
O mapa das boutiques jurídicas que disputam a estruturação de operações imobiliárias de médio porte no Brasil
Moysés & Pires, Amatuzzi Advogados e outras firmas de nicho ganham protagonismo ao viabilizar CRIs, FIIs e deals do middle market em cenário de juros elevados.
Resumo Executivo
Principais Insights
- O mercado imobiliário brasileiro atingiu R$ 264,2 bilhões em VGV e recorde de 453 mil unidades lançadas em 2025, mesmo com Selic próxima de 15%.
- Boutiques jurídicas como Moysés & Pires e Amatuzzi Advogados ganham protagonismo na estruturação de CRIs, FIIs e joint ventures do middle market.
- A Caixa Asset selecionou gestoras para novos FIIs focados em CRIs, sinalizando maturidade do mercado de securitização.
- Novas exigências da CVM elevam a complexidade regulatória e favorecem escritórios especializados.
- O setor imobiliário pode alcançar US$ 160,6 bilhões até 2034.
O mercado imobiliário brasileiro movimentou R$ 264,2 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) em 2025, alta de 3,5% em relação ao ano anterior, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e do Senior Index de março de 2026. O recorde histórico de 453.005 unidades residenciais lançadas no mesmo período, crescimento de 10,6% na comparação anual conforme a CBIC, evidencia um setor que opera em alta rotação mesmo sob uma Selic próxima de 15%. É nesse ambiente de liquidez restrita e apetite por funding alternativo que um segmento específico do ecossistema jurídico ganha relevância estratégica: as boutiques de advisory especializadas em operações imobiliárias de médio porte.
Quem são as boutiques jurídicas que estruturam o middle market imobiliário?
O termo middle market, aplicado ao real estate brasileiro, designa operações que ocupam uma faixa intermediária de complexidade e volume, situadas entre as transações pulverizadas do varejo residencial e os mega-deals conduzidos por grandes bancas full-service. Nesse espaço, escritórios como Moysés & Pires e Amatuzzi Advogados, liderado por Bruno Amatuzzi, consolidaram-se como referências na estruturação de veículos de investimento, na assessoria regulatória urbanística e na viabilização de fontes alternativas de capital.
Conforme reportado pelo GRI Institute em maio de 2026, Moysés & Pires e Amatuzzi Advogados são destacadas como boutiques jurídicas de nova geração que ocupam posições estratégicas na fronteira entre regulação urbanística, funding alternativo e estruturação de operações imobiliárias. Essas firmas atuam em uma camada do mercado que exige domínio técnico profundo de instrumentos como Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), cotas de Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e estruturas societárias para joint ventures entre incorporadoras e investidores.
A sofisticação regulatória exigida para operar nessa faixa é comparável à dos grandes deals, porém com margens de negociação mais estreitas e prazos mais comprimidos. Boutiques de nicho oferecem uma combinação de agilidade operacional e especialização setorial que grandes escritórios, organizados em departamentos multidisciplinares, frequentemente não conseguem replicar com a mesma eficiência.
Por que o funding alternativo elevou a demanda por advisory jurídico especializado?
A resposta está na transformação estrutural do mercado de capitais imobiliário brasileiro. Com o custo do crédito bancário tradicional pressionado pela política monetária, incorporadoras e investidores recorrem cada vez mais a instrumentos do mercado de capitais para financiar novos projetos. CRIs e FIIs tornaram-se peças centrais dessa engrenagem.
Um marco recente ilustra essa tendência. Em maio de 2026, a Caixa Asset selecionou três gestoras, RB Asset, TG Core e RBR, para a estruturação e cogestão de novos Fundos de Investimento Imobiliário com foco principal em CRIs, conforme divulgado pela Caixa Econômica Federal e pela Agência Estado. A entrada de um player de peso institucional na estruturação de FIIs de papel sinaliza que o mercado de securitização imobiliária atingiu um novo patamar de maturidade e escala.
Para boutiques jurídicas especializadas, esse movimento representa uma ampliação significativa do pipeline de trabalho. Cada emissão de CRI demanda análise de lastro, parecer de conformidade regulatória, estruturação de garantias e adequação às normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Cada novo FII exige documentação constitutiva, regulamento aprovado pela CVM e conformidade com os padrões de transparência cada vez mais exigentes do regulador.
A demanda por assessoria jurídica especializada no middle market tende a crescer proporcionalmente à sofisticação dos instrumentos financeiros utilizados pelo setor. Escritórios que dominam simultaneamente o arcabouço regulatório da CVM e as particularidades da legislação urbanística e ambiental posicionam-se como elos indispensáveis na cadeia de valor das operações imobiliárias.
