GRI InstituteMultifamily amadurece no Brasil, mas ganho de escala depende do mercado de capitais
Com base em dados apresentados pela CBRE, executivos debatem panorama atual e desafios para o segmento no Brasil
22 de maio de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:Henrique Cisman
Principais Insights
- O estoque total de multifamily no Brasil soma 14,4 mil unidades, uma fração irrisória frente ao mercado norte-americano, que conta com 18 milhões de unidades e concentra 40% da preferência de alocação dos investidores em 2026.
- Em São Paulo, epicentro do setor com 87 edifícios e 8,5 mil unidades, ativos com mais de 12 meses de operação registram ocupação de 84% e crescimento de locação média de 5,5% acima da inflação, sinalizando maturidade operacional consistente.
- A ausência de uma porta de saída consolidada no mercado de capitais permanece como o principal gargalo para a entrada de capital institucional de maior porte, mesmo diante de fundamentos estruturais robustos.
O multifamily brasileiro opera sobre uma contradição reveladora: os indicadores operacionais amadurecem trimestre a trimestre, com ocupação ascendente, crescimento real de aluguéis, demanda estrutural inequívoca, mas o capital institucional em grande escala permanece à margem, aguardando uma porta de saída que ainda não existe.
Com mais de 12 mil unidades em operação no segundo semestre de 2025 e uma taxa de ocupação de 84% no segmento long stay, em São Paulo, o multifamily brasileiro já provou sua tese operacional. O que falta é o mercado de capitais reconhecê-la.
Esses e outros dados foram apresentados pela CBRE no escritório da empresa em São Paulo, em uma mesa-redonda realizada pelo comitê de Multifamily & BTR do GRI Institute. Veja a seguir os principais insights.
Esses números, isoladamente, impressionam pouco quando confrontados com a escala norte-americana. Nos Estados Unidos, o multifamily iniciou o ano com volume de investimentos de US$ 29,5 bilhões apenas no primeiro trimestre, taxa de vacância de 4,8% e cap rate de 5,8% - competindo com o setor industrial e sustentando um prêmio de 1,63% sobre o Treasury de 10 anos. A absorção líquida superou as entregas em 1,34x, evidenciando uma demanda robusta mesmo após o ciclo massivo de construções do período pós-pandemia. Quase 15% dos REITs norte-americanos são residenciais; no Brasil, essa fatia não alcança 1%.
A comparação serve como régua de ambição. O mercado americano levou décadas para atingir esse grau de institucionalização. O brasileiro, com menos de uma década de operação relevante, já demonstra fundamentos que justificam uma trajetória semelhante, desde que o ecossistema de capitais acompanhe.
O debate entre gestores e investidores que acompanham o setor de perto converge para um ponto estrutural: o multifamily brasileiro não depende de otimismo cíclico, ou seja, sua tese se sustenta sobre um descolamento macroeconômico que se aprofunda a cada trimestre no Brasil.
O custo de financiamento imobiliário opera em patamares que tornam a aquisição da casa própria progressivamente inviável para a classe média. Simultaneamente, o preço do metro quadrado nas grandes capitais mantém trajetória ascendente, comprimindo ainda mais a capacidade de compra. O resultado é uma migração estrutural da casa própria para a locação. Quando o aluguel se torna necessidade, e não uma alternativa, o terreno para a institucionalização se consolida.
Esse fenômeno não é exclusividade brasileira. Mercados europeus e asiáticos percorreram caminhos semelhantes, com a profissionalização da locação residencial acompanhando ciclos de encarecimento do crédito e valorização imobiliária. A diferença é que, no Brasil, a transição ocorre em um ambiente onde a oferta institucional ainda é residual, o que configura, simultaneamente, oportunidade e risco.
Os resultados do segundo semestre de 2025 são encorajadores: a taxa de ocupação de 84% para ativos long stay com mais de 12 meses de operação demonstra que a curva de estabilização existe e é previsível. O crescimento de locação média em 5,5% acima da inflação no período indica poder de precificação real, um atributo que poucos setores imobiliários brasileiros conseguem sustentar de forma consistente.
