
A geração de executivos que redesenha a governança de ativos imobiliários institucionais no Brasil
Claudio Algranti, André Lucarelli e Adriano Sartori representam um perfil de liderança focado em operação, performance e relação com cotistas, e não apenas em fechar negócios
Resumo Executivo
Principais Insights
- O mercado imobiliário brasileiro migra do perfil dealmaker para o gestor de ativos institucionais, focado em operação e governança.
- A base recorde de cotistas em FIIs na B3 intensifica a pressão por transparência, eficiência operacional e retorno consistente.
- O segmento logístico opera com vacância mínima histórica, deslocando o diferencial competitivo da aquisição para a gestão ativa.
- A Consulta Pública SDM 06/2025 pode permitir subclasses com subordinação em FIIs, exigindo governança mais sofisticada.
- O segmento multifamily projeta crescimento superior a 30% no estoque, demandando competências operacionais ainda raras no Brasil.
O mercado imobiliário brasileiro entrou em uma fase que exige um novo tipo de liderança
Durante mais de duas décadas, o setor imobiliário brasileiro consagrou o perfil do dealmaker como figura central. O executivo capaz de originar terrenos, estruturar funding e fechar transações ocupou o topo da cadeia de valor. Esse perfil permanece relevante, mas o amadurecimento do mercado de capitais imobiliários coloca em evidência uma segunda camada de liderança, igualmente decisiva: o gestor de ativos institucionais, responsável por governança operacional, performance de portfólios de renda, gestão de capex e relação contínua com cotistas.
O número recorde de investidores em fundos de investimento imobiliário (FIIs) na B3, segundo dados do boletim mensal da própria bolsa de março de 2026, é o indicador mais claro dessa transição. Com uma base de cotistas em expansão acelerada, a pressão por transparência, eficiência operacional e retorno consistente se intensifica. Já não basta adquirir ativos promissores. É preciso operá-los com disciplina institucional.
Três executivos ilustram essa inflexão com trajetórias distintas, mas convergentes: Claudio Algranti, à frente da Galoppo; André Lucarelli, vice-presidente sênior de investimentos em real estate da Brookfield; e Adriano Sartori, presidente da CBRE Brasil.
Quem são os executivos que lideram a institucionalização operacional de portfólios de renda no Brasil?
Claudio Algranti, CEO da Galoppo, é um caso emblemático do gestor que atua na fronteira entre estruturação de veículos e operação de ativos. Segundo reportagem do Metro Quadrado de abril de 2025, a Galoppo estruturou um novo FII focado no desenvolvimento de um mega condomínio logístico em Santana de Parnaíba (SP), aproveitando a escassez de grandes terrenos próximos à capital paulista. O movimento é representativo: não se trata apenas de captar recursos, mas de conceber um ativo com tese operacional clara, voltado para ocupação de longo prazo em um mercado logístico estruturalmente restrito.
Essa escassez é documentada. Segundo dados da EREA / Cushman & Wakefield, divulgados em abril de 2026, o mercado logístico brasileiro opera com as menores taxas de vacância da história e forte aumento nos preços de locação. Em um cenário assim, o diferencial competitivo migra da aquisição para a gestão: otimizar contratos, reter locatários, planejar expansões e manter ativos em padrão institucional.
André Lucarelli, da Brookfield, exemplifica a versatilidade exigida desse perfil. Conforme noticiado pelo Metro Quadrado / REsource em maio de 2026, Lucarelli assumiu o comando interino da Tegra Incorporadora após reestruturação na liderança da empresa. A decisão revela como grandes gestores internacionais enxergam a gestão ativa de seus portfólios no Brasil: o executivo responsável pelos investimentos imobiliários da Brookfield no país é também quem assume a operação direta quando a governança exige intervenção. Essa sobreposição de funções, típica de mercados em processo de institucionalização, é um traço distintivo do momento brasileiro.
Adriamo Sartori, por sua vez, assumiu a presidência da CBRE Brasil com foco declarado na gestão estratégica de portfólios e patrimônio imobiliário, segundo informações da própria CBRE e da SiiLA. A maior empresa de serviços imobiliários comerciais do país, sob sua liderança, reforça a tese de que a gestão operacional de ativos se tornou o centro gravitacional do setor, e não mais um serviço acessório.
A governança operacional de portfólios de renda é, hoje, o principal vetor de diferenciação entre gestoras que entregam retorno consistente e aquelas que dependem exclusivamente de ciclos de valorização.
