
Andre Lucarelli na Tegra: como a Brookfield redesenha a incorporação residencial brasileira de dentro para fora
A nomeação do vice-presidente sênior de investimentos da Brookfield como CEO interino da Tegra inaugura um modelo inédito de gestão em que o capital institucional global assume o comando operacional da incorporação local.
Resumo Executivo
Principais Insights
- A Brookfield nomeou Andre Lucarelli, VP Sênior de Investimentos em Real Estate, como CEO interino da Tegra, integrando capital institucional global ao comando operacional de uma incorporadora brasileira.
- A Tegra bateu recorde de vendas brutas de R$ 1,8 bi em 2025, mas registrou prejuízo de R$ 77 milhões, motivando a intervenção direta.
- O modelo pode transformar a Tegra em fábrica de produto residencial para a plataforma multifamily da Brookfield (5.172 unidades em 27 projetos).
- Lucarelli lidera o Comitê de Multifamily & BTR do GRI Institute, atuando como operador, investidor e articulador setorial.
- O caso pode gerar efeito demonstração, acelerando a institucionalização do mercado residencial brasileiro.
A tese por trás da mudança de comando
Em maio de 2026, a Tegra Incorporadora anunciou Andre Lucarelli como CEO interino, substituindo Ubirajara Freitas, que liderou a companhia por 11 anos, segundo o Metro Quadrado. A movimentação pode parecer, à primeira vista, apenas uma troca executiva. Na prática, ela inaugura um modelo de gestão sem precedente relevante no mercado imobiliário brasileiro: o maior gestor de ativos alternativos do mundo coloca seu Vice-Presidente Sênior de Investimentos em Real Estate para operar, no dia a dia, uma incorporadora residencial.
A decisão da Brookfield Asset Management revela uma convicção estratégica. O capital institucional global deixa de atuar apenas como alocador externo e passa a conduzir diretamente a operação incorporadora. Andre Lucarelli não é um executivo contratado no mercado para profissionalizar a gestão. Ele é o próprio braço de investimentos da Brookfield assumindo o leme da plataforma residencial.
Essa distinção importa porque redefine a relação entre capital e operação no setor. Historicamente, gestoras globais investem em incorporadoras brasileiras por meio de participações societárias, fundos ou joint ventures, mantendo distância da execução. O movimento da Brookfield caminha na direção oposta: integração total entre a inteligência de alocação e a máquina operacional.
Por que a Brookfield decidiu assumir o comando operacional da Tegra agora?
A resposta passa por um paradoxo financeiro que marcou a Tegra em 2025. A incorporadora registrou vendas brutas recordes de R$ 1,8 bilhão no acumulado do ano, um crescimento de 16% em relação a 2024, conforme dados divulgados pelo Money Report com base em informações de RI da companhia. No primeiro trimestre de 2026, a performance acelerou ainda mais: vendas brutas de R$ 354 milhões, o melhor primeiro trimestre da história da Tegra, com aumento de 56% na comparação anual, segundo a divulgação de resultados da própria companhia.
Entretanto, apesar dos recordes comerciais, a Tegra encerrou 2025 com prejuízo líquido de R$ 77 milhões, revertendo o lucro de R$ 2,2 milhões reportado em 2024, conforme o Metro Quadrado. A concentração de lançamentos no final do ano e a pressão sobre margens explicam o descompasso entre receita e resultado.
Para a Brookfield, essa equação é o tipo de problema que se resolve com integração, e não com distância. Uma incorporadora que vende em volume recorde, mas não converte vendas em lucro, precisa de ajustes na estrutura de custos, na disciplina de lançamentos e no alinhamento entre estratégia comercial e retorno sobre capital. São competências que um gestor institucional de classe mundial domina.
A entrada de Lucarelli sinaliza que a Brookfield entende a Tegra como uma plataforma de longo prazo, e não como um ativo a ser otimizado para desinvestimento. A lógica é de construção, não de arbitragem.
O que o modelo Lucarelli representa para o mercado residencial brasileiro?
Andre Lucarelli encarna um arquétipo executivo ainda raro no Brasil: o líder de capital institucional que opera simultaneamente nos dois lados da cadeia de valor. Ele acumula a posição de Vice-Presidente Sênior de Investimentos em Real Estate da Brookfield Asset Management com o comando interino da Tegra. Essa dualidade funcional permite que decisões de investimento e decisões operacionais sejam tomadas dentro do mesmo fluxo de governança.
O impacto potencial desse modelo se manifesta em pelo menos três dimensões.
