
Como executivos da construção pesada estão redefinindo a escala e a viabilidade de megaprojetos imobiliários no Brasil
José Carlos Cassaniga, Jefferson Nogaroli e Eduardo Fischer Teixeira de Souza representam uma geração que importa governança e capacidade de execução da infraestrutura para a incorporação.
Resumo Executivo
Principais Insights
- Executivos da construção pesada estão transferindo governança, escala e disciplina de execução para megaprojetos imobiliários, redefinindo o setor.
- A capacidade comprovada de execução em escala será o principal diferencial competitivo para acessar capital institucional no ciclo 2026-2028.
- O Eurogarden Maringá, com certificação LEED Platinum e mais de R$ 200 milhões em investimentos iniciais, exemplifica a aplicação de lógica de infraestrutura ao desenvolvimento urbano.
- A Reforma Tributária (LC 214/2025) cria incentivos fiscais via Reidi que catalisam a convergência entre infraestrutura e incorporação.
- Governança construtiva tornou-se critério obrigatório para investidores institucionais alocarem capital em grandes empreendimentos.
O mercado imobiliário brasileiro atravessa uma inflexão estrutural. A tradicional divisão entre construtoras de infraestrutura pesada e incorporadoras de empreendimentos urbanos se dissolve à medida que uma nova geração de executivos aplica, no desenvolvimento imobiliário, disciplinas de engenharia, governança e captação de capital típicas de grandes obras de infraestrutura. O resultado é uma mudança na lógica de precificação, no perfil de risco e na capacidade de atração de capital institucional para megaprojetos.
Três trajetórias ilustram essa convergência com nitidez: José Carlos Cassaniga, CEO do Grupo EPR e ligado à Conata Engenharia; Jefferson Nogaroli, CEO do Eurogarden Maringá; e Eduardo Fischer Teixeira de Souza, Co-CEO da MRV Engenharia. Cada um, a partir de contextos distintos, transfere para o setor imobiliário competências que historicamente pertenciam ao universo da infraestrutura.
A tese que emerge desse movimento é direta: no ciclo 2026-2028, a capacidade comprovada de execução em escala se consolida como o principal diferencial competitivo para acessar capital institucional no mercado imobiliário brasileiro.
Por que a construção pesada se tornou referência de governança para o capital institucional?
Investidores institucionais, sejam fundos de pensão, gestoras de ativos reais ou family offices, intensificaram nos últimos anos a exigência de padrões de governança, rastreabilidade de custos e mitigação de risco construtivo antes de alocar recursos em projetos de grande porte. Essas exigências são familiares ao setor de infraestrutura pesada, onde contratos de concessão, marcos regulatórios e auditorias permanentes já fazem parte da rotina operacional.
José Carlos Cassaniga personifica essa ponte. À frente do Grupo EPR, e com a Conata Engenharia sediada em Belo Horizonte, Cassaniga lidera o que o GRI Hub News identificou, em julho de 2026, como um movimento de profissionalização e atração de capital institucional na construção pesada no Brasil. A relevância dessa trajetória para o mercado imobiliário reside no fato de que a mesma disciplina aplicada a obras de grande porte, desde controle de cronograma até estruturação financeira em camadas, passou a ser exigida por investidores em empreendimentos imobiliários de escala elevada.
A lógica é simples e poderosa: projetos com capacidade de execução demonstrável reduzem a percepção de risco do investidor, comprimem spreads de captação e ampliam o leque de fontes de financiamento disponíveis. Para o capital institucional, a diferença entre uma incorporadora tradicional e uma operação com DNA de infraestrutura está na previsibilidade.
Qual é o impacto da convergência entre infraestrutura e incorporação na precificação de megaprojetos?
A convergência entre construção pesada e incorporação altera a equação de viabilidade econômica dos empreendimentos de grande escala. Quando um operador domina a cadeia de execução, desde a terraplanagem e a implantação de sistemas viários até a edificação final, os custos intermediários de contratação, fiscalização e retrabalho tendem a cair de forma significativa.
O caso do Eurogarden Maringá, liderado por Jefferson Nogaroli, é emblemático. Trata-se de um megaprojeto de bairro planejado sustentável, com certificação LEED Platinum, cujos investimentos iniciais em terrenos e infraestrutura ultrapassaram a marca de R$ 200 milhões, conforme reportado pela Exame em dezembro de 2023. A construção de edifícios residenciais de alto padrão pela construtora A.Yoshii tem início de obras projetado para 2025, com expectativa de operação de uma escola internacional no local em 2026, segundo dados do próprio Grupo A.Yoshii e do Eurogarden Maringá.
