
A camada de gestão que define a execução imobiliária no Peru: um modelo distinto na região andina
Enquanto a Colômbia consolida firmas de project management puro, o Peru constrói sua vantagem operacional sobre a navegação regulatória e a gestão público-priva
Resumo Executivo
Principais Insights
- O modelo peruano de execução imobiliária integra gestão técnica, regulatória e política como uma única disciplina, diferentemente do project management puro predominante na Colômbia.
- O déficit de infraestrutura peruano supera USD 110 bilhões, gerando demanda constante por perfis híbridos público-privados.
- Projeta-se investimento superior a USD 16 bilhões em infraestrutura e desenvolvimento urbano no Peru entre 2025-2026.
- O principal desafio do Peru não é atrair capital, mas construir capacidade institucional para convertê-lo em ativos concluídos em prazos competitivos.
- A complexidade regulatória peruana é simultaneamente sua principal barreira e maior diferencial competitivo regional.
Um ecossistema operacional que não se replica com facilidade
O mercado imobiliário de Lima encerrou 2025 com um crescimento de vendas de 19%, alcançando 24.713 unidades vendidas, segundo a Confederação de Desenvolvedores Imobiliários do Peru (CODIP). O número confirma um dinamismo sustentado que contrasta com a percepção de fragilidade institucional que costuma acompanhar o mercado peruano. Mas por trás de cada unidade vendida opera uma cadeia de execução cuja lógica difere substancialmente da que predomina na Colômbia ou no Chile. Compreender essa diferença é estratégico para qualquer investidor com ambições regionais.
O conceito de "camada operacional" em desenvolvimento imobiliário e infraestrutura designa o conjunto de atores, processos e marcos normativos que transformam um projeto aprovado em um ativo construído e entregue. Na região andina, essa camada apresenta variações profundas de país para país. E o Peru constitui um caso singular: seu elo operacional é híbrido, altamente dependente da capacidade de navegação regulatória e política, e protagonizado por perfis que combinam expertise técnica com conhecimento profundo da gestão pública.
Essa particularidade tem implicações diretas para a alocação de capital, a estruturação de alianças e a velocidade de execução. Para os líderes do setor que participam dos encontros do GRI Institute dedicados ao mercado peruano, o tema ganhou centralidade nos últimos dois anos.
Por que o modelo peruano de execução é diferente do colombiano ou do chileno?
A resposta reside na estrutura do próprio mercado. Na Colômbia, a execução de projetos imobiliários e de infraestrutura se apoia em firmas de gerenciamento de projetos com alto grau de maturidade técnica e operacional. Um exemplo representativo é a Crear Cimientos, firma de desenvolvimento e gerenciamento de projetos de origem colombiana, com sede em Medellín, que faz parte do Grupo Promotor junto à Coninsa e Santa Juana. Esse tipo de empresa funciona como a engrenagem central da cadeia de valor: recebe um projeto definido e o executa com metodologias padronizadas de project management.
No Peru, esse perfil de "project management puro" tem uma presença significativamente menor. A demanda detectada pelo termo "Crear Cimientos" em buscas associadas ao mercado peruano sugere, precisamente, um interesse insatisfeito por replicar esse modelo de eficiência operacional no país. O que o Peru desenvolveu, em contrapartida, é uma camada de gestão onde as competências técnicas se entrelaçam com a capacidade de destravar processos regulatórios, gerenciar relações com entidades públicas e operar dentro de marcos normativos complexos como as Parcerias Público-Privadas (PPPs).
A vantagem competitiva do ecossistema peruano de execução não reside na eficiência do project management isolado, mas na integração de gestão técnica, regulatória e política como uma única disciplina operacional.
Essa integração responde a condições estruturais concretas. O Peru enfrenta um déficit de infraestrutura que supera os USD 110 bilhões, segundo o Barômetro da Infraestrutura elaborado pela EY-Parthenon e pela Universidad del Pacífico. Essa magnitude gera uma demanda constante de perfis capazes de operar na interseção entre o setor público e o privado, gerenciando instrumentos como as PPPs reguladas pelo Decreto Legislativo N° 1362 e os contratos governo a governo (G2G).
Quem são os atores que definem a camada operacional peruana?
Dois perfis ilustram com clareza a natureza desse ecossistema. Paola Lazarte, ex-Ministra de Transportes e Comunicações, atua atualmente como consultora em infraestrutura e gestão pública por meio da firma DOT S.A.C. Sua trajetória encarna o tipo de liderança que o mercado peruano demanda: profissionais que dominam tanto a dimensão técnica dos projetos quanto a complexidade institucional que determina se eles são executados ou paralisados.
