O renascimento do corporativo, da recuperação à reinvenção

Insights do GRI Escritórios 2026 evidenciam resiliência do setor e adaptação às novas dinâmicas de investimentos e ocupação

5 de março de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:Isabella Toledo

Resumo Executivo

O mercado imobiliário corporativo continua a enfrentar um cenário desafiador e transformador, com o segmento de escritórios passando por mudanças estruturais e lidando com um contexto econômico e político altamente complexo.

A combinação de juros elevados, escassez de terrenos e a necessidade de adaptação às novas demandas dos inquilinos - como o espaço adequado para o trabalho híbrido e a exigência por amenities focadas na experiência do colaborador - exige uma abordagem estratégica para enfrentar os altos custos de construção e os novos requisitos de infraestrutura.

O novo GRI Conference Spotlight, que reúne insights compartilhados no GRI Escritórios 2026, explora as principais oportunidades e desafios do mercado, abordando temas como a evolução dos fundos imobiliários, a ascensão dos retrofits e as localizações que estão se consolidando como novos polos corporativos.

Principais Insights

  • No contexto macroeconômico, o ano de 2026 deve ser politicamente intenso, com uma eleição polarizada e questões fiscais, apesar do bom desempenho dos indicadores de crescimento.
  • Projetos greenfield de escritórios enfrentam dificuldades devido aos altos custos e longos ciclos de maturação, enquanto o retrofit e a demanda por espaços "plug and play" estão ganhando força.
  • A Faria Lima continua sendo o principal destino corporativo, com altos aluguéis e queda nas taxas de vacância, mas regiões como Pinheiros, Paulista e Vila Olímpia também se destacam. 
  • O segmento de FIIs deve se beneficiar da queda da Selic e do maior interesse por ativos de renda variável, especialmente no setor de escritórios precificados com desconto e fundos de logística e data centers.
  • Existe uma tendência de espaços de escritórios menores e flexíveis, que integram iniciativas ESG com a oferta de serviços voltados para experiência dos colaboradores. 

Eleições, governabilidade e continuidade de projetos

Segundo José Luiz Pimenta Jr., Diretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados, o ano de 2026 deve ser encarado pelo mercado como um período de intensa atividade legislativa e não apenas como um ciclo de transição eleitoral. 

A atenção do setor privado deve estar voltada para as mudanças nos escalões técnicos dos ministérios e para a manutenção do diálogo com as lideranças do Congresso, garantindo que as pautas de competitividade e segurança jurídica não sejam paralisadas pelas dinâmicas da disputa política.

De acordo com pesquisas recentes apresentadas por Pimenta, as eleições de 2026 reafirmam um ambiente de extrema polarização, onde a disputa deve ser decidida por uma margem estreita de eleitores centristas que apresentam um perfil mais inclinado a pautas de centro-direita. 

Enquanto o atual governo busca consolidar sua base através de incentivos e pautas sociais, como a discussão sobre a jornada de trabalho e programas de transferência de renda, a oposição concentra seus esforços em temas como segurança pública e combate à corrupção para ganhar tração eleitoral.

No âmbito legislativo, prevê-se uma grande renovação da Câmara dos Deputados e do Senado, mas com uma tendência de retorno de figuras políticas tradicionais e experientes em vez de novos perfis de empreendedores políticos. 

Do ponto de vista econômico, embora o Brasil apresente indicadores de crescimento e emprego resilientes no curto prazo, a baixa capacidade de investimento público discricionário e a iminência de desafios fiscais projetados para 2027 demandam cautela e monitoramento constante por parte dos investidores. 

No plano internacional, a agenda de comércio exterior segue ativa com a busca por acordos estratégicos com o Canadá e os Emirados Árabes, além da conclusão do tratado entre Mercosul e União Europeia. 

A influência do cenário político dos Estados Unidos e a postura da futura administração norte-americana também são fatores determinantes que devem moldar as relações diplomáticas e as agendas de segurança na América Latina.
 

GRI Escritórios - Eleições, governabilidade e confiança – O Brasil está preparado para um novo ciclo de estabilidade?José Luiz Pimenta Jr. realiza a apresentação de abertura "Eleições, governabilidade e confiança – O Brasil está preparado para um novo ciclo de estabilidade?". (GRI Institute)

Desenvolvimentos greenfield seguem sob pressão

O setor de lajes corporativas atravessa uma fase de readequação, caracterizada por uma maior seletividade dos investidores e uma pressão crescente por eficiência operacional e disciplina de capital. 

No contexto atual, o desenvolvimento de projetos greenfield tornou-se um desafio complexo, exigindo que as empresas antecipem estratégias para viabilizar novos ativos em uma conjuntura econômica de custos elevados e escassez de terrenos.

