GRI InstituteSaneamento avança, mas universalização até 2033 tem grandes desafios
Executivos reunidos pelo GRI Institute identificam pontos críticos que precisam ser enfrentados para que as metas sejam alcançadas; confira
30 de junho de 2026Infraestrutura
Escrito por:Henrique Cisman
Principais Insights
- O setor de saneamento brasileiro avançou mais em cinco anos do que nas cinco décadas anteriores. Manter esse ritmo e honrar os compromissos da universalização exige, agora, correções de rota em frentes críticas.
- Os dados que embasam as modelagens de concessão refletem limitações estruturais do setor. Avançar na qualidade dessas informações de partida é condição para estruturas de Project Finance mais sólidas e para leilões mais competitivos.
- O mercado de capitais brasileiro dispõe de instrumentos capazes de responder às necessidades das concessões de longo prazo em ambiente macroeconômico volátil, mas sua adoção no saneamento ainda tem muito a evoluir. Mecanismos como estruturas com camadas de investidores e o interest rate collar (proteção bilateral contra oscilações extremas de juros e inflação) existem e funcionam; o que se constrói agora é a ponte entre os recursos e as especificidades do setor.
- A pressão inflacionária sobre a cadeia de suprimentos é imediata e severa: o volume de obras triplicou sem que a mão de obra especializada acompanhasse, gerando casos em que fornecedores dobraram preços em apenas três meses.
O setor de saneamento brasileiro avançou mais em cinco anos do que nas cinco décadas anteriores. A meta de universalização até 2033 permanece como horizonte legítimo e necessário, mas atingi-la exige ajustes que permitam progredir na velocidade e na profundidade que o desafio demanda. Uma mesa-redonda promovida pelo GRI Institute em parceria com a Gallagher reuniu executivos de concessionárias, construtoras, financiadores e consultores para dissecar o que sustenta e o que ameaça a perenidade das concessões de saneamento no país.
O diagnóstico é tão revelador quanto desconfortável: o gargalo não está na disposição de investir, mas na qualidade dos dados que chegam para embasar projetos e que orientam o investimento, na incompatibilidade de prazos entre instrumentos financeiros disponíveis e os prazos de concessão, na pressão inflacionária sobre a cadeia de suprimentos e na fragmentação e na assimetria de maturidade do arranjo regulatório que impactam a confiança de longo prazo.
O caso mais emblemático diz respeito aos índices de perdas apontados nos Estudos de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTEs), frequentemente bastante superiores na vida real. Essa diferença altera radicalmente o dimensionamento de investimentos, a projeção de receitas e a capacidade de pagamento da dívida.
Tarifas médias iniciais, calculadas sobre bases populacionais extraídas de censos defasados, agravam o problema. Estações de tratamento projetadas para horizontes de 35 anos são dimensionadas a partir de fotografias demográficas que já não correspondem à dinâmica territorial dos municípios.
Essa fragilidade na origem produz efeitos em cascata: financiadores precificam o risco de forma mais conservadora, exigindo spreads maiores e garantias adicionais; estruturas de Project Finance tornam-se mais caras e complexas; a competição nos leilões se estreita. Ainda, quando apenas um ou dois players se apresentam, o poder público perde capacidade de negociação e a sociedade perde eficiência alocativa.
A solução discutida passa pela verificação independente dos dados de partida antes da publicação dos editais, com auditorias técnicas que confrontem os números declarados com medições de campo.
O ponto central reside na volatilidade macroeconômica: em menos de cinco anos, a taxa básica de juros oscilou de 2% a 15% ao ano. Para um contrato de três décadas, essa amplitude não é uma anomalia - é o cenário-base. No entanto, a maioria das estruturas de financiamento disponíveis foi desenhada para ambientes de menor volatilidade ou para prazos significativamente mais curtos.
Os executivos presentes identificaram alternativas viáveis, porém ainda pouco utilizadas:
1. Estruturas com camadas de investidores - sênior, mezanino e subordinado - que permitem distribuir o risco de forma mais eficiente, atraindo perfis distintos de capital para diferentes fatias do projeto.
