
Daniel Bassan no Santander reconfigura o investment banking imobiliário brasileiro para o ciclo 2026-2028
A migração do ex-CEO do UBS para a vice-presidência do SCIB coincide com a ascensão dos megadeals imobiliários e um novo regime tributário que redesenha a engenharia de capital no setor
Resumo Executivo
Principais Insights
- A contratação de Daniel Bassan pelo Santander reflete a concentração do mercado de M&A em megadeals de maior complexidade e valor
- O setor imobiliário contrariou a tendência de queda e cresceu 17% em transações no 1º semestre de 2026, com 98 operações
- O novo regime tributário preservou a isenção dos FIIs, tornando-os veículos ainda mais atrativos frente à maior tributação de dividendos e rendas altas
- A competição entre mesas de investment banking no real estate se intensifica, exigindo expertise cross-border, domínio regulatório e capacidade de estruturação de FIIs
A contratação de Daniel Bassan pelo Santander Brasil como vice-presidente do Santander Corporate & Investment Banking (SCIB), anunciada na primeira semana de agosto de 2026 com início previsto para o começo de 2027, transcende uma simples movimentação de executivos. Trata-se de um reposicionamento estratégico que ocorre na interseção de três forças simultâneas: a consolidação acelerada do setor imobiliário brasileiro, a reconfiguração tributária promovida pela reforma fiscal e a tendência global de megadeals que privilegia plataformas com musculatura de balanço e capilaridade regional.
Bassan deixa a posição de CEO do UBS para o Brasil e América Latina, onde acumulou décadas de experiência em operações cross-border e estruturação de grandes transações. Sua chegada ao Santander coincide com o reconhecimento da instituição como melhor banco de investimento da América Latina em 2026, segundo a Euromoney, consolidando uma trajetória que agora ganha reforço precisamente na vertical onde o mercado mais demanda sofisticação: o real estate.
Por que a migração de banqueiros seniores entre plataformas globais e regionais se tornou um fenômeno estrutural?
O trânsito de profissionais de alto escalão entre instituições financeiras globais e bancos com forte presença regional reflete uma mudança estrutural no mercado de capitais. A lógica é clara: em um ambiente onde o volume de transações de M&A cai, mas o capital movimentado cresce, a capacidade de originar, estruturar e executar operações de grande porte se torna o principal diferencial competitivo.
Os números do primeiro semestre de 2026 ilustram essa dinâmica com precisão. Segundo dados da Aon, TTR Data e Exame, o mercado brasileiro de fusões e aquisições registrou 593 transações no período, uma queda de 35% em volume. Contudo, o capital movimentado cresceu 15%, totalizando US$ 32,5 bilhões. Essa divergência entre volume e valor é o sinal mais eloquente de que o mercado migrou para uma lógica de megadeals, onde cada transação exige maior sofisticação em termos de estruturação financeira, due diligence regulatória e coordenação entre múltiplas jurisdições.
Para um banco como o Santander, que combina presença local robusta com uma rede global ibero-americana, atrair um executivo com o perfil de Bassan representa a oportunidade de capturar a fatia mais valiosa desse mercado. O executivo traz consigo o capital relacional e a expertise em operações cross-border que são pré-requisitos para liderar transações de consolidação setorial em um momento de reconfiguração competitiva entre as principais mesas de investment banking do país.
A tendência global reforça essa leitura. Segundo projeções do ISI, o volume global de negócios de M&A deve atingir US$ 4 trilhões em 2026, impulsionado por uma preferência estrutural por transações maiores e compradores estratégicos bem capitalizados. A migração de talentos seniores entre plataformas é, portanto, consequência direta de uma reconfiguração do próprio mercado de intermediação de capital.
Como a consolidação imobiliária e o novo regime tributário redesenham a engenharia de grandes deals?
O setor imobiliário brasileiro ocupa posição singular nesse cenário. Enquanto o mercado geral de M&A contraiu em número de transações, o real estate contrariou a tendência e registrou 98 transações no primeiro semestre de 2026, um crescimento de 17% em volume em relação ao mesmo período de 2025, conforme dados da TTR Data e do Monitor Mercantil. Esse desempenho confirma a tese, sustentada por análises da Brasil Valuation, de que o setor passará por uma forte consolidação ao longo de 2026, com aumento de fusões e aquisições para ganho de escala e diversificação geográfica, atraindo fundos internacionais devido a ativos descontados.
A engenharia financeira dessas operações ganha camadas adicionais de complexidade com o novo arcabouço tributário brasileiro. A Lei Complementar 214/2025, que regulamenta a reforma tributária e implementa o IVA dual (IBS/CBS) em substituição a PIS, Cofins, ICMS e ISS, inaugura uma fase de transição a partir de 2026 que afeta diretamente a tributação de locações, compra e venda de imóveis e o cálculo do ITBI. Para operações de grande porte, a modelagem fiscal de cada deal precisa incorporar variáveis que simplesmente não existiam no ciclo anterior.