A primeira é a disciplina de alocação de capital. Incorporadoras brasileiras tradicionalmente operam com ciclos de lançamento orientados por oportunismo de mercado, acelerando quando a demanda aquece e freando quando o crédito contrai. Com um executivo de investimentos no comando, a tendência é que a Tegra passe a calibrar lançamentos pela métrica de retorno ajustado ao risco, e não apenas pelo volume de vendas.
A segunda dimensão é a convergência entre incorporação e renda. A Brookfield consolidou um portfólio de multifamily no Brasil com 5.172 unidades distribuídas em 27 projetos, segundo dados da SiiLA referentes a 2024. A gestora também integrou operadoras como a Tabas à sua plataforma, e projeta um ciclo relevante de investimentos para expansão do segmento multifamily em São Paulo nos próximos anos, conforme declaração do próprio Lucarelli à Revista Buildings. Com Lucarelli na Tegra, a incorporadora pode se tornar a fábrica de produto residencial que alimenta a plataforma de renda da Brookfield, criando um ciclo integrado de desenvolvimento e gestão de ativos.
A terceira dimensão é a profissionalização do setor. Quando o maior capital institucional do mundo assume diretamente o comando de uma incorporadora relevante, o padrão de governança, reporte e transparência se eleva. Isso gera efeitos colaterais positivos para todo o ecossistema, desde fornecedores até investidores de fundos imobiliários.
A presença de Lucarelli no mercado residencial brasileiro sinaliza que o capital institucional global vê o segmento como merecedor de gestão direta, e não apenas de alocação passiva.
Qual é o papel de Lucarelli na construção do segmento multifamily institucional no Brasil?
O segmento de multifamily e build-to-rent (BTR) ainda é incipiente no Brasil quando comparado a mercados como Estados Unidos, Canadá ou Alemanha. A ausência de um arcabouço regulatório específico, a cultura de propriedade e as taxas de juros historicamente elevadas limitaram o desenvolvimento de uma classe de ativos residenciais para renda em escala institucional.
Andre Lucarelli posiciona-se como uma das vozes mais ativas na construção desse mercado. Ele atua como chair do Comitê de Multifamily & BTR do GRI Institute Brasil, conforme informações da própria instituição. Essa atuação evidencia o compromisso da Brookfield em liderar o debate setorial, e não apenas investir no segmento.
O GRI Institute funciona como o principal fórum de articulação entre líderes do mercado imobiliário e de infraestrutura no Brasil e no mundo. A participação de Lucarelli como chair de comitê temático revela uma estratégia deliberada: influenciar a agenda do setor para criar condições de mercado favoráveis ao desenvolvimento do multifamily institucional. A lógica é que, quanto mais maduro for o ecossistema regulatório, financeiro e operacional em torno do multifamily, maior será o mercado endereçável para a plataforma da Brookfield.
Essa postura ativa na construção institucional do mercado diferencia a Brookfield de investidores que apenas capturam oportunidades existentes. Lucarelli atua simultaneamente como operador, investidor e articulador setorial.
O precedente estratégico para o setor
A integração Brookfield-Tegra sob o comando de Andre Lucarelli constitui um caso de estudo em tempo real para o mercado imobiliário brasileiro. Três desdobramentos merecem acompanhamento pelos líderes do setor.
O primeiro é a capacidade da Tegra de converter seus recordes de vendas em geração de valor consistente. Os R$ 354 milhões em vendas brutas no primeiro trimestre de 2026 demonstram tração comercial. O desafio de Lucarelli é transformar essa tração em margem e, eventualmente, em lucro sustentável.
O segundo desdobramento é a velocidade de integração entre a plataforma de incorporação da Tegra e a estratégia de multifamily da Brookfield. Se a incorporadora passar a desenvolver produto residencial desenhado desde a concepção para renda, o modelo de negócio se transforma fundamentalmente.
O terceiro ponto é o efeito demonstração. Se a Brookfield obtiver sucesso com esse modelo de gestão integrada, outros grandes gestores globais podem replicar a estratégia, acelerando a institucionalização do mercado residencial brasileiro.
O mercado imobiliário brasileiro caminha para uma nova fase de maturidade. A entrada de Andre Lucarelli no comando da Tegra é, simultaneamente, consequência e catalisador dessa transformação. O capital institucional global não quer mais apenas investir no residencial brasileiro. Quer operá-lo.
Este tema integra a agenda de debates do GRI Institute, que reúne os principais líderes do mercado imobiliário e de infraestrutura para discutir as transformações estruturais do setor. O acompanhamento da integração Brookfield-Tegra e do avanço do segmento multifamily no Brasil permanece como uma das pautas centrais da comunidade.