Por que a governança de FIIs se tornou uma questão estratégica, e não apenas regulatória?
A resposta está na convergência de três forças: a expansão da base de cotistas, a sofisticação regulatória e a escassez de ativos qualificados.
A base recorde de investidores em FIIs na B3, conforme dados de março de 2026, transforma a relação com cotistas em uma função de alta complexidade. Gestoras que operam portfólios de renda precisam comunicar resultados com clareza, justificar decisões de capex, explicar variações de vacância e demonstrar capacidade de gerar valor além do ciclo de mercado. Esse nível de accountability é comparável ao de companhias abertas listadas em segmentos premium de governança.
No plano regulatório, a Resolução CVM nº 175, em pleno vigor, modernizou o marco dos fundos de investimento no Brasil. A Consulta Pública SDM 06/2025, em fase de análise, propõe alterações no Anexo Normativo III que permitiriam a estruturação de subclasses com subordinação em FIIs de papel, criando diferentes direitos econômicos e políticos para investidores. Se aprovada, essa medida aumentará significativamente a sofisticação da governança dos fundos, exigindo gestores com capacidade de operar estruturas de capital mais complexas e segmentadas.
O gestor de ativos institucionais do futuro próximo será, simultaneamente, um operador de real estate, um comunicador de mercado de capitais e um arquiteto de estruturas de governança.
A terceira força é a escassez qualificada de ativos. No segmento logístico, a vacância mínima histórica documentada pela Cushman & Wakefield pressiona gestores a extrair mais valor dos portfólios existentes, seja por meio de expansões, retrofit ou renegociação de contratos. No segmento residencial para renda (multifamily), o estoque de unidades tem projeção de crescimento superior a 30%, impulsionado por incentivos de requalificação urbana como o programa Requalifica Centro em São Paulo, segundo dados da SiiLA Market Analytics. Esse crescimento acelerado demandará gestores preparados para operar ativos de renda residencial em escala, uma competência ainda rara no mercado brasileiro.
O recorde de lançamentos residenciais registrado pela Fipe e reportado pelo GRI Hub em maio de 2026 reforça essa perspectiva. Novos eixos urbanos surgem, e o segmento multifamily amadurece como classe de ativo institucional. A gestão operacional desses portfólios, que inclui controle de inadimplência, manutenção predial, experiência do morador e eficiência energética, representa um desafio operacional sem paralelo na tradição incorporadora brasileira.
Como o perfil de asset manager se diferencia do dealmaker tradicional?
A distinção é funcional e cultural. O dealmaker opera em ciclos de transação: identifica oportunidades, estrutura capital, fecha negócios e, frequentemente, migra para a próxima operação. O asset manager institucional opera em ciclos de performance: assume o ativo após o closing e responde por sua rentabilidade ao longo de anos ou décadas.
Essa diferença se manifesta em competências específicas. O asset manager precisa dominar indicadores operacionais como taxa de ocupação, custo de reposição, NOI por metro quadrado e cap rate de saída. Precisa gerir relações com locatários, fornecedores de facilities e órgãos reguladores. Precisa, sobretudo, construir uma narrativa de valor para cotistas que vai além da distribuição mensal de rendimentos.
Em mercados maduros, a maior parte da criação de valor ocorre durante a operação do ativo, e não na transação de compra. O Brasil começa a incorporar essa lógica.
As trajetórias de Algranti, Lucarelli e Sartori são convergentes nesse sentido. Cada um, em sua esfera de atuação, representa a ascensão de um perfil executivo que o mercado brasileiro precisará em escala crescente: o líder que transforma ativos em plataformas de geração de renda previsível e sustentável.
O GRI Institute acompanha essa transformação por meio de suas comunidades setoriais dedicadas a residencial para renda, logística e industrial, e mercado de capitais imobiliários. Os encontros entre líderes do setor promovidos pelo instituto têm documentado, nos últimos ciclos, a migração de pauta: de debates centrados em pipeline de aquisições para discussões aprofundadas sobre operação, governança e relação com investidores. Esse deslocamento temático reflete uma mudança estrutural, não conjuntural.
O Brasil construiu, em pouco mais de uma década, um dos maiores mercados de fundos imobiliários do mundo em número de investidores. O próximo capítulo dessa história será escrito pelos executivos que souberem operar, e não apenas adquirir, os ativos que sustentam esse ecossistema.