Além disso, esses empreendimentos enfrentam ciclos de maturação extremamente longos, que podem chegar a dez anos entre a aquisição do terreno e a entrega final, demandando uma resiliência financeira atípica para navegar por diferentes ciclos de taxas de juros e mudanças na legislação urbanística.

Diante da complexidade dos novos desenvolvimentos, o mercado passou a considerar o retrofit como o "novo greenfield" - estratégia que permite que investidores adquiram ativos em localizações consolidadas e realizem atualizações técnicas para recolocá-los no mercado em um prazo menor.

A dinâmica de ocupação também sofreu transformações, com uma demanda crescente pelo modelo "plug and play", onde a prioridade é a locação de espaços já mobiliados e prontos para uso imediato, e a oferta de amenities e serviços, que buscam atrair colaboradores através de ambientes que integram bem-estar e infraestrutura de alta qualidade. 
 

GRI Escritórios - Desenvolvimentos Greenfield - Onde investir em novos projetos?Líderes do setor participam da sessão "Desenvolvimentos Greenfield - Onde investir em novos projetos?". (GRI Institute)

FIIs estão acelerando o novo ciclo corporativo?

Com uma base que já ultrapassa 3 milhões de investidores, o segmento de fundos de investimento imobiliário (FIIs) no Brasil reflete um perfil predominantemente de varejo, composto por pessoas físicas que buscam, em sua maioria, a regularidade dos dividendos mensais como principal driver de alocação.

Essa pulverização, onde a grande maioria dos cotistas investem menos de R$ 40 mil, impõe às gestoras o desafio contínuo de educar o mercado sobre a natureza de longo ciclo do setor imobiliário, reduzindo a volatilidade causada por reações a oscilações pontuais de rendimentos ou variações macroeconômicas.

A análise de valor atual também revela uma distorção significativa entre o mercado público e o mercado privado de ativos físicos: enquanto desenvolver um prédio Triple A na Faria Lima exige um investimento altíssimo, o investidor pode acessar ativos idênticos via FIIs por um valor implícito significativamente inferior.

Adicionalmente, as projeções macroeconômicas recentes apontam para uma trajetória de queda da taxa Selic, possivelmente encerrando o ano ao redor de 11,5%, o que tende a intensificar ainda mais o fluxo de capital para ativos de renda variável imobiliária. 

Setores como logística e infraestrutura digital, especialmente data centers, aparecem como apostas resilientes para diversificação, mas é no segmento de escritórios - especialmente os precificados com descontos - que os gestores enxergam o maior potencial de ganho de capital através da compressão de cap rates e revisão de contratos de locação.
 

GRI Escritórios - FIIs corporativos - Estabilizadores ou aceleradores do novo ciclo?Participantes discutem o tema "FIIs corporativos - Estabilizadores ou aceleradores do novo ciclo?". (GRI Institute)

Otimismo cauteloso é o lema dos investidores

O setor de escritórios vem apresentando um cenário de recuperação consolidada, marcado por uma mudança de humor entre os investidores e fundamentado em dados sólidos de absorção e vacância. 

Em São Paulo, o volume de transações brutas atingiu 834 mil metros quadrados no quarto trimestre de 2025, enquanto a absorção líquida alcançou 289 mil metros quadrados, segundo a CBRE Brasil.

A dinâmica de preços tem sido diretamente influenciada pela baixa entrega de novo estoque, que somou apenas 165 mil metros quadrados em 2025 - resultando em uma vacância geral de 16% na cidade - ainda mais restrita no segmento Triple A, com a taxa chegando a 11%. 

Nesse contexto, a análise de investimentos atual exige uma comparação entre o retorno do ativo real e o mercado de capitais, especialmente em um ambiente de juros altos que impõe uma "comparação cruel" com títulos públicos como a NTN-B (Nota do Tesouro Nacional Série B, ou Tesouro IPCA+). 

Além disso, os family offices estão abandonando a tradicional compra de lajes pulverizadas - modelo que perdeu eficiência de gestão - em favor de estruturas como SCPs, fundos imobiliários ou participações em prédios inteiros com administração única.

No entanto, investidores institucionais como Brookfield e GIC Private Limited têm focado em teses reversionárias, adquirindo ativos abaixo do custo de reposição e apostando na valorização futura dos aluguéis em vez do dividend yield inicial. 

No Rio de Janeiro, o cenário é mais complexo e marcado por uma vacância elevada em regiões como o Centro e a Cidade Nova, onde o desenvolvimento de novos ativos ainda não se justifica financeiramente. 

A estratégia vencedora no mercado carioca tem sido o flight to quality na Zona Sul, atraindo inquilinos de prédios inferiores para ativos Triple A, além da conversão de prédios corporativos obsoletos através de projetos como o "Reviver Centro". 
 
