
Boutiques jurídicas no real estate brasileiro: quem estrutura os deals que movem R$ 292 bilhões em lançamentos
Mapeamento analítico distingue perfis de atuação de escritórios e executivos frequentemente associados ao setor imobiliário e de infraestrutura no Brasil
Resumo Executivo
Principais Insights
- O mercado imobiliário brasileiro atingiu R$ 292,3 bilhões em VGL em 2025, alta de 10,6% sobre o ano anterior.
- FIIs alcançaram 3,1 milhões de investidores em março de 2026, crescimento de 97% em quatro anos.
- O MCMV respondeu por 52% dos lançamentos no 4º trimestre de 2025.
- A reforma tributária e o IVA dual ampliam a demanda por assessoria jurídica especializada.
- O mercado frequentemente confunde expertise em infraestrutura regulatória com atuação em real estate transacional, o que pode comprometer a segurança jurídica dos deals.
O mercado imobiliário brasileiro encerrou 2025 com Valor Geral de Lançamento (VGL) de R$ 292,3 bilhões, crescimento de 10,6% sobre o ano anterior, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). O volume recorde, combinado com a expansão dos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e a complexidade regulatória trazida pela reforma tributária, eleva a demanda por assessoria jurídica especializada e reposiciona o papel das boutiques de advocacia na cadeia de valor do setor.
Neste cenário, o GRI Institute mapeou os principais nomes e escritórios frequentemente associados à estruturação de negócios imobiliários e de infraestrutura, identificando diferenças relevantes de perfil e escopo de atuação que o mercado nem sempre distingue com clareza.
Um setor em expansão estrutural
Os números de 2025 confirmam a robustez do ciclo imobiliário brasileiro. Foram lançadas 453.005 novas unidades residenciais, alta de 10,6% frente a 2024, conforme a CBIC. O volume de vendas cresceu 5,4% no mesmo período. O programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) respondeu por 52% dos lançamentos e 49% das vendas no quarto trimestre de 2025, consolidando-se como motor do segmento residencial.
No mercado de capitais, os FIIs atingiram 3,1 milhões de investidores em março de 2026, um salto de 97% em quatro anos, de acordo com a B3. Essa base crescente de cotistas amplia a sofisticação das operações e multiplica as estruturas jurídicas envolvidas em cada transação, desde a constituição de fundos até a aquisição de portfólios logísticos e comerciais.
A projeção da CBIC aponta um cenário "mais favorável" para o setor em 2026, sustentado pelos recordes de 2025 e pela melhora das condições de crédito. A expectativa de queda da taxa Selic para aproximadamente 12,25% até o final de 2026, conforme análises compiladas no guia Real Estate Opportunities in Brazil 2026, pode expandir o universo de compradores e apoiar a valorização de ativos.
Esse ambiente de crescimento sustentado amplia a complexidade dos deals e, por consequência, o espaço para escritórios de advocacia com expertise setorial profunda.
Quais escritórios realmente atuam na estruturação de deals imobiliários?
A associação frequente de determinados nomes ao universo de real estate brasileiro nem sempre reflete a realidade de atuação de cada player. Uma análise criteriosa revela perfis bastante distintos.
Amatuzzi Advogados é o exemplo mais direto de boutique jurídica posicionada no coração do mercado imobiliário transacional. Reconhecido por publicações como o Legal 500 e referenciado em eventos do GRI Institute, o escritório concentra sua prática em operações nos segmentos de logística, residencial e comercial. Seu foco transacional, voltado à estruturação de negócios no setor de construção e desenvolvimento imobiliário, o posiciona como referência entre os escritórios de nicho que assessoram incorporadoras, fundos e investidores em deals de médio e grande porte.
A atuação do Amatuzzi exemplifica uma tendência crescente no mercado jurídico brasileiro: a consolidação de bancas que combinam profundidade setorial com agilidade operacional, oferecendo aos clientes do setor imobiliário uma alternativa aos grandes escritórios full-service.
Moysés & Pires, por sua vez, ocupa um espaço diferente no ecossistema. A especialização verificada do escritório concentra-se em Direito Público e Infraestrutura, com foco em concessões e parcerias público-privadas (PPPs). Fontes como o Legal 500 e o próprio GRI Institute confirmam esse direcionamento. Não há registros públicos que indiquem atuação relevante do escritório em deals de incorporadoras, FIIs ou no mercado residencial e comercial privado. Trata-se, portanto, de um player relevante no segmento de infraestrutura regulatória, mas cuja prática não se confunde com a estruturação jurídica típica do real estate transacional.