2. Mecanismos de interest rate collar, que oferecem proteção bilateral contra oscilações extremas na inflação e na taxa de juros.
3. Desembolsos atrelados a métricas reais de performance, e não a cronogramas físicos predeterminados, alinhando incentivos e reduzindo o risco de descasamento entre investimento e geração de receita.
Uma evolução regulatória mencionada - a ser considerada - é a adoção do modelo de remuneração pelo capital investido, tal como já ocorre no setor elétrico.
No modelo atual do saneamento, a remuneração do concessionário está essencialmente atrelada à tarifa cobrada do consumidor final. No setor elétrico, o regulador reconhece a base de ativos e remunera o capital investido de forma estruturada, o que confere previsibilidade ao fluxo de caixa e facilita a captação de recursos de longo prazo. A transposição desse modelo para o saneamento não é automática, mas o princípio subjacente é aplicável, segundo os executivos.
Em resumo, o problema não é ausência de capital. Há liquidez disponível, há apetite de investidores institucionais e há interesse de bancos de fomento. O que falta é a engenharia financeira que conecte essa liquidez às necessidades específicas de concessões longas em ambiente macroeconômico volátil.
O volume de obras no saneamento triplicou em um intervalo curto. Essa aceleração, em si positiva, gerou um desequilíbrio severo entre demanda e oferta de insumos e mão de obra especializada. Casos concretos discutidos na mesa-redonda indicam fornecedores que dobraram preços em apenas três meses, obras paralisadas por falta de equipes qualificadas e cronogramas comprometidos por atrasos na entrega de equipamentos.
O saneamento não dispõe de mecanismos estruturados de reequilíbrio automático para variações de custo de insumos. Quando o preço do aço, do concreto ou de tubulações sobe além do previsto, o concessionário absorve o impacto ou inicia um processo de reequilíbrio contratual que pode demorar e exigir a reorganização do capex.
Dentre os caminhos possíveis, estão a revisão sistemática de projetos para identificar soluções técnicas que entreguem a mesma funcionalidade a um custo menor, o faseamento inteligente de investimentos, priorizando intervenções de maior impacto sanitário e postergando componentes que podem ser implantados em etapas subsequentes, e missões internacionais para busca de tecnologias alternativas - visitas à China e Alemanha, por exemplo.
O repertório tecnológico global é vasto, mas ainda faltam mecanismos institucionalizados de financiamento à pesquisa e desenvolvimento. Sem esse motor, a inovação no saneamento depende de iniciativas isoladas das concessionárias com escala suficiente para absorver o risco de experimentação.
A natureza subnacional do saneamento cria uma realidade de contratos diversos, agências reguladoras em estágios distintos de desenvolvimento e capacidades técnicas heterogêneas. O caminho evolutivo requer elevar o patamar técnico das instâncias regulatórias subnacionais e aprimorar os mecanismos de coordenação entre elas. Contratos mais padronizados, protocolos compartilhados de revisão e reequilíbrio e programas estruturados de capacitação regulatória são instrumentos concretos nessa direção, e condição para que a segurança jurídica dos contratos se traduza em confiança real para investidores e financiadores de longo prazo.
Parte dos executivos avalia que o ritmo atual de implantação das concessões e o volume de leilões regionais ainda por acontecer torna o cumprimento integral da meta dentro do prazo original um desafio de ordem prática. Nesse contexto, defendem que uma discussão transparente sobre horizontes e prioridades, conduzida pelo poder público com participação do setor privado e dos financiadores, é fundamental.
As conquistas dos últimos cinco anos são inegáveis e devem ser protegidas. Mas a próxima fase exige sofisticação que vai muito além da capacidade de mobilizar CAPEX. É nessa dimensão que se decidirá se o país conseguirá transformar contratos assinados em água tratada e esgoto coletado para os mais de 100 milhões de brasileiros que ainda aguardam esse direito fundamental.
