No litoral de Santa Catarina, vendas superam lançamentos e compactos ganham espaço

Geração de empregos qualificados e alta renda dos moradores sustentam mercado de luxo, mas preferência por unidades menores aumenta

12 de maio de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:Henrique Cisman

Principais Insights

  • O mercado absorve mais do que produz: no primeiro trimestre de 2026, as vendas superaram os lançamentos em 613 unidades, e o VGV vendido (R$ 11,7 bilhões) ultrapassou o lançado (R$ 11 bilhões), configurando um ciclo de consumo de estoque que protege a sustentabilidade de preços na região.
  • Os imóveis compactos saltaram de 8% para 31% dos lançamentos entre 2022 e o primeiro trimestre de 2026, enquanto a classe média recuou de 77% para 53%.
  • O ciclo de negociação no luxo praticamente dobrou: em Balneário Camboriú, o tempo médio de fechamento passou de menos de três meses para mais de seis meses, evidenciando um comprador mais criterioso e um ambiente que penaliza precificação descolada de valor percebido.

O mercado imobiliário do litoral catarinense atravessa um ponto de inflexão que separa o crescimento acelerado dos últimos cinco anos de uma nova fase marcada por disciplina, seletividade e consolidação qualitativa.
 
Os dados do primeiro trimestre de 2026, apresentados com exclusividade pela Brain Inteligência Estratégica, revelam um mercado que, pela primeira vez em anos, vende mais do que lança: 8.421 unidades comercializadas contra 7.808 lançadas, sinalizando uma autorregulação rara em ciclos de expansão regional no Brasil.
 
Com um VGV vendido de R$ 11,7 bilhões, o litoral catarinense oferece um cenário de fundamentos sólidos, porém com margens de erro cada vez mais estreitas.

Macelo Gonçalves, sócio da Brain, apresenta dados atualizados do mercado residencial no litoral catarinense (Foto: GRI Institute)

Um descompasso que é, na verdade, equilíbrio

A redução de 25% nos lançamentos em relação ao primeiro trimestre de 2025 poderia, em uma leitura superficial, sugerir retração. A análise estratégica aponta para o oposto: trata-se de um mercado que internalizou as lições de ciclos anteriores e optou por moderar a oferta antes que o excesso comprometesse a sustentabilidade de preços. Quando as vendas superam os lançamentos de forma consistente, o estoque disponível se comprime, o poder de precificação se preserva e a saúde financeira das incorporadoras se fortalece.

Esse comportamento é particularmente relevante em um contexto onde a taxa Selic permanece próxima a 15% nos últimos 12 meses. O custo elevado do capital não destruiu a demanda, mas a represou. A intenção de compra nacional nos maiores níveis da série histórica, com 49% dos brasileiros declarando interesse em adquirir imóvel, funciona como uma energia potencial que aguarda o gatilho de condições de financiamento mais favoráveis.
 
Para o litoral catarinense, onde a demanda é sustentada por fundamentos demográficos e econômicos excepcionais, essa dinâmica representa uma reserva de liquidez futura.

Os números estruturais do litoral catarinense continuam a diferenciá-lo de qualquer outra região do país. O crescimento domiciliar de 75,3% entre 2010 e 2024 é praticamente o dobro do segundo colocado nacional, Goiás. Mais relevante ainda: a geração de empregos superou o crescimento populacional em 44% no mesmo período. Essa assimetria positiva entre oferta de trabalho e expansão demográfica configura algo raro no mercado imobiliário brasileiro: uma demanda ancorada em renda real e não em especulação de crédito.

Florianópolis ilustra bem essa dinâmica. O perfil predominante do comprador na capital catarinense é o de alguém que toma uma decisão de vida, isto é, uma migração motivada por qualidade de vida, segurança, infraestrutura e ambiente de negócios - e não uma decisão de investimento puro. Essa distinção é relevante porque confere ao mercado local uma resiliência superior aos ciclos macroeconômicos. Compradores que migram por convicção pessoal são menos sensíveis a oscilações de taxa de juros e mais comprometidos com a permanência, o que estabiliza tanto a demanda primária quanto o mercado secundário.

Compactos ganham espaço

Talvez a transformação mais significativa do mercado catarinense esteja na recomposição radical do mix de lançamentos. O segmento compacto, que representava apenas 8% da oferta em 2022, alcançou 31% no primeiro trimestre de 2026. Simultaneamente, o segmento de classe média recuou de 77% para 53%. Trata-se de uma reestruturação do mercado em resposta a mudanças demográficas, comportamentais e de acessibilidade.

O avanço dos compactos reflete a convergência de múltiplos vetores: famílias menores, profissionais remotos que priorizam localização sobre metragem, investidores que buscam rentabilidade por metro quadrado e um teto de acessibilidade que se elevou com os juros altos. Para as incorporadoras, essa mudança exige não apenas ajuste de planta, mas uma revisão completa da tese de produto e da estratégia de precificação.

A quase ausência de imóveis inseridos no programa Minha Casa, Minha Vida no litoral de Santa Catarina (apenas 1% do VGV) constitui simultaneamente uma vulnerabilidade estrutural e uma fronteira inexplorada. A vulnerabilidade reside na concentração excessiva em segmentos de média e alta renda; a oportunidade está na possibilidade de capturar uma faixa de demanda que hoje simplesmente não encontra oferta adequada.