Contudo, a análise mais detalhada revela nuances importantes. A performance varia significativamente conforme a localização, o perfil do produto e a qualidade da gestão operacional. Ativos bem posicionados, com projeto arquitetônico adequado ao público-alvo e gestão profissionalizada atingem patamares de ocupação e rentabilidade que validam plenamente a tese. Produtos mal concebidos enfrentam curvas de estabilização mais longas e margens comprimidas.
Essa heterogeneidade de performance reforça um ponto central: o multifamily não é uma tese genérica, e sim uma tese de execução. O produto precisa ser corretamente concebido desde a origem, e isso exige uma sofisticação de desenvolvimento que nem todos os players do mercado imobiliário tradicional possuem.
O ciclo completo de investimento em multifamily pressupõe desenvolvimento, estabilização operacional e, eventualmente, desinvestimento - seja via venda de portfólio, seja via veículo listado no mercado de capitais. No Brasil, nenhuma dessas rotas de saída foi percorrida com sucesso em escala relevante. Não houve IPO de fundo imobiliário residencial de porte significativo; as transações secundárias de portfólio são escassas e carecem de referências de preço.
Para investidores institucionais, como fundos de pensão, gestoras de recursos e family offices de maior porte, essa ausência de liquidez é um impedimento concreto. Não se trata de desconfiança em relação à tese, mas de impossibilidade de equacionar o ciclo completo de investimento dentro dos parâmetros de governança e mandato que regem essas alocações.
O paradoxo é evidente: o mercado precisa de volume para gerar liquidez, mas precisa de liquidez para atrair o volume. Romper esse ciclo exige um evento catalisador, como uma transação de referência, um veículo listado bem-sucedido ou uma consolidação de portfólio que estabeleça parâmetros de mercado.
De outro lado, investidores com capital disponível e apetite declarado pelo setor reconhecem a robustez da tese, mas não conseguem comprometer recursos sem visibilidade sobre o desinvestimento. A assimetria de informação entre quem opera e quem aloca cria um vácuo que retarda a institucionalização. Essa é a mensagem capturada.
Tal dicotomia não é necessariamente negativa. Ela impõe disciplina ao setor, filtra operadores menos preparados e força uma maturação orgânica que, embora mais lenta, tende a ser mais sólida. Mercados que se institucionalizam prematuramente frequentemente enfrentam correções dolorosas. O Brasil, nesse sentido, pode estar construindo fundações mais resistentes justamente porque o capital paciente ainda não foi substituído pelo capital especulativo.
A projeção de 20,6 mil unidades até 2028 representa um crescimento expressivo em relação à base atual, mas permanece irrisória frente à demanda potencial. O déficit habitacional brasileiro, a urbanização concentrada nas grandes capitais e a transformação demográfica em curso - com redução do tamanho médio das famílias e aumento da mobilidade profissional - configuram um mercado endereçável que supera em ordens de magnitude a oferta projetada.
O que separa o Brasil de sua própria ambição não é a ausência de demanda nem a falta de operadores competentes, e nem mesmo a escassez de capital. É a ausência de infraestrutura de mercado de capitais adequada ao setor. Fundos imobiliários residenciais com liquidez, benchmarks de avaliação reconhecidos, transações de referência que estabeleçam parâmetros de preço são os elementos que faltam para que o multifamily brasileiro dê o salto que seus fundamentos já justificam.
A experiência norte-americana, onde o multifamily responde por 40% da preferência de alocação em real estate, demonstra que, uma vez estabelecida a infraestrutura de mercado, o capital flui com velocidade. O desafio brasileiro é construir essa infraestrutura em um ambiente de juros elevados, volatilidade macroeconômica e cultura de propriedade ainda predominante.
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Este artigo é baseado na apresentação e nos insights compartilhados na mesa-redonda "Multifamily no Brasil - já atingiu maturidade ou segue como aposta?", realizada na sede da CBRE, em São Paulo, com as participações especiais de Edson Ferrari (CBRE), Giuliano Ricci (Patria Investimentos), Martin Jaco (BGR Asset Management) e Rodolfo Senra (Brio Investimentos).
Com mais de 12 mil unidades em operação no segundo semestre de 2025 e uma taxa de ocupação de 84% no segmento long stay, em São Paulo, o multifamily brasileiro já provou sua tese operacional. O que falta é o mercado de capitais reconhecê-la.
