
Rafael Hawilla e a geração de capital familiar que redesenha as concessões de infraestrutura no Brasil
Family offices brasileiros avançam sobre rodovias, energia e saneamento num ciclo de R$ 300 bilhões, mas governança e estrutura de capital definem quem ficará no jogo
Resumo Executivo
Principais Insights
- O Brasil deve atingir R$ 300 bilhões em investimentos em infraestrutura em 2026, atraindo capital familiar para concessões rodoviárias, energia e saneamento.
- A Lei 14.801/2024 (Debêntures de Infraestrutura) amplia a atratividade tributária para veículos de investimento de family offices.
- 79% dos family offices globais ainda têm alocação zero em infraestrutura, revelando barreiras concretas de acesso.
- O capital familiar encontra vantagem competitiva no middle market (R$ 50 mi–R$ 500 mi), onde grandes fundos institucionais raramente competem.
- Governança corporativa é o fator decisivo para a permanência dessas famílias no setor.
O superciclo de infraestrutura brasileiro está atraindo um perfil de investidor que, até poucos anos atrás, concentrava patrimônio em imóveis corporativos, participações industriais e ativos financeiros tradicionais. Nomes como Rafael Hawilla, Carlos Bier Gerdau Johannpeter, Sidney Angulo e Alan Zelazo representam uma nova geração de herdeiros e gestores de capital familiar que mira concessões rodoviárias, projetos de energia renovável e contratos de saneamento como destino de longo prazo para fortunas construídas em setores diversos.
Essa movimentação acontece num momento singular. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), o Brasil deve atingir cerca de R$ 300 bilhões em investimentos em infraestrutura em 2026, o maior volume da série histórica recente. O governo federal encerrou 2025 com o maior número de concessões de infraestrutura já registrado no país, totalizando 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos, conforme dados do Ministério dos Transportes publicados pela Folha de S.Paulo em janeiro de 2026. O pipeline é grande, diversificado e, cada vez mais, disputado por capital que não vem dos fundos de private equity tradicionais.
A tese de alocação em ativos reais de infraestrutura por famílias empresariais brasileiras merece análise detida. Ela combina um impulso geracional com condições macroeconômicas e regulatórias específicas, e carrega riscos próprios que distinguem esse capital de investidores institucionais convencionais.
Por que o capital familiar brasileiro está migrando para concessões de infraestrutura?
A resposta envolve três vetores convergentes: maturidade patrimonial, incentivo regulatório e busca por descorrelação.
O Brasil possui cerca de 546 empresas atuando no segmento de wealth management, identificadas como family offices ou assessoramento patrimonial, segundo levantamento da Forbes Brasil com dados de 2025. Esse ecossistema cresceu de forma acelerada na última década e, com ele, a sofisticação das estratégias de alocação. Famílias de segunda e terceira geração, formadas em finanças e com experiência internacional, passaram a questionar portfólios excessivamente concentrados em renda fixa ou em participações no negócio original da família.
Infraestrutura oferece o que esse perfil procura: fluxo de caixa previsível, proteção inflacionária via contratos indexados e horizonte de investimento compatível com a perpetuidade do patrimônio familiar. É o chamado "capital paciente", naturalmente alinhado a concessões de 20 ou 30 anos.
Rafael Hawilla insere-se nesse contexto como representante de uma geração que herda não apenas patrimônio, mas a necessidade de reposicionar a estratégia de alocação familiar diante de um cenário econômico transformado. Carlos Bier Gerdau Johannpeter, por sua vez, carrega o peso e a experiência de uma das mais tradicionais famílias industriais do país, cuja diversificação para ativos de infraestrutura e energia sinaliza uma tendência estrutural, e não episódica. Sidney Angulo e Alan Zelazo completam o mosaico de gestores e investidores que operam na interseção entre capital privado familiar e o pipeline de concessões e PPPs do middle market brasileiro.
A entrada em vigor da Lei 14.801/2024, que criou as Debêntures de Infraestrutura, funciona como catalisador adicional. O instrumento concede benefício tributário aos emissores por meio da redução de 30% da base de cálculo do IRPJ e da CSLL sobre os juros pagos aos investidores. Para family offices que estruturam veículos próprios de investimento, essa engenharia tributária amplia a atratividade do setor e permite participação em projetos de menor porte que não atraem grandes fundos institucionais.
