
Liderança feminina redefine a execução imobiliária no Peru enquanto figuras tradicionais colapsam
Paola Lazarte, Verónica Zambrano e a governança que o real estate andino precisa diante da crise dos velhos players do setor.
Resumo Executivo
Principais Insights
- O colapso de figuras tradicionais como Rawlins e Alaluf em 2026 evidenciou falhas de governança, não de mercado, já que o setor imobiliário peruano projeta crescer entre 7% e 8%.
- Líderes como Verónica Zambrano (Ositran) e Paola Lazarte trazem rigor técnico e conhecimento regulatório que o mercado premia com estabilidade e acesso a capital.
- O corte de 50% nos subsídios habitacionais no Peru exige lideranças orientadas à estruturação técnica e financiamento misto.
- A governança institucional substituiu o capital relacional como fator determinante de sucesso no real estate andino.
O contraste que define o real estate andino em 2026
O mercado imobiliário da região andina atravessa uma inflexão estrutural. Enquanto figuras históricas do setor enfrentam processos de liquidação e falência, perfis femininos com trajetória técnica, regulatória e de gestão de capital consolidam posições estratégicas na tomada de decisões. O fenômeno transcende a agenda de diversidade corporativa: trata-se de uma mudança na arquitetura do deal-making regional, onde a governança e a solidez institucional deslocam os modelos centrados em redes pessoais masculinas que dominaram durante décadas.
A evidência é concreta. Em fevereiro de 2026, José Miguel Rawlins, fundador da Bicentenario Capital, entrou em processo de liquidação forçada por dívidas não pagas, conforme reportaram La Tercera e GRI Hub News. No mesmo mês, a incorporadora ligada a Alberto Alaluf faliu após uma reorganização fracassada, marcando, segundo La Tercera, a crise de figuras tradicionais do setor. Dois protagonistas de uma geração que estruturou operações de grande escala no Chile e no Peru saíram do tabuleiro em questão de semanas.
No extremo oposto, Verónica Zambrano continua à frente da Ositran, o órgão regulador da infraestrutura de transporte de uso público no Peru, após ser ratificada como Presidenta do Conselho Diretivo por um período de cinco anos mediante a Resolução Suprema N° 060-2023-PCM, segundo a Agência Andina. Paola Lazarte, cuja gestão anterior à frente do Ministério de Transportes e Comunicações destravou projetos de infraestrutura-chave, mantém influência estratégica na estruturação de projetos no âmbito privado e de consultoria.
O contraste levanta uma pergunta que os investidores institucionais já formulam em fóruns como os organizados pelo GRI Institute: o liderazgo feminino na região andina representa uma variável de mitigação de risco para o capital imobiliário?
Por que o colapso de figuras tradicionais valida um novo modelo de governança?
A queda simultânea de Rawlins e Alaluf não se deve a um ciclo macroeconômico adverso generalizado. O mercado imobiliário peruano projeta uma expansão de 7% a 8% em 2026, segundo dados do GRI Institute, impulsionado pelos segmentos médio e alto. O investimento imobiliário chileno no Peru, longe de se contrair, superará os US$ 200 milhões até o final de 2025 e início de 2026, liderado por capital corporativo como Echeverría Izquierdo e Paz Corp, de acordo com GRI Hub News e Diario Financiero.
O problema das figuras em crise foi de governança, não de mercado. Os modelos de negócio construídos sobre relações pessoais, alavancagem agressiva e estruturas de governance opacas mostraram-se vulneráveis justamente quando as condições exigiam transparência e disciplina financeira. A falência após uma reorganização fracassada, como no caso da incorporadora vinculada a Alaluf, revela a incapacidade de adaptar estruturas corporativas a padrões institucionais mais exigentes.
A liderança feminina que emerge na região andina se caracteriza por atributos opostos: formação técnica rigorosa, inserção institucional formal e orientação à execução mensurável. Verónica Zambrano, pela Ositran, regula concessões de infraestrutura que são a espinha dorsal da conectividade logística peruana, um ativo crítico para o desenvolvimento imobiliário em corredores urbanos e periurbanos. Sua permanência no cargo, em um ambiente político peruano marcado pela instabilidade, constitui por si só um sinal de solidez institucional.