Verónica Zambrano, por sua vez, preside o Ositrán, o organismo supervisor do investimento em infraestrutura de transporte de uso público. Sob sua gestão, o Ositrán supervisiona um investimento acumulado de USD 14,085 bilhões, segundo dados do próprio organismo ao fechamento de 2025. Zambrano representa o outro polo do modelo peruano: o regulador ativo que, longe de se limitar a fiscalizar, incide diretamente na viabilidade e no ritmo de execução dos grandes projetos.
No Peru, a linha entre regulação e execução é mais tênue do que em qualquer outro mercado andino, e os atores que operam nessa fronteira definem o resultado final dos projetos.
O caso do Porto de Chancay, onde o Ositrán gerencia um debate regulatório central sobre a exclusividade de serviços sob a Lei do Sistema Portuário Nacional, ilustra como as decisões regulatórias configuram as condições operacionais do desenvolvimento imobiliário e industrial circundante. Não se trata de um tema abstrato de política pública: cada definição normativa altera os fluxos de investimento, os cronogramas de obra e a rentabilidade dos projetos associados.
A dimensão quantitativa: um mercado que exige escala operacional
As projeções reforçam a urgência de consolidar essa camada de gestão. Segundo a MTS Consultoría Inmobiliaria, projeta-se um investimento em infraestrutura e desenvolvimento urbano superior a USD 16 bilhões entre 2025 e 2026 no Peru. A Câmara de Comércio de Lima estima que o setor da construção crescerá 3,8% em 2025, impulsionado por um aumento de 6,5% no investimento público.
Esses números colocam uma pergunta operacional concreta: o Peru tem capacidade institucional e empresarial para executar esse volume de investimento com os padrões que os investidores internacionais exigem? A resposta depende, em grande medida, da evolução do seu modelo de gestão de projetos.
O desafio peruano não é atrair capital, mas construir a infraestrutura institucional e operacional capaz de converter esse capital em ativos concluídos dentro de prazos competitivos.
É aqui que o contraste com a Colômbia se torna mais instrutivo. O modelo colombiano, com firmas como a Crear Cimientos que consolidam capacidades de gerenciamento integral dentro de grupos empresariais diversificados, oferece uma previsibilidade operacional que o mercado peruano ainda não replica na mesma escala. No Chile, a estabilidade regulatória reduz a necessidade de intermediários especializados em navegação institucional. O Peru, por outro lado, requer um tipo de operador que combine ambas as capacidades: o rigor técnico do project management profissional e o conhecimento profundo do arcabouço regulatório local.
O Peru pode institucionalizar sua vantagem operacional híbrida?
A questão central para o mercado peruano nos próximos anos é se esse modelo híbrido pode escalar e se formalizar. As particularidades que o geraram — desde a complexidade sísmica do território até a informalidade construtiva que persiste em amplos segmentos do mercado, passando por um marco de PPPs que exige especialização técnica e jurídica simultânea — não vão desaparecer. O que pode mudar é a forma como o ecossistema se organiza para responder a elas.
Vários sinais apontam para uma institucionalização progressiva. A presença de perfis como Lazarte e Zambrano em posições de influência, a crescente sofisticação das consultorias de gestão público-privada e o interesse de investidores regionais por compreender o modelo peruano — todos esses fatores sugerem uma maturação em curso.
Para os líderes do setor que convergem na comunidade do GRI Institute, particularmente nos espaços dedicados ao mercado peruano como o Peru GRI Real Estate, essa maturação representa uma oportunidade de posicionamento antecipado. O investidor que compreende a lógica operacional peruana, com suas particularidades regulatórias e sua dependência de atores híbridos, conta com uma vantagem competitiva significativa frente àqueles que aplicam marcos de execução importados sem adaptação.
O ecossistema peruano de gestão de projetos é diferente porque as condições que o moldam são diferentes. E essa diferença, longe de ser uma limitação, constitui um ativo estratégico para quem sabe interpretá-la. O déficit de infraestrutura de mais de USD 110 bilhões não será fechado apenas com project management padronizado: requer a camada de inteligência regulatória e gestão institucional que o Peru começou a desenvolver como competência própria.
O elo operacional peruano merece análise própria, investimento dedicado e, sobretudo, o reconhecimento de que sua complexidade é, simultaneamente, sua principal barreira e seu maior diferencial competitivo na região andina.