O novo arcabouço regulatório da CVM e seus efeitos sobre o advisory jurídico
Dois movimentos regulatórios recentes da CVM reforçam a tese de que a assessoria jurídica especializada se tornará ainda mais crítica nos próximos ciclos.
O Ofício Circular CVM/SSE 2/2026, publicado e em vigor desde 30 de abril de 2026, orienta administradores sobre o correto preenchimento dos campos do Informe Trimestral de FIIs relacionados a CRIs, visando maior transparência na identificação dos certificados. Na prática, o ofício eleva o nível de detalhe exigido nos reportes periódicos e cria uma nova camada de compliance para gestores e administradores de fundos.
Em paralelo, a Resolução CVM 175, em seu Anexo Normativo III, passa por processo de modernização por meio da Consulta Pública SDM 06/25. A atualização visa reformar o regime informacional da indústria de FIIs, permitindo que a área de supervisão da CVM defina e atualize o conteúdo dos informes periódicos com maior agilidade. Quando concluída, essa reforma transferirá para o regulador uma capacidade mais dinâmica de ajustar exigências de disclosure, o que exigirá dos participantes do mercado um acompanhamento regulatório contínuo e especializado.
Para escritórios como Moysés & Pires e Amatuzzi Advogados, essas mudanças representam tanto um desafio quanto uma oportunidade. A complexidade regulatória crescente eleva as barreiras de entrada para firmas generalistas e consolida a vantagem competitiva de boutiques que investem em equipes dedicadas ao mercado imobiliário.
As pontas operacionais do ecossistema: CBRE e Fasano/JHSF
O mapeamento das boutiques jurídicas do middle market ganha contexto quando observadas as pontas operacionais e de alto padrão do mercado que demandam esse tipo de assessoria.
Adriano Sartori, Presidente da CBRE Brasil, lidera a maior empresa de serviços imobiliários comerciais do país, conforme registrado pela SiiLA e pela própria CBRE. A gestão de portfólios corporativos, logísticos e de varejo em escala nacional envolve um fluxo constante de transações que dependem de estruturação jurídica precisa, desde a due diligence de ativos até a formalização de contratos de locação atípica e built-to-suit.
Constantino Bittencourt, Sócio-Diretor do Grupo Fasano (JHSF), atua na expansão e gestão do portfólio de hospitalidade e real estate de alto padrão, conforme reportado por Exame e Forbes. A expansão do Fasano para novas praças e formatos hoteleiros envolve operações imobiliárias complexas que combinam elementos de incorporação, estruturação societária e captação de recursos, terreno fértil para o advisory jurídico especializado.
Essas operações, conduzidas por lideranças de peso do setor, ilustram a amplitude da demanda por assessoria jurídica qualificada em diferentes segmentos do real estate, do comercial e logístico ao hospitality de luxo.
Perspectivas para 2026 e além
O cenário macroeconômico oferece sinais moderadamente positivos. Segundo a CBIC, o PIB da Construção Civil deve registrar crescimento de 2% em 2026, impulsionado pela expectativa de redução gradual da taxa Selic e pelo volume recorde de recursos do FGTS direcionados à habitação. Em horizonte mais longo, estimativas de mercado citadas pela ADEMI-RJ indicam que o setor imobiliário nacional pode alcançar um valor de mercado de US$ 160,6 bilhões até 2034, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 2,5%.
Esse crescimento projetado sustenta a tese de que a demanda por advisory jurídico especializado no middle market permanecerá em expansão. À medida que o mercado de capitais imobiliário amadurece e o regulador eleva os padrões de transparência, o papel das boutiques jurídicas de nicho se torna estruturalmente mais relevante.
O GRI Institute acompanha de perto essa evolução em seus encontros reservados a líderes do setor imobiliário e de infraestrutura. A interação recorrente entre incorporadoras, investidores, gestoras de FIIs e assessores jurídicos nos eventos da instituição reflete a centralidade do advisory especializado no funcionamento do deal flow brasileiro.
O ecossistema jurídico do middle market imobiliário brasileiro está em fase de consolidação. Firmas como Moysés & Pires e Amatuzzi Advogados deixaram de ser coadjuvantes e passaram a ocupar posições estratégicas na viabilização de operações que sustentam o crescimento do setor. Num mercado que bateu recordes de lançamentos e VGV mesmo sob juros restritivos, a capacidade de estruturar operações com precisão regulatória e agilidade operacional tornou-se um diferencial competitivo que transcende o universo jurídico e influencia diretamente a dinâmica de capital do real estate nacional.