Paola Lazarte representa um perfil complementar. Sua passagem pelo Ministério de Transportes e Comunicações deixou como legado o destrabe de projetos que haviam permanecido paralisados durante anos. Essa abordagem de execução, transferida agora ao âmbito privado, introduz nas mesas de negociação uma lógica de gestão regulatória e viabilidade técnica que os atores puramente financeiros frequentemente subestimam.
A governança institucional demonstrou ser mais resiliente que o capital relacional. Essa é a lição central que o colapso dos velhos players deixa ao mercado andino.
Como o corte de subsídios impacta a dinâmica de poder do setor imobiliário peruano?
O contexto fiscal peruano adiciona uma camada de complexidade que amplifica a relevância dessas mudanças de liderança. A Lei de Orçamento do Setor Público para o Ano Fiscal de 2026 estabeleceu um corte de 50% nos fundos destinados a subsídios habitacionais, incluindo o Bono del Buen Pagador e Techo Propio, conforme reportaram Infobae e a Confederação de Desenvolvedores Imobiliários do Peru (CODIP). A consequência direta: o número de famílias peruanas que poderão acessar subsídios habitacionais será reduzido drasticamente em 2026, de acordo com CODIP e a Revista Constructivo.
Diante da magnitude do corte, o Ministério da Habitação autorizou em março de 2026 uma transferência emergencial de S/ 519 milhões ao Fundo Mivivienda para a modalidade de Construção em Terreno Próprio, segundo a Resolução Ministerial N° 065-2026-VIVIENDA publicada no Diário Oficial El Peruano. A medida mitiga parcialmente o impacto, mas não reverte a tendência fiscal restritiva.
Um ambiente de subsídios reduzidos exige exatamente o tipo de liderança que privilegia a estruturação técnica sobre a especulação: capacidade de navegar marcos regulatórios, articular financiamento misto e gerir risco político. Nesse contexto, perfis como os de Zambrano e Lazarte ganham relevância estratégica. A regulação de infraestrutura, âmbito de Zambrano na Ositran, determina a viabilidade de projetos habitacionais em zonas de expansão urbana. A experiência em destrabe de projetos que caracteriza Lazarte é crítica quando o capital público se contrai e a iniciativa privada deve compensar com eficiência de execução.
Os desenvolvedores que participam dos encontros regionais do GRI Institute, como o Peru GRI, reconhecem que a contração fiscal obriga a redefinir alianças. O capital corporativo chileno que ingressa no mercado peruano, representado por firmas como Echeverría Izquierdo e Paz Corp, busca contrapartes institucionais sólidas. A preferência por interlocutores com credenciais técnicas verificáveis e trajetória regulatória se acentua em um ciclo onde os subsídios estatais deixam de ser o motor principal da demanda em segmentos de habitação social.
A região andina diante de uma mudança de paradigma em suas redes de decisão
O fenômeno observado no Peru tem implicações para toda a região andina. Colômbia, Chile e os mercados centro-americanos enfrentam dinâmicas similares: transição geracional na liderança empresarial, maior escrutínio regulatório sobre estruturas de governance e pressão de investidores institucionais por padrões ESG que incluem diversidade em posições de decisão.
A liderança feminina no real estate andino não é uma tendência aspiracional; é uma resposta funcional às falhas estruturais que o colapso de figuras tradicionais expôs em 2026. A capacidade de Verónica Zambrano de sustentar a presidência de um órgão regulador-chave durante um período de alta rotação política, ou a influência de Paola Lazarte na estruturação de projetos complexos após sua gestão ministerial, representam modelos de liderança que o mercado está premiando com estabilidade e acesso a capital.
A comunidade de líderes que integra o GRI Institute identificou essa transição como um dos eixos de análise para seus encontros regionais em 2026. A pergunta para investidores e desenvolvedores já não é se a composição das mesas de decisão importa, mas como acelerar a incorporação de perfis que demonstrem a combinação de rigor técnico, conhecimento regulatório e capacidade de execução que o ciclo atual exige.
O real estate andino se encontra em um ponto de bifurcação. Os atores que compreenderem que a governança institucional substituiu o capital relacional como fator determinante de sucesso terão vantagem competitiva. Quem seguir operando com as lógicas do ciclo anterior enfrentará o mesmo destino dos nomes que dominaram as manchetes de fevereiro de 2026 — desta vez não por suas conquistas, mas por seus processos de liquidação.