preditiva que elevam a eficiência operacional. A terceira é a credibilidade perante organismos multilaterais e bancos de desenvolvimento, que facilita o acesso a financiamento em condições favoráveis para os projetos em que participam.
A tecnologia de operação, não a de construção, é o verdadeiro diferenciador competitivo dos operadores europeus na região.
Um ecossistema em transformação: implicações para o mercado
A chegada de operadores internacionais à cadeia de execução tem implicações que vão além da competição comercial. Para os governos da região, representa uma oportunidade de elevar padrões de execução e governança nos megaprojetos de infraestrutura. Para os desenvolvedores locais, coloca a necessidade de profissionalizar capacidades operacionais e de gestão de ativos para não ficarem relegados ao papel de subcontratados. E para os investidores — fundos de capital privado, family offices, institucionais —, a presença de operadores com track record global reduz o perfil de risco de execução e melhora a bancabilidade dos projetos.
Esse fenômeno é precisamente o tipo de dinâmica cross-border analisada nos encontros do GRI Institute, onde líderes da indústria de real estate e infraestrutura debatem as estratégias de entrada, as estruturas de aliança e os modelos de operação que definem o futuro do mercado latino-americano. A comunidade do GRI vem acompanhando de perto a evolução das PPPs na região, a profissionalização da cadeia de execução e a integração de padrões globais em mercados que historicamente operaram com lógicas predominantemente locais.
Conclusão: da obra ao ativo, a mudança de paradigma
A América Latina está transitando de um modelo onde a infraestrutura se mede por quilômetros construídos para um onde se mede por décadas de operação eficiente. Nessa transição, os operadores europeus como Egis e Grupo Ortiz não são meros participantes: são catalisadores. Sua presença eleva o patamar, obriga os atores locais a se sofisticarem e abre caminho para um modelo de infraestrutura mais integrado, mais tecnológico e mais orientado ao longo prazo.
O desafio para a região não é resistir a essa onda, mas capitalizá-la. Os mercados que conseguirem articular alianças equilibradas entre capacidade global e conhecimento local serão os que definirão o próximo ciclo de infraestrutura na América Latina. A competição já migrou do balanço financeiro para a mesa de operações. E nessa mesa, as regras estão mudando.