O diagnóstico é tão revelador quanto desconfortável: o gargalo não está na disposição de investir, mas na qualidade dos dados que chegam para embasar projetos e que orientam o investimento, na incompatibilidade de prazos entre instrumentos financeiros disponíveis e os prazos de concessão, na pressão inflacionária sobre a cadeia de suprimentos e na fragmentação e na assimetria de maturidade do arranjo regulatório que impactam a confiança de longo prazo.
EVTE carece de dados precisos
Os dados que fundamentam os contratos de concessão precisam refletir a realidade. No saneamento brasileiro, entretanto, essa premissa esbarra em uma limitação estrutural: os dados disponíveis para sustentar as modelagens frequentemente não refletem a realidade operacional encontrada após a efetiva concessão. Os Estudos de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTEs) que embasam os leilões operam com informações declaratórias das companhias estaduais, sem verificação independente, gerando uma assimetria informacional que contamina toda a cadeia de decisão.
Marilene Ramos, diretora de RI e Sustentabilidade do Grupo Águas do Brasil (Foto: GRI Institute)
O caso mais emblemático diz respeito aos índices de perdas apontados nos Estudos de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTEs), frequentemente bastante superiores na vida real. Essa diferença altera radicalmente o dimensionamento de investimentos, a projeção de receitas e a capacidade de pagamento da dívida.
Tarifas médias iniciais, calculadas sobre bases populacionais extraídas de censos defasados, agravam o problema. Estações de tratamento projetadas para horizontes de 35 anos são dimensionadas a partir de fotografias demográficas que já não correspondem à dinâmica territorial dos municípios.
Essa fragilidade na origem produz efeitos em cascata: financiadores precificam o risco de forma mais conservadora, exigindo spreads maiores e garantias adicionais; estruturas de Project Finance tornam-se mais caras e complexas; a competição nos leilões se estreita. Ainda, quando apenas um ou dois players se apresentam, o poder público perde capacidade de negociação e a sociedade perde eficiência alocativa.
A solução discutida passa pela verificação independente dos dados de partida antes da publicação dos editais, com auditorias técnicas que confrontem os números declarados com medições de campo.
O descompasso financeiro
O mercado de capitais brasileiro dispõe de instrumentos que, adaptados e mais amplamente adotados, podem responder às necessidades das concessões de saneamento, mas a conexão entre os recursos disponíveis e as especificidades desses contratos, com horizontes de décadas, ainda está em construção.O ponto central reside na volatilidade macroeconômica: em menos de cinco anos, a taxa básica de juros oscilou de 2% a 15% ao ano. Para um contrato de três décadas, essa amplitude não é uma anomalia - é o cenário-base. No entanto, a maioria das estruturas de financiamento disponíveis foi desenhada para ambientes de menor volatilidade ou para prazos significativamente mais curtos.
Os executivos presentes identificaram alternativas viáveis, porém ainda pouco utilizadas:
1. Estruturas com camadas de investidores - sênior, mezanino e subordinado - que permitem distribuir o risco de forma mais eficiente, atraindo perfis distintos de capital para diferentes fatias do projeto.
2. Mecanismos de interest rate collar, que oferecem proteção bilateral contra oscilações extremas na inflação e na taxa de juros.
3. Desembolsos atrelados a métricas reais de performance, e não a cronogramas físicos predeterminados, alinhando incentivos e reduzindo o risco de descasamento entre investimento e geração de receita.
Uma evolução regulatória mencionada - a ser considerada - é a adoção do modelo de remuneração pelo capital investido, tal como já ocorre no setor elétrico.
No modelo atual do saneamento, a remuneração do concessionário está essencialmente atrelada à tarifa cobrada do consumidor final. No setor elétrico, o regulador reconhece a base de ativos e remunera o capital investido de forma estruturada, o que confere previsibilidade ao fluxo de caixa e facilita a captação de recursos de longo prazo. A transposição desse modelo para o saneamento não é automática, mas o princípio subjacente é aplicável, segundo os executivos.
