Carvalho Hosken, Construcap e os landbankers tradicionais: reposicionamento estratégico para 2026

Venda do Ilha Pura ao BTG, novo Plano Diretor do Rio e a transição do modelo patrimonialista para a gestão financeira de ativos redefinem o jogo imobiliário

20 de fevereiro de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:GRI Institute

Principais Insights

A venda do Ilha Pura ao BTG marcou a transição da Carvalho Hosken do modelo patrimonialista para parcerias com capital financeiro estruturado. O novo Plano Diretor do Rio, com OODC universal e IPTU Progressivo, eleva o custo de manter landbanks inativos. Landbankers tradicionais agora precisam desenvolver em parceria, alienar ativos ou diversificar para receita recorrente. Fundos de special situations serão os principais veículos para destravar landbanks subutilizados no horizonte 2025-2026. A Barra da Tijuca e o Centro Metropolitano concentrarão os maiores lançamentos de alta renda no Rio em 2026.

A venda da totalidade do bairro planejado Ilha Pura ao BTG Pactual, por meio da Enforce, em junho de 2024, marcou um ponto de inflexão na trajetória da Carvalho Hosken — e, por extensão, no modelo de negócios dos grandes landbankers tradicionais do Rio de Janeiro. A operação, confirmada por NeoFeed e ADEMI-RJ, sinalizou ao mercado que a era do proprietário patrimonialista que carrega glebas por décadas sem pressão financeira relevante chegou a um novo capítulo. O que se desenha agora é uma reconfiguração profunda: empresas centenárias limpam balanço, buscam parcerias e se aproximam do capital financeiro estruturado.

Este Radar de Mercado analisa como Carvalho Hosken, Construcap, e figuras como Helio Seibel e Alberto Guth compõem um cluster temático que ilustra a transição do real estate patrimonial brasileiro rumo à gestão ativa de ativos.

Carvalho Hosken: do Ilha Pura ao Grand Quartier

A Carvalho Hosken construiu ao longo de décadas um dos maiores bancos de terras privados do Brasil, concentrado na Barra da Tijuca e no seu entorno. O Ilha Pura, vila olímpica dos Jogos de 2016, foi o projeto mais emblemático — e também o mais desafiador em termos de absorção comercial. A decisão de alienar integralmente o empreendimento ao BTG Pactual representou uma estratégia deliberada de desalavancagem e liberação de capital.

A venda do Ilha Pura ao BTG não foi uma liquidação forçada, mas um reposicionamento: a Carvalho Hosken trocou estoque parado por capacidade de lançar novos projetos com parceiros capitalizados. A operação transferiu ao capital financeiro o risco de comercialização de um ativo maduro e permitiu à incorporadora redirecionar esforços para o pipeline futuro.

O primeiro fruto visível dessa nova fase é o Grand Quartier, empreendimento lançado no complexo Rio2 em parceria com a Patrimar, conforme registrado pelo Monitor Mercantil e pelo Sinduscon-Rio em outubro de 2023. A parceria com uma incorporadora listada e de gestão profissionalizada marca uma mudança de postura: a Carvalho Hosken, historicamente autossuficiente no desenvolvimento de seus terrenos, agora compartilha risco e capital com operadores de mercado.

Como o novo Plano Diretor do Rio pressiona os grandes donos de terra?

A Lei Complementar nº 270/2024, que instituiu o novo Plano Diretor do Rio de Janeiro, entrou em vigor em janeiro de 2024 e trouxe implicações diretas para os detentores de grandes glebas urbanas. Dois instrumentos se destacam: a Outorga Onerosa do Direito de Construir (OODC), agora aplicável em toda a cidade, e o reforço dos mecanismos de combate à ociosidade, incluindo a possibilidade de IPTU Progressivo no tempo.

A combinação de Outorga Onerosa universal e IPTU Progressivo eleva substancialmente o custo de carregamento de landbanks inativos, forçando proprietários patrimonialistas a desenvolver, vender ou buscar parcerias. Para empresas como a Carvalho Hosken, que detêm terrenos extensos na Barra da Tijuca e no Centro Metropolitano, o novo arcabouço regulatório altera a equação financeira de manter terras não desenvolvidas.

Segundo análise do GRI Institute, essa pressão regulatória, somada ao ambiente de juros elevados, cria um incentivo estrutural para que landbankers tradicionais acelerem o desenvolvimento de seus ativos ou busquem veículos financeiros que viabilizem a monetização.

Construcap: infraestrutura, concessões e a atuação diversificada

É necessário contextualizar o papel da Construcap neste cluster. Diferentemente da Carvalho Hosken, a Construcap não opera como landbanker residencial no Rio de Janeiro. Sua atuação na capital fluminense se concentra em infraestrutura e projetos industriais, enquanto o braço imobiliário do conglomerado — articulado por meio do Grupo Cap — atua predominantemente em São Paulo.