GRI Escritórios - Regiões consolidadas de SP e Nova Faria Lima - Áreas seguem prestigiadas e intocáveis?Executivos debatem na sessão "Regiões consolidadas de SP e Nova Faria Lima - Áreas seguem prestigiadas e intocáveis?". (GRI Institute)

Faria Lima ainda lidera em São Paulo

A região da Faria Lima continua sendo o epicentro da atratividade corporativa, com valores de locação superiores a R$ 300,00 por metro quadrado, absorção líquida de 26,3 mil metros quadrados e queda na taxa de vacância, de 17,3% para 11,6%.

Adicionalmente, os dados de performance dos submercados no último ano reforça a tendência de valorização generalizada, segundo um levantamento da Buildings sobre lajes corporativas A+ na capital paulista no 4º trimestre de 2025.

Pinheiros destacou-se na absorção líquida, com 26,3 mil metros quadrados ocupados e redução na taxa de vacância, de 17,3% para 11,6%. Na Chucri Zaidan, o índice caiu de 17,7% para 16,2%, enquanto na Avenida Paulista, a vacância atingiu 6,3%, o que impulsionou um aumento significativo nos preços.

Paralelamente, novas tendências de rentabilidade ganham força, como a integração de serviços e amenities estratégicos voltados para o bem-estar dos colaboradores - serviços que se tornaram essenciais para a retenção e fidelização de inquilinos.

No entanto, a localização continua sendo o principal fator decisivo, muitas vezes vinculada à proximidade com as residências dos executivos e ao status conferido por endereços de prestígio.

O futuro das regiões consolidadas também depende da infraestrutura urbana. Em São Paulo, os recursos provenientes dos CEPACs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), que somam cerca de R$ 2,2 bilhões, são essenciais para financiar melhorias em áreas chave da cidade. 

Esses recursos viabilizam projetos como o rebaixamento de vias na Juscelino Kubitschek, a revitalização do Largo da Batata e a expansão do metrô, iniciativas que são fundamentais para sustentar a valorização de regiões como Pinheiros e a "Nova Faria Lima".
 
GRI Escritórios - Investidores e novos direcionamentos - A atratividade dos escritórios será decidida pelo endereço ou pela resiliência?Discussão "Investidores e novos direcionamentos - A atratividade dos escritórios será decidida pelo endereço ou pela resiliência?" destaca novo apetite por lajes corporativas. (GRI Institute)

Oportunidades e riscos na expansão regional

A expansão regional e a descentralização do mercado corporativo brasileiro vão além da simples ocupação geográfica, consolidando-se como uma decisão estratégica fundamental para investidores e ocupantes em busca de novas oportunidades fora do eixo tradicional de São Paulo.

Para grandes investidores institucionais, o principal desafio ao avançar para regiões secundárias está na escala - fundos globais com bilhões de dólares sob gestão enfrentam dificuldades para justificar projetos de menor porte devido aos altos custos fixos de relatórios e gestão, o que acaba favorecendo investidores locais e family offices com maior capilaridade e conhecimento das dinâmicas regionais.

A disparidade técnica entre as exigências de clientes globais e a infraestrutura disponível no interior do país também é notável. Multinacionais exigem padrões rigorosos de segurança e saúde, que muitas vezes não estão presentes em cidades menores, forçando ajustes nos padrões corporativos ou dificultando locações imediatas.

Adicionalmente, observa-se um movimento crescente de retrofit e conversão de uso, no qual edifícios corporativos obsoletos são transformados em unidades residenciais ou hotéis. Essa prática ajuda a reduzir o estoque de prédios que dificilmente seriam novamente ocupados por escritórios.

Na execução, o retrofit é considerado uma solução ágil, desde que a estrutura original suporte as atualizações necessárias sem exigir intervenções complexas que inviabilizariam o custo de construção.

Apesar do otimismo em outras capitais e grandes cidades, a descentralização territorial exige cautela analítica. A liquidez de saída em áreas menos centrais é inferior, e a demanda pode ser volátil, sem apresentar fluxo contínuo de novos inquilinos após o término de contratos atípicos.
 
GRI Escritórios - Novos destinos corporativos - Quais as oportunidades e riscos na expansão regional?A sessão "Novos destinos corporativos - Quais as oportunidades e riscos na expansão regional?" abordou os investimentos em escritórios em diversas regiões do país. (GRI Institute)

Complexos de uso misto exigem gestão ativa

Desenvolver um empreendimento de uso misto não significa apenas empilhar funções, mas sim orquestrar a combinação de diferentes públicos, ciclos operacionais e demandas sem sacrificar a eficiência do capital ou a liquidez do ativo. 

