
Executivas como Fernanda Bassanesi estão alterando a lógica de governança e originação de capital no real estate brasileiro
A presença feminina em comitês de investimento e conselhos de administração transforma métricas de risco, compliance e captação no setor imobiliário
Resumo Executivo
Principais Insights
- Mulheres ocupam 36,7% dos cargos de liderança sênior no Brasil em 2026, mais que o dobro dos 15,2% de 2015.
- O Anexo ASG da B3 e a Lei 15.177/2025 exigem diversidade em conselhos, e 77% das empresas listadas já atendem aos critérios.
- O mercado de FIIs pode ganhar 400 mil novos investidores em 2026, aumentando a demanda por governança robusta.
- A participação feminina na construção civil cresceu 120% na última década.
- Executivas como Fernanda Bassanesi demonstram que diversidade nos conselhos fortalece originação de capital e gestão de risco.
A governança imobiliária brasileira passa por uma inflexão estrutural
O mercado imobiliário brasileiro construiu suas práticas de governança e originação de capital ao longo de décadas sob um modelo decisório com pouca diversidade de perspectivas nos cargos de comando. Esse cenário está em mutação acelerada. Executivas como Fernanda Bassanesi, presidente do Conselho de Administração do Grupo EPR, ocupam hoje posições que definem a estratégia de alocação de capital, a seleção de ativos e a estruturação de veículos de investimento em infraestrutura e real estate. A mudança transcende a dimensão simbólica da representatividade: altera processos decisórios concretos e redesenha a forma como o setor origina, avalia e executa negócios.
Segundo dados do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), apenas 16,1% dos cargos de administração em empresas brasileiras de capital aberto eram ocupados por mulheres em 2024. O número expõe um descompasso entre a complexidade crescente do mercado e a homogeneidade de seus órgãos de decisão. No entanto, o movimento regulatório recente e a pressão institucional por melhores práticas de governança estão comprimindo essa lacuna com velocidade inédita.
O dado mais revelador dessa transformação vem do relatório Mulheres nos Negócios da Grant Thornton, publicado em março de 2026: a porcentagem de cargos de liderança sênior ocupados por mulheres no Brasil atingiu 36,7%, um salto expressivo em relação aos 15,2% registrados em 2015. Em pouco mais de uma década, a presença feminina nas camadas superiores de decisão mais que dobrou. Para o setor imobiliário, essa evolução carrega implicações diretas sobre como se estrutura capital, como se avaliam riscos e como se conduzem comitês de investimento.
Como a presença feminina em conselhos e comitês de investimento altera a originação de deals no real estate?
A originação de capital e a estruturação de deals no mercado imobiliário brasileiro dependem de redes de relacionamento, critérios de underwriting e processos de due diligence que, historicamente, foram moldados por perfis profissionais semelhantes. Executivos como Vinicius Mastrorosa, sócio da NM Capital, e Sidney Angulo, investidor veterano com mais de quatro décadas de atuação, representam uma geração que consolidou práticas fundamentais de estruturação. A entrada de mulheres em posições equivalentes de poder decisório adiciona camadas de análise que enriquecem o processo.
Fernanda Bassanesi exemplifica essa dinâmica. Ao presidir o Conselho de Administração do Grupo EPR, ela participa diretamente das deliberações sobre alocação de recursos, governança dos ativos e relacionamento com investidores. Sua atuação demonstra que a diversidade de gênero nos órgãos de governança gera impacto operacional mensurável: amplia os critérios de avaliação de risco, fortalece o compliance e introduz abordagens complementares na seleção de oportunidades.
A diversificação dos perfis decisórios é especialmente relevante em um momento de expansão do mercado. O Santander projeta que o mercado de Fundos Imobiliários (FIIs) pode ganhar 400 mil novos investidores em 2026, o que aumenta a demanda por governança robusta e originação de capital mais sofisticada. Uma base de cotistas em crescimento exige transparência, processos de compliance mais rigorosos e capacidade de comunicar teses de investimento com clareza, competências que se beneficiam da pluralidade de perspectivas nos comitês.
É importante reconhecer um gap informacional relevante: ainda não existem estatísticas isoladas de diversidade de gênero focadas estritamente em gestoras de FIIs, separadas do mercado financeiro geral. Tampouco há dados específicos sobre o volume financeiro originado exclusivamente por mulheres no real estate brasileiro. Essa lacuna analítica é, por si só, um indicador de como o setor precisa avançar na mensuração do impacto da diversidade sobre a performance dos portfólios.
Qual o impacto do Anexo ASG da B3 e da Lei 15.177/2025 sobre a governança do setor imobiliário?