Líderes de incorporadoras com projetos no litoral catarinense debatem o panorama e as perspectivas para a região (Foto: GRI Institute)

Luxo desacelera, mas não recua

O segmento de luxo e hiperluxo, especialmente beira-mar em Balneário Camboriú, atravessa um momento de recalibração. O alongamento do ciclo de negociação - de menos de três meses para mais de seis meses - não indica necessariamente enfraquecimento de demanda, mas uma mudança qualitativa no comportamento do comprador de altíssima renda, que tornou-se mais analítico, mais comparativo e menos impulsivo.
 
Em um ambiente de juros elevados, mesmo quem não depende de financiamento recalcula o custo de oportunidade do capital imobilizado. A consequência prática para incorporadoras é que a precificação aspiracional - aquela que se sustenta mais em narrativa do que em fundamentos - encontra resistência crescente. O mercado de luxo catarinense está migrando de um modelo de escassez para um modelo de valor demonstrado, onde diferenciação de produto, qualidade construtiva e reputação da incorporadora pesam mais do que a mera localização privilegiada.

O reajuste de insumos da construção, com o aço registrando alta de 12,5% em um único mês, impõe uma pressão de margens que funciona como mecanismo de seleção natural. Incorporadoras com disciplina de orçamento, contratos de fornecimento bem estruturados e capacidade de absorver volatilidade de custos sem comprometer qualidade ou cronograma encontram-se em posição de vantagem competitiva.
 
Aquelas que entraram no mercado catarinense atraídas pelo ciclo de alta, sem histórico operacional robusto e sem capitalização adequada, enfrentam um cenário de compressão que pode se tornar insustentável.

Na prática, observa-se uma consolidação setorial em curso. Não se trata de uma crise (os fundamentos não sustentam essa leitura), mas de um processo de maturação onde a barreira de entrada efetiva se eleva. O mercado catarinense está, na prática, selecionando seus operadores de longo prazo.

Destaques regionais

O litoral de Santa Catarina consolidou-se como o principal polo de segunda moradia e moradia híbrida do Brasil, com demanda originada predominantemente de São Paulo, Paraná (especialmente Curitiba), Rio Grande do Sul e do próprio interior catarinense, principalmente Joinville, Blumenau e Jaraguá do Sul.

Balneário Camboriú opera em um nicho de hiperluxo - acima de R$ 10 milhões por unidade - fortemente correlacionado ao ciclo do agronegócio brasileiro, o que torna o mercado local sensível à performance do setor primário e às condições de comércio exterior. 

Florianópolis diferencia-se do restante do litoral por atrair compradores em processo de migração permanente, e não apenas investidores ou veranistas. O novo aeroporto internacional, eleito o melhor do país por seis anos consecutivos, foi identificado como catalisador dessa transformação, viabilizando o modelo de moradia em Florianópolis com deslocamento semanal a São Paulo e outros centros financeiros. 

Itapema e Porto Belo concentram o maior volume de lançamentos e de novos entrantes no mercado, com aproximadamente 350 empreendimentos ativos. Porto Belo, historicamente secundária, equiparou-se a Itapema em dinâmica econômica e construtiva, impulsionada por empreendimentos-âncora como o Vivapark. 

Balneário Piçarras e Penha beneficiam-se do gargalo de trânsito entre Navegantes e Itajaí, que prejudica o acesso a Balneário Camboriú. Compradores de Curitiba, Joinville e Blumenau preferem essas cidades pela acessibilidade rodoviária e previsibilidade de deslocamento, configurando um mercado de segunda moradia com perfil de renda média-alta. 

A região norte do litoral catarinense (Itapoá, Barra Velha) apresenta o maior crescimento domiciliar percentual do país e recebe investimentos industriais expressivos, como os da WEG em Guaramirim, que devem ampliar a base de demanda habitacional nos próximos anos. 

O Campeche, no sul da ilha de Florianópolis, vive um processo de regularização urbanística após décadas de crescimento informal provocado por restrições excessivas do plano diretor. A proximidade com o aeroporto torna a região especialmente atrativa para o perfil de morador que trabalha remotamente ou viaja semanalmente a outros centros. 

Executivos participam de debate no GRI Fórum Litoral de Santa Catarina, realizado em Balneário Camboriú (Foto: GRI Institute)

O horizonte de 2026

A eventual redução da Selic tende a destravar decisões de compra represadas, injetando liquidez em um mercado que já opera com estoque controlado, uma combinação potencialmente favorável para a valorização dos preços. No entanto, a volatilidade internacional e a pressão inflacionária sobre insumos impõem um ritmo mais cadenciado de lançamentos, premiando incorporadoras que privilegiam margem sobre volume.

O litoral de Santa Catarina não está em crise nem em euforia, e sim em um momento raro e valioso, de maturação institucional. Mercados que aprendem a moderar seus ciclos de oferta, desenvolvem diversidade de produto e selecionam naturalmente seus operadores mais competentes tendem a construir trajetórias de valorização mais sustentáveis e menos voláteis. O próximo ciclo de crescimento pertencerá àqueles que souberam exercer disciplina durante a fase de consolidação.

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Os insights desse artigo são baseados em dados apresentados por Marcelo Gonçalves, sócio da Brain Inteligência Estratégica, e debatidos por executivos presentes no GRI Fórum Litoral de Santa Catarina, realizado em 7 de maio, em Balneário Camboriú. 
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