O que posiciona a Construcap nesta análise é sua estratégia de diversificação para gestão de ativos de longo prazo. Um marco relevante foi a conquista da concessão dos Parques Nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral, conforme reportado por O Eco com base em dados do BNDES em 2021. A operação demonstrou a disposição da empresa de migrar de um modelo puramente construtivo para a gestão de ativos com fluxo de receita recorrente — neste caso, ativos naturais e turísticos.

A Construcap exemplifica uma vertente distinta do reposicionamento patrimonialista: em vez de monetizar landbanks urbanos, a empresa diversifica para concessões de infraestrutura e ativos turísticos, criando receita recorrente fora do ciclo imobiliário residencial.

Essa estratégia encontra paralelo no movimento mais amplo de construtoras e incorporadoras tradicionais que buscam previsibilidade de receita em um ambiente macroeconômico volátil.

Qual é o papel do capital financeiro estruturado nessa transição?

A transição do modelo patrimonialista para a gestão financeira de ativos não ocorre no vácuo. Ela depende de veículos sofisticados de capital que consigam precificar e absorver o risco de landbanks subutilizados ou de estoques encalhados. Nesse contexto, dois nomes do cluster analisado ganham relevância: Helio Seibel e Alberto Guth.

A HS Investimentos, de Helio Seibel, atua no setor imobiliário por meio de crédito estruturado e participações em gestoras como a VBI Real Estate, segundo dados da ANBIMA e informações institucionais da própria HS Investimentos. Essa atuação posiciona Seibel como um elo entre o capital financeiro e os ativos reais — um intermediário sofisticado que viabiliza a transição de propriedade de ativos de empresas patrimonialistas para fundos de investimento e veículos de mercado de capitais.

Alberto Guth, por sua vez, tem trajetória ligada a processos de turnaround e desenvolvimento urbano em sentido amplo, embora declarações recentes específicas sobre o mercado residencial de 2025 não estejam disponíveis para esta análise.

A projeção de mercado, baseada no precedente da operação Carvalho Hosken/BTG, aponta que fundos de special situations — como os geridos pela Angra Partners ou pela própria Enforce/BTG — serão os principais veículos para destravar landbanks de empresas patrimoniais endividadas ou com ativos subutilizados no horizonte 2025-2026. Essa tendência reforça o papel crescente do capital financeiro estruturado como catalisador da transformação do setor.

Barra da Tijuca e Centro Metropolitano: o pipeline de alta renda para 2025-2026

De acordo com projeções do Sinduscon-Rio e análises de mercado compiladas pelo GRI Institute, a Barra da Tijuca e a chamada Barra Olímpica concentrarão o maior volume de lançamentos de alta renda no Rio de Janeiro em 2025 e 2026. Dois fatores impulsionam essa projeção: a redução do estoque disponível na região — acelerada pela venda do Ilha Pura — e o surgimento de novos projetos no Centro Metropolitano, área adjacente que concentra glebas ainda não desenvolvidas.

Para landbankers tradicionais que detêm terrenos nessas regiões, a janela de lançamentos coincide com a pressão regulatória do novo Plano Diretor e com a disponibilidade de capital financeiro interessado em parcerias de desenvolvimento. A convergência desses fatores cria condições para uma aceleração da atividade incorporadora na zona oeste do Rio.

O que muda no modelo de negócios dos landbankers tradicionais?

O ciclo atual impõe uma redefinição do modelo patrimonialista. As premissas que sustentaram o acúmulo de terras por décadas — juros reais relativamente controlados, ausência de instrumentos urbanísticos punitivos e valorização fundiária contínua — já não se sustentam no formato original.

O novo paradigma exige dos landbankers tradicionais pelo menos uma de três estratégias: desenvolver em parceria com incorporadoras capitalizadas, como fez a Carvalho Hosken com a Patrimar no Grand Quartier; alienar ativos para fundos de special situations que tenham apetite e capacidade de gestão ativa, como na operação Ilha Pura/BTG; ou diversificar para ativos geradores de receita recorrente, como a Construcap fez com concessões de parques nacionais.

Nos três casos, o denominador comum é a sofisticação financeira. O dono de terra que não se conectar ao mercado de capitais, ao crédito estruturado ou a parceiros institucionais tende a ser penalizado pela Outorga Onerosa, pelo IPTU Progressivo e pelo custo de oportunidade de manter ativos parados em um ambiente de juros elevados.

O GRI Institute acompanha de perto essa transformação estrutural do mercado imobiliário brasileiro. Nos encontros reservados do clube, líderes de incorporadoras, fundos e gestoras de ativos debatem regularmente as estratégias de monetização de landbanks e as novas dinâmicas entre capital patrimonial e capital financeiro — discussões que tendem a se intensificar à medida que o ciclo avança em direção a 2026.

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