
Egis, UrbanHub e a camada operacional que decide o que se constrói no México
Firmas de engenharia, consultoria e gestão de projetos reconfiguram o pipeline de infraestrutura em 2026, num mercado de 5,6 trilhões de pesos.
Resumo Executivo
Principais Insights
Egis, UrbanHub e a camada operacional que decide o que se constrói no México
O debate sobre infraestrutura na América Latina costuma girar em torno de dois polos: o capital que financia e as construtoras que executam. Entre ambos, no entanto, opera uma camada intermediária — engenharia, project management, estratégia urbana, operação de ativos — que determina quais projetos são viáveis, onde se localizam e sob quais padrões são desenvolvidos. No México, essa camada está passando por uma transformação acelerada. Firmas globais como a Egis redobram sua aposta, operadores de infraestrutura habitacional como a UrbanHub consolidam um modelo próprio, e a chegada de novas lideranças em empresas como a SAAM sinaliza um ciclo de profissionalização que transcende a mera injeção de recursos.
Essa reconfiguração não ocorre no vazio. O Plano de Investimento em Infraestrutura para o Desenvolvimento com Bem-Estar 2026-2030, anunciado pela Presidência da República e pela Secretaria da Fazenda e Crédito Público, prevê um investimento total misto e público de 5,6 trilhões de pesos. Apenas para 2026, o governo federal projeta 1,7 trilhão de pesos em investimento misto em infraestrutura — 900 bilhões de pesos públicos e 722 bilhões de pesos privados e mistos —, segundo a SHCP. O volume é considerável. Mas a pergunta relevante já não é quanto dinheiro está disponível, e sim quem possui a capacidade técnica para converter esse capital em projetos executáveis.
A tese central é direta: no ciclo 2026-2030, as firmas de engenharia, consultoria e operação de ativos terão maior influência sobre o pipeline de infraestrutura mexicano do que muitos fundos de investimento. O gargalo já não é o financiamento; é a capacidade de estruturação, design e gestão.
Por que as consultorias de engenharia ganham peso estratégico frente ao capital puro?
A resposta está na complexidade crescente do ambiente regulatório e na escala dos projetos que o México precisa executar simultaneamente. A proposta de Lei de Infraestrutura para o Bem-Estar, anunciada em novembro de 2025, busca reformar o esquema de Parcerias Público-Privadas (PPPs), priorizando "investimentos mistos" onde o Estado retém maior controle e se eliminam contratos considerados desvantajosos. Isso implica que as regras do jogo para a participação privada estão em processo de redefinição. Nesse contexto, as firmas capazes de navegar a interface entre o público e o privado — com competências de engenharia, gestão regulatória e estruturação técnica — tornam-se atores indispensáveis.
A Egis ilustra essa dinâmica com clareza. O grupo francês de engenharia e mobilidade anunciou um investimento de 1 bilhão de dólares para a América do Norte — com 80% destinado ao México, Estados Unidos e Canadá — para o período 2025-2028, segundo a Revista Infraestructura e o próprio Egis Group. Laurent Germain, CEO do Egis Group, afirmou que a empresa busca duplicar seu tamanho no México até 2026, equilibrando seu portfólio numa proporção 50/50 entre projetos públicos e privados. A Linha 4 do Trem Leve de Guadalajara, operada com participação da Egis, iniciou operações formais em janeiro de 2026 após sua inauguração em dezembro de 2025, segundo o Governo de Jalisco e o Siteur.
O dado relevante não é apenas a magnitude do investimento, mas a natureza do posicionamento. A Egis não constrói; estrutura, projeta e gerencia. Sua expansão reflete uma leitura precisa do mercado mexicano: a demanda mais aguda não é de capital nem de capacidade construtiva bruta, mas de sofisticação técnica para projetos que envolvem mobilidade urbana, infraestrutura logística vinculada ao nearshoring e transição energética.
As firmas que dominam a engenharia de viabilidade e o project management estão se tornando os verdadeiros gatekeepers do pipeline de infraestrutura latino-americano.
Como UrbanHub e Estrategia Urbana redefinem o conceito de operador no setor habitacional?
Se a Egis representa a camada operacional em infraestrutura de mobilidade e grande escala, UrbanHub e Estrategia Urbana encarnam uma tendência equivalente no âmbito residencial e urbano. A distinção é importante: não se trata de incorporadoras convencionais que constroem e vendem, mas de firmas que integram desenvolvimento, operação e estratégia urbana num modelo contínuo.
