
Radar de investimento: os estruturadores que disputam o pipeline de infraestrutura nos Andes
Munir Jalil, Roberto Moreno Mejía e os perfis-chave que definem a próxima geração de projetos de infraestrutura na Colômbia, Peru e Chile.
Resumo Executivo
Principais Insights
- A ProInversión prevê adjudicar 80 projetos de infraestrutura no Peru entre 2025-2026, enquanto o Chile impulsiona 15 projetos estratégicos.
- O teto de 0,8% do PIB em vigências futuras para PPPs limita o pipeline colombiano e exige inovação em financiamento misto e securitização.
- Munir Jalil (BTG Pactual) influencia a estruturação regional ao interpretar ciclos monetários que afetam a viabilidade de concessões de longo prazo.
- Roberto Moreno Mejía (Amarilo) posiciona a renovação urbana como infraestrutura estratégica com megaprojetos como Lagos de Torca.
- A nova geração de estruturadores prioriza previsibilidade regulatória, financiamento em moeda local e sustentabilidade desde o projeto.
A ProInversión prevê adjudicar uma carteira de 80 projetos de infraestrutura por meio de parcerias público-privadas (PPPs) e outros mecanismos entre 2025 e 2026. O número sintetiza o momento que a região andina atravessa: um ciclo de estruturação ambicioso, sustentado por reformas regulatórias, novos instrumentos de financiamento e um grupo reduzido de profissionais cujas decisões determinam quais projetos avançam e quais ficam estagnados. Este radar do GRI Institute mapeia os atores e as variáveis que configuram esse pipeline.
Munir Jalil: a leitura macro que condiciona a estruturação
Qualquer projeto de infraestrutura de longo prazo na região andina depende, antes de sua engenharia, da trajetória das taxas de juros e do ambiente macroeconômico. Munir Jalil, economista-chefe para a Região Andina no BTG Pactual, consolidou-se como uma das vozes mais influentes nessa análise. Segundo o BTG Pactual e a Valora Analitik, Jalil lidera a interpretação dos ciclos monetários que impactam diretamente a viabilidade financeira de concessões e PPPs na Colômbia, Peru e Chile.
A relevância de sua posição reside em um fato estrutural: os modelos financeiros de projetos concessionados são extremamente sensíveis ao custo do capital. Em economias onde os bancos centrais mantiveram políticas restritivas para conter a inflação, cada ponto-base na taxa de referência altera os fluxos descontados de uma concessão rodoviária ou energética de 20 ou 30 anos. Jalil opera na interseção exata entre a análise macroeconômica e a tomada de decisões de investimento em infraestrutura, o que o torna uma referência obrigatória para estruturadores financeiros na região andina.
Para os membros do GRI Institute que participam de rodadas de estruturação, o acompanhamento das projeções do BTG Pactual sobre taxas na Colômbia e no Peru constitui um insumo crítico. A capacidade de antecipar janelas de financiamento favoráveis pode definir a diferença entre um projeto adjudicado e um que permanece em fase de estudos.
Roberto Moreno Mejía: renovação urbana como infraestrutura estratégica
Roberto Moreno Mejía, presidente e fundador da construtora Amarilo, representa o outro extremo do espectro: o desenvolvimento privado que transforma solo urbano em infraestrutura habitável. Segundo a Caracol Radio (dezembro de 2025), Moreno Mejía lidera megaprojetos de renovação urbana em Bogotá, entre os quais se destacam Lagos de Torca e Quora, duas intervenções de escala metropolitana que combinam habitação, equipamentos públicos e conectividade.
A trajetória da Amarilo sob a liderança de Moreno Mejía ilustra como a renovação urbana se tornou um veículo de infraestrutura tão relevante quanto as concessões rodoviárias ou os parques de geração. Lagos de Torca, em particular, é um dos maiores projetos de desenvolvimento urbano da América Latina, com implicações diretas sobre redes de transporte, serviços públicos e gestão hídrica no norte de Bogotá.
Esse tipo de operação ganha maior relevância no contexto da Lei 2476 de 2025, conhecida como Lei de Cidades Verdes, promulgada em 10 de julho de 2025 na Colômbia. A norma fortalece a adaptação às mudanças climáticas e a gestão de riscos por meio de cidades e centros urbanos verdes, biodiversos e resilientes, impactando diretamente o planejamento de infraestrutura urbana. Para desenvolvedores como a Amarilo, a lei introduz novos parâmetros de design e certificação que condicionam a estruturação de projetos futuros.