Em resumo, o problema não é ausência de capital. Há liquidez disponível, há apetite de investidores institucionais e há interesse de bancos de fomento. O que falta é a engenharia financeira que conecte essa liquidez às necessidades específicas de concessões longas em ambiente macroeconômico volátil.
Inflação setorial
O terceiro eixo do debate trouxe à tona a pressão inflacionária sobre a cadeia de suprimentos.O volume de obras no saneamento triplicou em um intervalo curto. Essa aceleração, em si positiva, gerou um desequilíbrio severo entre demanda e oferta de insumos e mão de obra especializada. Casos concretos discutidos na mesa-redonda indicam fornecedores que dobraram preços em apenas três meses, obras paralisadas por falta de equipes qualificadas e cronogramas comprometidos por atrasos na entrega de equipamentos.
Brenno Machado, diretor Institucional e Novos Negócios da Acciona (Foto: GRI Institute)
Dentre os caminhos possíveis, estão a revisão sistemática de projetos para identificar soluções técnicas que entreguem a mesma funcionalidade a um custo menor, o faseamento inteligente de investimentos, priorizando intervenções de maior impacto sanitário e postergando componentes que podem ser implantados em etapas subsequentes, e missões internacionais para busca de tecnologias alternativas - visitas à China e Alemanha, por exemplo.
O repertório tecnológico global é vasto, mas ainda faltam mecanismos institucionalizados de financiamento à pesquisa e desenvolvimento. Sem esse motor, a inovação no saneamento depende de iniciativas isoladas das concessionárias com escala suficiente para absorver o risco de experimentação.
Maturidade regulatória: o elo que ancora o longo prazo
Concessões de saneamento com horizontes de 30 anos exigem um ambiente regulatório capaz de oferecer previsibilidade equivalente. O Brasil avançou de forma relevante nessa direção. A estruturação do Marco Legal e o papel de referência exercido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) são conquistas reconhecidas pelo mercado. O desafio que permanece está na construção de um arranjo regulatório coeso entre as diferentes esferas de governo.A natureza subnacional do saneamento cria uma realidade de contratos diversos, agências reguladoras em estágios distintos de desenvolvimento e capacidades técnicas heterogêneas. O caminho evolutivo requer elevar o patamar técnico das instâncias regulatórias subnacionais e aprimorar os mecanismos de coordenação entre elas. Contratos mais padronizados, protocolos compartilhados de revisão e reequilíbrio e programas estruturados de capacitação regulatória são instrumentos concretos nessa direção, e condição para que a segurança jurídica dos contratos se traduza em confiança real para investidores e financiadores de longo prazo.
Recalibrar expectativas para preservar conquistas
A entrada de operadores privados elevou o patamar de eficiência e trouxe disciplina de gestão a sistemas historicamente negligenciados. Mas a universalização até 2033 exige mais do que capital e boa vontade: dados confiáveis na origem dos contratos, instrumentos financeiros calibrados para a volatilidade brasileira, uma cadeia de suprimentos capaz de absorver o volume de obras sem distorções de preço e maturidade regulatória em todas as esferas de governo.Parte dos executivos avalia que o ritmo atual de implantação das concessões e o volume de leilões regionais ainda por acontecer torna o cumprimento integral da meta dentro do prazo original um desafio de ordem prática. Nesse contexto, defendem que uma discussão transparente sobre horizontes e prioridades, conduzida pelo poder público com participação do setor privado e dos financiadores, é fundamental.
As conquistas dos últimos cinco anos são inegáveis e devem ser protegidas. Mas a próxima fase exige sofisticação que vai muito além da capacidade de mobilizar CAPEX. É nessa dimensão que se decidirá se o país conseguirá transformar contratos assinados em água tratada e esgoto coletado para os mais de 100 milhões de brasileiros que ainda aguardam esse direito fundamental.