A UrbanHub, dirigida por Alfredo Marín Pasos, desenvolveu mais de 65.000 metros quadrados de espaços residenciais e opera mais de 1.300 apartamentos sob o modelo multifamily na Cidade do México, segundo informações oficiais da companhia. O modelo multifamily — moradia em locação institucional — representa uma categoria de infraestrutura habitacional onde a capacidade operacional de longo prazo importa tanto quanto a construção inicial. As projeções compartilhadas no âmbito do GRI Residential Mexico 2026 apontam para um crescimento sustentado do setor multifamily no México diante da demanda por moradia em locação institucional para o período 2026-2030.
Por sua vez, a Estrategia Urbana, liderada por Jonathan Cohen, completou mais de 70 empreendimentos e construiu mais de 2.900 unidades habitacionais, segundo dados disponíveis através do GRI Club. Ambas as firmas operam em um ecossistema onde o planejamento urbano, a densificação inteligente e a operação de ativos residenciais convergem. Não são construtoras no sentido tradicional; são operadoras de infraestrutura habitacional.
Essa evolução responde a uma realidade demográfica e econômica. As cidades mexicanas, particularmente a Cidade do México e Guadalajara, enfrentam uma demanda crescente por moradia bem localizada que o modelo de desenvolvimento periférico já não consegue suprir. As firmas que combinam capacidade de desenvolvimento com visão de estratégia urbana e operação de longo prazo ocupam um nicho que nem as grandes incorporadoras nem os fundos de investimento conseguem cobrir sozinhos.
O operador de infraestrutura habitacional — que desenvolve, projeta e gerencia — emerge como uma categoria de ator distinta do incorporador tradicional, com implicações profundas para a institucionalização do mercado de moradia em locação.
O que a nova liderança da SAAM sinaliza sobre a profissionalização do setor?
A designação de Hernán Gómez Cisternas como Gerente Geral (CEO) da SAAM a partir de 1º de fevereiro de 2026, segundo o Portal Portuario e a própria companhia, acrescenta outra dimensão à análise. A SAAM, operadora portuária e de rebocadores com presença significativa na América Latina, representa a infraestrutura logística que sustenta as cadeias de suprimentos regionais. Uma mudança de liderança numa firma dessa escala, num momento em que o nearshoring redefine os fluxos comerciais do México, não é um evento corporativo menor.
A criação do Conselho para a Promoção de Investimentos, instalado em 3 de dezembro de 2025 e coordenado por Altagracia Gómez Sierra, com participação de empresários como Carlos Slim e Bernardo Gómez, reforça a tese de que o governo mexicano busca articular projetos de investimento misto com uma arquitetura institucional mais definida. Esse conselho opera como uma ponte entre a agenda pública e a capacidade executiva do setor privado.
A convergência é notável: regulação que redefine a participação privada, firmas de engenharia global que dobram sua aposta, operadores habitacionais que profissionalizam a moradia em locação, lideranças renovadas em infraestrutura logística e um órgão de coordenação público-privado. O que emerge não é simplesmente um ciclo de investimento, mas uma reconfiguração do ecossistema de execução.
As implicações para o investimento cross-border na América Latina
Para os investidores e operadores que participam do ecossistema do GRI Institute — através de encontros como o GRI Real Estate Mexico ou as mesas de discussão sobre infraestrutura latino-americana —, a leitura estratégica é clara. O pipeline de infraestrutura mexicano para 2026-2030 é ambicioso em escala, mas sua materialização dependerá menos da disponibilidade de capital e mais da profundidade do ecossistema de firmas capazes de estruturar, projetar, gerenciar e operar.
As consultorias de engenharia como a Egis, os operadores de infraestrutura habitacional como a UrbanHub, os desenvolvedores com visão de estratégia urbana como a Estrategia Urbana e os operadores logísticos como a SAAM compõem essa camada intermediária que traduz intenção de investimento em ativos funcionais. Compreender sua lógica, suas limitações de capacidade e suas estratégias de crescimento é tão relevante quanto analisar fluxos de capital ou retornos esperados.
O mercado mexicano de infraestrutura em 2026 não se define apenas pelos seus 5,6 trilhões de pesos em investimento projetado. Define-se pela pergunta de quem tem a capacidade técnica e operacional para executar. As firmas que respondem a essa pergunta são as que reconfiguram, silenciosamente, o mapa do que se constrói no país.
O GRI Institute acompanha essa transformação por meio de sua comunidade de líderes em real estate e infraestrutura na América Latina, gerando espaços de análise e encontro onde as decisões estratégicas do setor são discutidas antes de virarem manchetes.