Esses e outros dados foram apresentados pela CBRE no escritório da empresa em São Paulo, em uma mesa-redonda realizada pelo comitê de Multifamily & BTR do GRI Institute. Veja a seguir os principais insights.
Um mercado que cresce na operação e trava no capital
Os dados apresentados pela CBRE desenham um retrato nítido: o multifamily brasileiro é um setor em construção, literal e figurativamente. Das 14,4 mil unidades que compõem o estoque total, a maior concentração está no segmento long stay - quase 60% - seguido por short stay (27%) e student living (14%). A projeção aponta para 20,6 mil unidades no país até 2028, com São Paulo respondendo por mais de dois terços.Esses números, isoladamente, impressionam pouco quando confrontados com a escala norte-americana. Nos Estados Unidos, o multifamily iniciou o ano com volume de investimentos de US$ 29,5 bilhões apenas no primeiro trimestre, taxa de vacância de 4,8% e cap rate de 5,8% - competindo com o setor industrial e sustentando um prêmio de 1,63% sobre o Treasury de 10 anos. A absorção líquida superou as entregas em 1,34x, evidenciando uma demanda robusta mesmo após o ciclo massivo de construções do período pós-pandemia. Quase 15% dos REITs norte-americanos são residenciais; no Brasil, essa fatia não alcança 1%.
A comparação serve como régua de ambição. O mercado americano levou décadas para atingir esse grau de institucionalização. O brasileiro, com menos de uma década de operação relevante, já demonstra fundamentos que justificam uma trajetória semelhante, desde que o ecossistema de capitais acompanhe.
Edson Ferrari (CBRE) apresentou dados exclusivos sobre o segmento multifamily no Brasil (Foto: GRI Institute)
O debate entre gestores e investidores que acompanham o setor de perto converge para um ponto estrutural: o multifamily brasileiro não depende de otimismo cíclico, ou seja, sua tese se sustenta sobre um descolamento macroeconômico que se aprofunda a cada trimestre no Brasil.
O custo de financiamento imobiliário opera em patamares que tornam a aquisição da casa própria progressivamente inviável para a classe média. Simultaneamente, o preço do metro quadrado nas grandes capitais mantém trajetória ascendente, comprimindo ainda mais a capacidade de compra. O resultado é uma migração estrutural da casa própria para a locação. Quando o aluguel se torna necessidade, e não uma alternativa, o terreno para a institucionalização se consolida.
Esse fenômeno não é exclusividade brasileira. Mercados europeus e asiáticos percorreram caminhos semelhantes, com a profissionalização da locação residencial acompanhando ciclos de encarecimento do crédito e valorização imobiliária. A diferença é que, no Brasil, a transição ocorre em um ambiente onde a oferta institucional ainda é residual, o que configura, simultaneamente, oportunidade e risco.
São Paulo como laboratório
A capital paulista concentra a maior parte da experiência acumulada do setor no Brasil. Com 87 edifícios e 8,5 mil unidades em operação, São Paulo funciona como o laboratório onde as premissas do multifamily brasileiro são testadas.Os resultados do segundo semestre de 2025 são encorajadores: a taxa de ocupação de 84% para ativos long stay com mais de 12 meses de operação demonstra que a curva de estabilização existe e é previsível. O crescimento de locação média em 5,5% acima da inflação no período indica poder de precificação real, um atributo que poucos setores imobiliários brasileiros conseguem sustentar de forma consistente.
Contudo, a análise mais detalhada revela nuances importantes. A performance varia significativamente conforme a localização, o perfil do produto e a qualidade da gestão operacional. Ativos bem posicionados, com projeto arquitetônico adequado ao público-alvo e gestão profissionalizada atingem patamares de ocupação e rentabilidade que validam plenamente a tese. Produtos mal concebidos enfrentam curvas de estabilização mais longas e margens comprimidas.
Essa heterogeneidade de performance reforça um ponto central: o multifamily não é uma tese genérica, e sim uma tese de execução. O produto precisa ser corretamente concebido desde a origem, e isso exige uma sofisticação de desenvolvimento que nem todos os players do mercado imobiliário tradicional possuem.