O ambiente regulatório brasileiro acelerou a transformação da governança corporativa com dois marcos relevantes. O Anexo ASG da B3, aprovado pela CVM, exige que companhias listadas tenham pelo menos uma mulher e um membro de comunidade sub-representada no conselho de administração ou na diretoria estatutária, sob o modelo "pratique ou explique", com prazos de adequação até 2025 e 2026. A Lei 15.177/2025, por sua vez, estabelece que 30% das vagas nos conselhos de empresas públicas e estatais sejam destinadas a critérios de diversidade, irradiando práticas para o mercado privado.
Os resultados iniciais são visíveis. Segundo estudo da B3 em parceria com o Instituto Locomotiva, 77% das empresas listadas já atendem aos critérios de diversidade previstos no Anexo ASG, reportando a presença de ao menos uma mulher ou integrante de grupo sub-representado na alta liderança. Esse índice indica que a adesão regulatória avançou com rapidez, embora a profundidade dessa transformação varie entre setores.
Para incorporadoras, gestoras de FIIs e empresas de infraestrutura, o cumprimento dessas exigências representa mais do que adequação normativa. A composição diversificada de conselhos é cada vez mais avaliada por investidores institucionais internacionais como proxy de qualidade de governança. Em um mercado que compete por capital global, a presença de executivas em posições de liderança estratégica funciona como um diferencial competitivo na captação de recursos.
A participação feminina na construção civil brasileira cresceu 120% na última década, segundo dados do IBGE publicados em março de 2026. Embora esse indicador abranja toda a cadeia produtiva, e não apenas os cargos de alta gestão, ele sinaliza uma transformação estrutural que permeia diferentes camadas do setor. Quando combinado com o avanço regulatório, o resultado é um ecossistema em que a presença feminina se consolida simultaneamente na base operacional e no topo decisório.
O setor imobiliário brasileiro está preparado para transformar diversidade em vantagem competitiva?
A análise comparativa internacional oferece perspectiva. Segundo dados da Deloitte de 2024, apenas 15% dos assentos em conselhos brasileiros eram ocupados por mulheres, abaixo da média global de 23%. Embora o dado já tenha dois anos, ele serve como referência do ponto de partida recente do país. O avanço para 36,7% nos cargos de liderança sênior reportado pela Grant Thornton em 2026 sugere que o Brasil está comprimindo a distância em relação às melhores práticas globais, mas ainda enfrenta desafios significativos.
No setor imobiliário, a transformação se manifesta de forma concreta quando executivas participam de comitês de investimento e influenciam as teses de alocação. A experiência de profissionais como Fernanda Bassanesi demonstra que governança diversificada contribui para decisões de investimento mais resilientes. Esse argumento ganha força quando se observa que metas ambiciosas estão sendo adotadas por grandes instituições financeiras: o Banco do Brasil, por exemplo, projeta alcançar 50% de mulheres em cargos de liderança até 2030, sinalizando que a equidade de gênero é tratada como meta estratégica, e não apenas aspiracional.
Para o ecossistema de real estate, a implicação é direta. Gestoras, incorporadoras e fundos que anteciparem essa transformação terão vantagem na atração de capital institucional, na mitigação de riscos reputacionais e na construção de processos de governança alinhados às exigências regulatórias e às expectativas dos investidores. A diversidade nos órgãos de decisão deixa de ser uma pauta acessória e se posiciona como variável estratégica de competitividade.
Os encontros promovidos pelo GRI Institute têm oferecido espaço para que líderes do setor debatam essas questões com profundidade. Em conferências e reuniões de membros, executivos discutem como a composição dos órgãos de governança influencia a performance dos portfólios e a capacidade de captação. Essa troca entre pares, característica do modelo de clube do GRI Institute, permite que práticas de governança sejam compartilhadas e refinadas em tempo real.
A trajetória de executivas que redesenham a governança imobiliária brasileira aponta para uma conclusão objetiva: a originação de capital e a estruturação de deals se tornam mais robustas quando os processos decisórios incorporam diversidade de perspectivas. O mercado brasileiro está em um ponto de inflexão regulatório e cultural que favorece essa transformação. As organizações que compreenderem a diversidade como motor de performance, e não apenas como requisito de compliance, estarão melhor posicionadas para competir pelo capital que definirá o próximo ciclo do real estate nacional.
Três sentenças resumem a tese central desta análise. A diversidade de gênero nos órgãos de governança do real estate brasileiro produz impacto operacional direto sobre a originação de capital e a gestão de risco. A combinação do Anexo ASG da B3 com a Lei 15.177/2025 criou um arcabouço regulatório que acelera a inclusão de mulheres em conselhos e diretorias. Executivas como Fernanda Bassanesi demonstram, na prática, que presidir um conselho de administração no setor imobiliário e de infraestrutura é exercício de estratégia, governança e criação de valor.