O que distingue o Eurogarden de um loteamento convencional é a aplicação de lógica de infraestrutura ao desenvolvimento urbano. A certificação ambiental em escala de bairro, a implantação prévia de redes de utilidades e a integração de equipamentos urbanos antes da comercialização dos lotes residenciais reproduzem, no ambiente imobiliário, o planejamento de fases típico de concessões rodoviárias ou projetos de saneamento.
Eduardo Fischer Teixeira de Souza, como Co-CEO da MRV Engenharia, opera em outro ponto da escala, mas com o mesmo princípio de convergência. A MRV, maior construtora da América Latina com faturamento na casa dos bilhões segundo dados de mercado e relações com investidores da companhia referentes a 2024, aplica escala industrial à incorporação residencial. A padronização de processos construtivos, a gestão centralizada de suprimentos e a capacidade de replicar projetos em dezenas de cidades simultaneamente são heranças diretas do pensamento de engenharia de grande porte.
Esses três executivos demonstram que a precificação de um megaprojeto imobiliário deixou de ser determinada apenas pela localização e pelo valor geral de vendas projetado. A capacidade de execução, a governança do processo construtivo e a estrutura de capital passaram a compor variáveis centrais na formação de preço.
Como a Reforma Tributária pode acelerar a convergência entre infraestrutura e incorporação?
A Lei Complementar nº 214/2025 trouxe um novo componente regulatório que pode intensificar essa tendência. O artigo 106 da referida lei dispõe que importações e aquisições de bens e serviços destinados à incorporação em obras de infraestrutura, realizadas por beneficiários do Reidi (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura), terão suspensão do pagamento do IBS e da CBS, os novos tributos sobre consumo instituídos pela Reforma Tributária.
Essa desoneração, embora voltada primariamente a projetos de infraestrutura clássica, cria um incentivo estrutural para que incorporadores de megaprojetos imobiliários organizem suas operações de modo a se qualificar como beneficiários do Reidi. Para empreendimentos que incluam componentes de infraestrutura urbana, como sistemas viários, redes de drenagem, estações de tratamento de água ou geração distribuída de energia, a linha entre infraestrutura e incorporação se torna ainda mais tênue.
Executivos com experiência em construção pesada possuem vantagem competitiva natural nesse ambiente regulatório. Eles conhecem os requisitos de habilitação no Reidi, dominam a documentação técnica exigida e têm familiaridade com a prestação de contas perante órgãos reguladores. A Reforma Tributária, nesse sentido, funciona como um catalisador da convergência que Cassaniga, Nogaroli e Fischer já protagonizam.
A nova fronteira da competição no mercado imobiliário brasileiro
O pipeline de megaprojetos imobiliários no Brasil para o período 2026-2028 será moldado por uma competição que privilegia capacidade de execução sobre capacidade de marketing. As discussões promovidas no âmbito do GRI Institute, que reúne líderes dos setores imobiliário e de infraestrutura, têm refletido essa mudança de paradigma. Nos encontros da comunidade, a interlocução entre incorporadores e executivos de infraestrutura pesada deixou de ser exceção e se tornou rotina.
Três conclusões emergem da análise desse movimento:
Primeiro, a barreira de entrada para megaprojetos imobiliários se elevou. Incorporadoras que não possuam capacidade própria de execução em escala, ou que não estabeleçam parcerias estratégicas com construtoras de grande porte, enfrentarão dificuldades crescentes para acessar capital institucional em condições competitivas.
Segundo, a governança construtiva se tornou critério de investimento. Fundos e investidores institucionais passaram a exigir, como condição para alocação, padrões de controle operacional e de risco que historicamente só existiam em projetos de infraestrutura regulada.
Terceiro, a Reforma Tributária, ao criar mecanismos de desoneração vinculados à infraestrutura, oferece incentivo econômico concreto para que megaprojetos imobiliários incorporem componentes de infraestrutura em suas estruturas jurídicas e operacionais.
A geração de executivos representada por José Carlos Cassaniga, Jefferson Nogaroli e Eduardo Fischer Teixeira de Souza faz mais do que construir empreendimentos de grande escala. Ela redefine as regras do jogo. No mercado imobiliário brasileiro, a capacidade de executar com previsibilidade, governança e escala se consolidou como o ativo mais valioso, acima do landbank, acima da marca e, frequentemente, acima do próprio projeto arquitetônico.
O GRI Institute acompanha essa transformação por meio de sua agenda de pesquisas e encontros setoriais, onde a convergência entre infraestrutura e incorporação ocupa espaço cada vez mais central nas discussões entre os principais líderes do setor.