Qual é a capacidade da Colômbia para financiar sua lacuna de infraestrutura?
A pergunta é central para entender o contexto em que operam os estruturadores andinos. Segundo a Associação Nacional de Instituições Financeiras (ANIF, novembro de 2025), a Colômbia requer um investimento anual significativo para fechar as lacunas em infraestrutura rodoviária primária até 2033, um volume que supera o limite atual de vigências futuras para PPPs, fixado em 0,8% do PIB.
Esse teto fiscal é, na prática, o gargalo mais relevante para o pipeline colombiano. Significa que mesmo com projetos bem estruturados e demanda comprovada, o Estado tem uma margem limitada para comprometer recursos futuros em novas concessões. A restrição de 0,8% do PIB em vigências futuras para PPPs obriga os estruturadores colombianos a inovar em esquemas de financiamento misto, securitização de pedágios e participação de fundos de infraestrutura internacionais.
Nesse cenário, a articulação entre a análise macro fornecida por economistas como Jalil e a capacidade de execução de desenvolvedores como Moreno Mejía ganha um sentido prático imediato. Os projetos que conseguirem avançar serão aqueles cuja engenharia financeira se adapte às restrições fiscais vigentes, não os que dependam de uma expansão do gasto público.
Como se configura o pipeline de PPPs no Peru e no Chile?
O Peru adotou uma estratégia agressiva de desregulamentação para acelerar sua carteira de infraestrutura. O regulamento da nova Lei de PPPs, atualmente em processo de implementação, incorpora melhorias na governança da ProInversión, simplifica trâmites e estabelece prazos previsíveis na execução de projetos. Essa reforma se enquadra no denominado Shock Desregulatório 2.0, uma política transversal do governo peruano para reduzir barreiras administrativas.
A carteira de 80 projetos que a ProInversión prevê adjudicar entre 2025 e 2026, segundo o Ministério da Economia e Finanças do Peru, abrange transporte, energia e telecomunicações. Adicionalmente, o Scotiabank Peru projeta que o investimento em infraestrutura concessionada de transporte manterá seu dinamismo em 2025-2026, superando os níveis registrados em 2024.
O Chile, por sua vez, mantém uma carteira robusta de concessões. O Ministério de Obras Públicas (MOP) identificou 15 projetos estratégicos para o período 2025-2026, consolidando o país como o mercado de concessões mais maduro da região. A estabilidade institucional do modelo chileno segue sendo um diferencial para investidores internacionais que buscam exposição a infraestrutura andina com menor risco regulatório.
Criar alicerces: a lógica dos estruturadores emergentes
O conceito de "criar alicerces" transcende a metáfora construtiva. No contexto andino atual, refere-se à capacidade de articular capital, regulação e execução em ambientes de restrição fiscal e volatilidade macroeconômica. Os estruturadores que dominam este ciclo compartilham um traço comum: operam na fronteira entre o setor público e o privado, traduzindo marcos regulatórios complexos em modelos financeiros executáveis.
O GRI Institute identificou, por meio de seus encontros com líderes de infraestrutura na América Latina, que a nova geração de estruturadores prioriza três variáveis: a previsibilidade regulatória, o acesso a financiamento em moeda local e a integração de critérios de sustentabilidade desde a fase de projeto. A Lei de Cidades Verdes na Colômbia e o Shock Desregulatório 2.0 no Peru são exemplos concretos de como os marcos normativos estão respondendo a essas prioridades.
Para os membros do GRI Institute que participam ativamente na estruturação de projetos na região, o mapeamento desses perfis e tendências constitui um insumo estratégico. O pipeline andino não se define apenas pelo volume de investimento previsto, mas pela qualidade das equipes que o estruturam e pelas condições macroeconômicas que o viabilizam.
Perspectiva regional: um ciclo que exige precisão
A convergência de reformas no Peru, restrições fiscais na Colômbia e maturidade concessionária no Chile configura um cenário onde a diferenciação competitiva recai sobre a capacidade de estruturação. Os 80 projetos da ProInversión, os 15 do MOP chileno e a lacuna de financiamento que a ANIF documenta na Colômbia delineiam um mercado ativo, porém seletivo.
Os profissionais e instituições que conseguirem integrar análise macroeconômica rigorosa, conhecimento regulatório atualizado e relações institucionais sólidas serão os que capturarão as oportunidades de maior escala. Na infraestrutura andina contemporânea, criar alicerces é, acima de tudo, um exercício de precisão financeira e adaptação regulatória.