A porta de saída que não se abre
Se os fundamentos operacionais amadurecem, por que o capital institucional de maior porte ainda hesita? A resposta, conforme apontam os executivos presentes, é objetiva: não há porta de saída consolidada.O ciclo completo de investimento em multifamily pressupõe desenvolvimento, estabilização operacional e, eventualmente, desinvestimento - seja via venda de portfólio, seja via veículo listado no mercado de capitais. No Brasil, nenhuma dessas rotas de saída foi percorrida com sucesso em escala relevante. Não houve IPO de fundo imobiliário residencial de porte significativo; as transações secundárias de portfólio são escassas e carecem de referências de preço.
Martin Jaco (BGR Asset Management) foi um dos painelistas convidados para debater o tema (Foto: GRI Institute)
Para investidores institucionais, como fundos de pensão, gestoras de recursos e family offices de maior porte, essa ausência de liquidez é um impedimento concreto. Não se trata de desconfiança em relação à tese, mas de impossibilidade de equacionar o ciclo completo de investimento dentro dos parâmetros de governança e mandato que regem essas alocações.
O paradoxo é evidente: o mercado precisa de volume para gerar liquidez, mas precisa de liquidez para atrair o volume. Romper esse ciclo exige um evento catalisador, como uma transação de referência, um veículo listado bem-sucedido ou uma consolidação de portfólio que estabeleça parâmetros de mercado.
Quais as tendências?
O momento atual do multifamily brasileiro é marcado por uma tensão produtiva. De um lado, gestores que já operam portfólios relevantes acumulam evidências concretas de que o modelo funciona: ocupação crescente, aluguéis reais em expansão, maturidade operacional que se aprofunda a cada ciclo. Esses operadores já superaram a fase de prova de conceito e operam em modo de escala (ainda que seja uma escala modesta pelos padrões internacionais).De outro lado, investidores com capital disponível e apetite declarado pelo setor reconhecem a robustez da tese, mas não conseguem comprometer recursos sem visibilidade sobre o desinvestimento. A assimetria de informação entre quem opera e quem aloca cria um vácuo que retarda a institucionalização. Essa é a mensagem capturada.
Tal dicotomia não é necessariamente negativa. Ela impõe disciplina ao setor, filtra operadores menos preparados e força uma maturação orgânica que, embora mais lenta, tende a ser mais sólida. Mercados que se institucionalizam prematuramente frequentemente enfrentam correções dolorosas. O Brasil, nesse sentido, pode estar construindo fundações mais resistentes justamente porque o capital paciente ainda não foi substituído pelo capital especulativo.
A projeção de 20,6 mil unidades até 2028 representa um crescimento expressivo em relação à base atual, mas permanece irrisória frente à demanda potencial. O déficit habitacional brasileiro, a urbanização concentrada nas grandes capitais e a transformação demográfica em curso - com redução do tamanho médio das famílias e aumento da mobilidade profissional - configuram um mercado endereçável que supera em ordens de magnitude a oferta projetada.
O que separa o Brasil de sua própria ambição não é a ausência de demanda nem a falta de operadores competentes, e nem mesmo a escassez de capital. É a ausência de infraestrutura de mercado de capitais adequada ao setor. Fundos imobiliários residenciais com liquidez, benchmarks de avaliação reconhecidos, transações de referência que estabeleçam parâmetros de preço são os elementos que faltam para que o multifamily brasileiro dê o salto que seus fundamentos já justificam.
A experiência norte-americana, onde o multifamily responde por 40% da preferência de alocação em real estate, demonstra que, uma vez estabelecida a infraestrutura de mercado, o capital flui com velocidade. O desafio brasileiro é construir essa infraestrutura em um ambiente de juros elevados, volatilidade macroeconômica e cultura de propriedade ainda predominante.
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Este artigo é baseado na apresentação e nos insights compartilhados na mesa-redonda "Multifamily no Brasil - já atingiu maturidade ou segue como aposta?", realizada na sede da CBRE, em São Paulo, com as participações especiais de Edson Ferrari (CBRE), Giuliano Ricci (Patria Investimentos), Martin Jaco (BGR Asset Management) e Rodolfo Senra (Brio Investimentos).