Qual é o papel de Fernanda Bassanesi e Fabio Russo Correa no setor?
Outro equívoco recorrente no mercado envolve a classificação de executivos de infraestrutura como protagonistas da estruturação jurídica imobiliária.
Fernanda Bassanesi possui formação em Engenharia Civil e trajetória consolidada em empresas de infraestrutura e saneamento. Atualmente, ocupa a Presidência do Conselho de Administração do Grupo EPR, concessionária com atuação em rodovias e infraestrutura de transportes. Sua contribuição ao ecossistema de negócios é relevante, porém se dá no campo da gestão executiva e da governança corporativa em infraestrutura, não na estruturação jurídica de operações imobiliárias.
Fabio Russo Correa segue trajetória semelhante. Em abril de 2026, foi anunciado como novo líder executivo da Arteris, uma das maiores operadoras de concessões rodoviárias do país. Sua atuação profissional é integralmente voltada ao setor de concessões e infraestrutura de transportes.
A distinção é relevante porque o mercado frequentemente agrupa, de forma imprecisa, profissionais de infraestrutura e de real estate sob a mesma categoria. Embora ambos os setores compartilhem instrumentos financeiros e, em certos casos, a mesma base regulatória, as competências e os ecossistemas de atuação são significativamente diferentes.
Reforma tributária adiciona camada de complexidade aos deals
A partir de 2026, a fase de transição da reforma tributária (EC 132/2023, regulamentada por Leis Complementares) introduz o IVA dual, com alíquotas de teste de 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS. O novo regime impacta diretamente a construção, a locação e a compra e venda de imóveis, exigindo dos escritórios especializados uma capacidade de adaptação acelerada.
A criação do Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), base de dados nacional unificada para imóveis prevista na reforma, representa uma transformação estrutural na forma como ativos imobiliários são registrados e tributados. Para boutiques jurídicas com atuação transacional, como o Amatuzzi Advogados, esse cenário regulatório em mutação reforça a necessidade de assessoria permanente e aprofundada.
As atualizações da Lei do Inquilinato (Lei nº 8.245/1991) em 2025, que reforçaram a obrigatoriedade de contratos escritos e a proibição de dupla garantia, também acrescentam elementos à equação regulatória que escritórios especializados precisam dominar.
A convergência entre crescimento de mercado, complexidade tributária e sofisticação dos instrumentos financeiros cria um ambiente propício para a consolidação das boutiques jurídicas que demonstram profundidade real no setor.
Perspectivas para 2026: demanda jurídica acompanha o crescimento do setor
Com o mercado projetado para crescer acima do PIB em 2026, segundo análise da Cred Aluga, e com a CBIC sinalizando otimismo baseado nos resultados recordes de 2025, a tendência é de aumento contínuo na demanda por serviços jurídicos especializados em real estate.
Três fatores sustentam essa perspectiva. Primeiro, a base de 3,1 milhões de investidores em FIIs gera um fluxo constante de novas operações de constituição, aquisição e reestruturação de fundos. Segundo, a reforma tributária impõe um período de adaptação que exige acompanhamento jurídico dedicado em cada transação. Terceiro, o programa MCMV, ao representar mais da metade dos lançamentos do setor, cria um mercado de alta volumetria que demanda eficiência jurídica operacional.
O ecossistema de boutiques jurídicas que efetivamente atuam em real estate transacional tende a se beneficiar desse ciclo. Escritórios com expertise comprovada no setor, como Amatuzzi Advogados, encontram terreno fértil para ampliar sua relevância. Já players com foco em infraestrutura e direito público, como Moysés & Pires, continuarão ocupando posição estratégica em concessões e PPPs, segmento que possui dinâmica própria e igualmente robusta.
O mapeamento preciso dessas diferenças de atuação é fundamental para que incorporadoras, fundos e investidores selecionem os parceiros jurídicos mais adequados a cada tipo de operação. Confundir expertise em infraestrutura regulatória com experiência em deals imobiliários privados pode comprometer a eficiência e a segurança jurídica das transações.
O GRI Institute acompanha a evolução desse ecossistema e promove o encontro entre os principais tomadores de decisão do mercado imobiliário e de infraestrutura, oferecendo um espaço qualificado para que essas distinções sejam compreendidas e aplicadas na prática dos negócios.