Ainda assim, o cenário global revela uma contradição importante. Segundo o Global Family Office Report 2026, publicado pelo J.P. Morgan Private Bank, 79% dos family offices globais ainda possuem alocação zero no segmento de infraestrutura. O dado indica que, apesar do apelo teórico, barreiras concretas de acesso, complexidade regulatória e governança impedem a maioria dessas estruturas de converter interesse em capital efetivamente comprometido.
Qual é o risco de governança quando famílias empresariais operam concessões públicas?
Esse é o ponto que separa tese de investimento de execução bem-sucedida. A infraestrutura concedida opera sob marcos regulatórios rígidos, com obrigações de investimento mínimo, metas de desempenho operacional e fiscalização de agências reguladoras. É um ambiente que exige governança corporativa de alto padrão, processos decisórios formalizados e capacidade de gestão que transcende a lógica patrimonial.
Famílias empresariais frequentemente operam com estruturas enxutas, decisões centralizadas e baixa separação entre propriedade e gestão. Esse modelo, que pode ser eficiente em holdings patrimoniais ou em empresas operacionais maduras, colide com as exigências de transparência e compliance de uma concessionária de rodovias ou de uma operadora de saneamento.
O desafio central não é financeiro, é organizacional. O capital familiar que pretende atuar em concessões precisa profissionalizar a gestão operacional, estabelecer conselhos independentes e adotar estruturas de reporte compatíveis com os requisitos do poder concedente. Os casos mais bem-sucedidos de transição são aqueles em que a família assume o papel de acionista estratégico, delegando a operação a executivos especializados e mantendo governança clara entre as esferas familiar e corporativa.
Essa profissionalização representa uma barreira de entrada significativa. Famílias que a superam encontram um campo competitivo com menos concorrentes do que o mercado institucional tradicional, especialmente no middle market de concessões regionais.
Como a nova geração de capital familiar está redefinindo o pipeline de infraestrutura?
A contribuição mais relevante desse movimento não está nos megaprojetos. Está na captura de oportunidades que ficam abaixo do radar dos grandes fundos de infraestrutura e das concessionárias listadas em bolsa.
Concessões rodoviárias estaduais, pequenas centrais hidrelétricas, parques solares distribuídos e contratos de saneamento em municípios de médio porte constituem um segmento que demanda tickets de investimento entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões, faixas nas quais os grandes players institucionais raramente competem. É nesse middle market que o capital familiar encontra sua vantagem comparativa: agilidade decisória, disposição para atuar em regiões menos consolidadas e capacidade de manter investimentos por horizontes que ultrapassam os ciclos típicos de fundos de private equity, geralmente limitados a dez anos.
O crescimento dos investimentos globais em infraestrutura voltada para inteligência artificial e data centers, projetado pela Gartner em US$ 1,3 trilhão para 2026, adiciona uma camada de complexidade. Famílias com experiência no setor imobiliário, como as que atuam em galpões logísticos e campus corporativos, encontram nos data centers uma ponte natural entre real estate e infraestrutura digital, ampliando o espectro de alocação.
Nos encontros e conferências do GRI Institute dedicados a infraestrutura, a presença de representantes de family offices tem crescido de forma consistente. A comunidade de líderes do setor registra um interesse cada vez mais estruturado dessas famílias em compreender o ambiente regulatório, identificar parceiros operacionais e avaliar oportunidades de coinvestimento com outros atores do ecossistema.
O que está em jogo para o setor
A entrada do capital familiar nas concessões de infraestrutura brasileiras é um fenômeno estrutural, impulsionado pelo maior ciclo de investimentos já registrado no país e por instrumentos regulatórios como as Debêntures de Infraestrutura. O capital paciente dessas famílias preenche uma lacuna real no financiamento de projetos de médio porte.
Nomes como Rafael Hawilla, Carlos Bier Gerdau Johannpeter, Sidney Angulo e Alan Zelazo não representam casos isolados, mas a face visível de uma reconfiguração mais ampla na base de capital do setor. A questão determinante para os próximos anos será a capacidade dessas famílias de construir governança compatível com a complexidade regulatória das concessões públicas.
O capital existe. O pipeline existe. A governança é o fator que definirá quais famílias empresariais se consolidarão como protagonistas de longo prazo na infraestrutura brasileira.
O GRI Institute continuará acompanhando essa evolução por meio de suas pesquisas e encontros setoriais, oferecendo aos membros da comunidade a inteligência necessária para compreender e navegar essa nova fronteira de investimento.