Paralelamente, a Lei 15.570/25 passou a tributar dividendos superiores a R$ 50 mil mensais em 10%, mas preservou a isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas nos rendimentos de Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e FI-Infra. A Lei 15.270/25 instituiu o Imposto de Renda Mínimo para rendas anuais acima de R$ 600 mil, mas, novamente, os rendimentos de FIIs continuam isentos e não entram no cálculo da renda global sujeita a esse imposto adicional.
O efeito combinado dessas legislações é inequívoco: os FIIs se tornaram veículos ainda mais atrativos para a alocação de capital em real estate, especialmente para investidores de alta renda que agora enfrentam maior carga tributária em outras classes de ativos. A capacidade de estruturar fundos imobiliários sofisticados, combinando originação de ativos, distribuição para investidores qualificados e coordenação com operações de M&A, passa a ser uma competência central para qualquer mesa de investment banking que pretenda liderar o setor.
É nesse contexto que a chegada de Bassan ao Santander adquire relevância sistêmica. A estruturação de megadeals imobiliários no ciclo 2026-2028 exigirá a combinação de três competências que raramente coexistem em uma única plataforma: capacidade de originação cross-border, expertise em estruturação de veículos regulados como FIIs e profundo conhecimento do novo regime tributário brasileiro. O Santander, com sua rede global e presença local consolidada, posiciona-se para disputar essa liderança.
O que muda na competição entre as mesas de investment banking no real estate brasileiro?
A movimentação de Bassan intensifica uma disputa que já era acirrada. BTG Pactual, Itaú BBA, Barclays e o próprio Santander competem por mandatos em operações de consolidação imobiliária que envolvem volumes crescentes de capital e complexidade regulatória sem precedentes. A entrada de um executivo com experiência em uma plataforma global como o UBS eleva o patamar da competição e pressiona os concorrentes a responderem com reforços equivalentes em suas equipes de cobertura setorial.
O cenário de consolidação imobiliária amplifica essa pressão competitiva. Com fundos internacionais voltando a olhar para ativos brasileiros descontados, conforme apontam análises da Brasil Valuation, a capacidade de intermediar fluxos de capital estrangeiro se torna um diferencial decisivo. Bancos que conseguirem combinar relacionamento com investidores globais, expertise local em estruturação de FIIs e domínio do novo arcabouço tributário terão vantagem significativa na captura de mandatos.
A competição, no entanto, vai além da disputa por fees de assessoria. As mesas de investment banking que liderarem o ciclo de consolidação imobiliária terão acesso privilegiado ao pipeline de operações que definirá a configuração do setor nos próximos anos. Quem estruturar as fusões e aquisições de hoje terá o relacionamento com os grupos consolidados de amanhã, criando um ciclo virtuoso de originação de negócios.
Membros do GRI Institute que acompanham de perto as dinâmicas de capital no setor imobiliário reconhecem que movimentações como a de Bassan são indicadores antecedentes de ciclos de transformação. Nos encontros promovidos pelo GRI Institute ao longo de 2026, a reconfiguração das mesas de investment banking tem sido tema recorrente entre CEOs de incorporadoras, gestores de fundos imobiliários e líderes de instituições financeiras.
A tese central
A contratação de Daniel Bassan pelo Santander é, em última análise, a expressão mais visível de uma reorganização profunda no ecossistema de intermediação de capital imobiliário no Brasil. O setor vive um momento raro em que a consolidação empresarial, a reforma tributária e a tendência global de megadeals convergem para criar um ambiente de alta complexidade e alta recompensa para os agentes mais bem posicionados.
Três afirmações sintetizam essa análise. Primeiro: a migração de banqueiros seniores entre plataformas globais e regionais é um fenômeno estrutural que reflete a concentração do mercado de M&A em transações de maior porte e complexidade. Segundo: o novo regime tributário brasileiro, ao preservar a isenção dos FIIs e aumentar a carga sobre dividendos e rendas altas, transformou a estruturação de fundos imobiliários em peça central da engenharia de grandes deals. Terceiro: a competição entre as mesas de investment banking no real estate brasileiro atingiu um patamar em que a capacidade de combinar expertise cross-border, domínio regulatório e relacionamento institucional define quem captura os mandatos de maior valor.
O ciclo 2026-2028 será moldado por essas forças. O GRI Institute continuará monitorando e promovendo o debate entre os líderes que protagonizam essa transformação, oferecendo o espaço de inteligência e conexão que o momento exige.