O maior sucesso de um empreendimento dessa magnitude reside na gestão invisível dos fluxos de movimento e na preservação da experiência de cada público. 

O morador de um empreendimento de alto padrão, por exemplo, valoriza o acesso facilitado aos restaurantes do shopping, mas rejeita terminantemente compartilhar elevadores ou áreas comuns com o fluxo de pacientes de um hospital ou hóspedes de um hotel.

Essa complexidade também se estende à esfera técnica e jurídica, onde a interligação de torres obriga o cumprimento de legislações de segurança contra incêndio mais onerosas e exige convenções de condomínio milimetricamente detalhadas para evitar conflitos de custeio entre os diferentes usos.

Outro ponto de atenção é a "armadilha" da fachada ativa: embora incentivada pela legislação municipal da capital paulista, ela pode gerar lojas vazias caso sejam integradas sem planejamento e pesquisa adequada de vocação comercial, tornando-se um custo para o condomínio.

Fora dos grandes eixos como São Paulo e Rio de Janeiro, o modelo de uso misto revela uma força ainda mais impressionante devido à carência de infraestrutura de qualidade nas cidades do interior. 

A instalação de hotéis de bandeira internacional dentro de shoppings em cidades como Maringá ou Uberlândia frequentemente resulta em taxas de ocupação que superam os 90%, por oferecerem maior segurança, opções de lazer e conveniência em um único local. 

O futuro desse modelo parece caminhar para um diferencial que migra do design e da decoração para uma oferta de serviços de hotelaria 24 horas, como concierge e lava-rápido privativo, transformando a rotina do usuário em uma experiência de conveniência ininterrupta.
 

GRI Escritórios - Uso misto - Complexos multiuso vão moldar o setor ou ainda são exceção?Executivos discutem uma tendência crescente na sessão "Uso misto - Complexos multiuso vão moldar o setor ou ainda são exceção?". (GRI Institute)

Regulações, IA e ESG impactam as demandas de ocupação

Em São Paulo, observa-se um paradoxo estrutural evidente: enquanto o número de empresas que demandam áreas entre 5 mil e 10 mil metros quadrados cresceu 59% nos últimos 15 anos, o tamanho médio dos novos empreendimentos reduziu cerca de 12% devido às restrições do Plano Diretor. 

Essa fragmentação do estoque dificulta a consolidação de grandes operações em um único ativo, forçando uma ocupação mais pulverizada ou o deslocamento para áreas secundárias e retrofitadas.

Simultaneamente, a inteligência artificial (IA) começa a influenciar a dinâmica de ocupação, permitindo que as empresas aumentem a produção com menos funcionários ou estabilizem seus headcounts, muitas vezes adotando soluções de BPO (Business Process Outsourcing) - onde funções tradicionais de escritório, como atendimento ao cliente ou operações internas, são transferidas para parceiros externos.

No modelo de trabalho, consolidou-se o formato híbrido baseado na intencionalidade e na performance, transformando o escritório em um espaço de conexão e aproximação cultural, onde a presença da liderança atua como o principal catalisador para atrair os times de volta ao presencial.

A pauta de ESG (Ambiental, Social e Governança) também evoluiu de selos puramente projetuais para um pré-requisito para grandes ocupantes e multinacionais, abrangendo desde o uso de energia limpa e gestão de resíduos até exigências de certificações LEED e FitWell.

Financeiramente, o aumento exponencial nos custos de CAPEX para obras de mobiliário e tecnologia tornou-se um grande obstáculo para mudanças de sede, resultando na adoção crescente de soluções de managed offices - espaços de trabalho totalmente equipados e gerenciados por uma empresa fornecedora - e escritórios flexíveis. 

Em última análise, o sucesso da retenção de talentos e da ocupação produtiva depende de facilitar a vida do usuário para além das catracas, reduzindo o impacto do deslocamento urbano e entregando ambientes que os colaboradores efetivamente queiram frequentar.
 
GRI Escritórios - Demandas dos inquilinos, IA e ESG estão redefinindo os escritórios - ou o mercado ainda reage ao passado?A sessão de encerramento "Demandas dos inquilinos, IA e ESG estão redefinindo os escritórios - ou o mercado ainda reage ao passado?" analisou os fatores que estão definindo o futuro do setor. (GRI Institute)
 
Esses insights foram compartilhados durante a conferência "GRI Escritórios 2026", que contou com apresentação de abertura realizada por José Luiz Pimenta Jr. (BMJ) e discussões moderadas por Daniel Sznelwar (Tree Brasil), Dora Szwarc (BTG Pactual), Edson Ferrari (CBRE), Fabio Augusto Moraes Martins (JLL Brasil), Felipe Giuliano (CBRE), Patricia Valadares (GTIS Partners) e Ygor Chrispin (Colliers International).
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