
A nova geração de estruturadores redefine a engenharia financeira de concessões no Brasil
Profissionais como Pedro Muzzi, Alan Zelazo e José Carlos Cassaniga elevam a sofisticação da modelagem de capex, calibragem de TIR e arquitetura de garantias em um ciclo de R$ 300 bilhões.
Resumo Executivo
Principais Insights
- O Brasil projeta R$ 300 bilhões em investimentos em infraestrutura até 2026, exigindo estruturação financeira de alta precisão.
- A Lei nº 14.801/2024 (Debêntures de Infraestrutura) alterou a equação de custo de capital, transferindo benefícios fiscais aos emissores.
- O mercado migra de funding bancário para o mercado de capitais como protagonista no financiamento de longo prazo.
- A qualidade da modelagem de capex tornou-se o principal diferencial competitivo em leilões de concessão.
- Estruturadores técnicos são o fator determinante entre um projeto ser apenas intenção política ou um ativo financiável.
O Brasil vive um ciclo de infraestrutura sem precedentes recentes. O Ministério da Fazenda concedeu aval a R$ 270 bilhões em empréstimos solicitados por estados e municípios a bancos federais desde 2023, segundo dados da Agência Gov, com foco em infraestrutura e desenvolvimento regional. Os investimentos no setor devem atingir cerca de R$ 300 bilhões em 2026, conforme projeções da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Esse volume de capital exige uma camada de competência técnica que vai muito além da capacidade de originar mandatos ou captar recursos: exige estruturadores capazes de transformar premissas de engenharia em modelos financeiros que resistam ao escrutínio de credores, reguladores e investidores institucionais.
É nessa camada, frequentemente invisível nos holofotes do mercado, que uma nova geração de executivos está redefinindo a forma como o Brasil precifica e financia suas concessões. Nomes como Pedro Muzzi, no Goldman Sachs, Alan Zelazo, na Genco Energia, José Berenguer, no Banco XP, e José Carlos Cassaniga, na EPR, representam perfis distintos, mas convergentes em um ponto: a capacidade de calibrar a engenharia financeira que determina se um projeto será ou não financiável.
Quem são os estruturadores técnicos e por que eles se tornaram a variável competitiva das concessões?
O mercado brasileiro de infraestrutura consolidou, ao longo das últimas décadas, uma distinção clara entre três funções: o originador, que identifica oportunidades e articula relacionamentos; o dealmaker, que negocia termos e fecha transações; e o estruturador técnico, que modela o capex, define a alocação de riscos e constrói a arquitetura de garantias que sustenta a bankability de um projeto. Embora as duas primeiras funções sejam amplamente reconhecidas, a terceira permanece subvalorizada no debate público, apesar de ser, com frequência, o fator determinante entre um leilão bem-sucedido e um ativo que não atrai lances.
A sofisticação crescente dos editais de concessão, combinada com a migração do mercado para estruturas de project finance non-recourse e maior participação do mercado de capitais, elevou dramaticamente a importância dessa competência. Estruturar uma concessão rodoviária de 30 anos, por exemplo, exige modelar cenários de tráfego, calibrar a taxa interna de retorno (TIR) em função de premissas macroeconômicas voláteis, definir gatilhos de reequilíbrio contratual e desenhar tranches de dívida que sejam atrativas para diferentes classes de investidores, desde fundos de pensão até detentores de debêntures de infraestrutura.
A EPR, plataforma de concessões rodoviárias liderada por José Carlos Cassaniga, ilustra essa dinâmica com clareza. A empresa planeja investir cerca de R$ 53 bilhões nos próximos 30 anos e administra mais de 3.600 km de rodovias, segundo a Exame. Um portfólio dessa magnitude só se viabiliza quando a modelagem financeira é capaz de absorver a complexidade regulatória e traduzir obrigações de capex em fluxos de caixa previsíveis o suficiente para atrair capital de longo prazo. A engenharia financeira, nesse contexto, funciona como a infraestrutura da infraestrutura.
Pedro Muzzi, atuando a partir do Goldman Sachs, representa um perfil complementar: o estruturador que opera na interface entre o mercado de capitais global e as especificidades do ambiente regulatório brasileiro. Alan Zelazo, na Genco Energia, traz a perspectiva de quem estrutura a partir do lado do ativo, calibrando modelos que precisam convencer simultaneamente acionistas e credores. José Berenguer, à frente do Banco XP, posiciona a instituição como ponte entre o varejo de alta renda e o financiamento de projetos de infraestrutura, ampliando a base de investidores que acessam essa classe de ativos. Cada um desses executivos opera em um ponto diferente da cadeia, mas todos convergem na mesma disciplina: a tradução de risco em preço.
Como a Lei das Debêntures de Infraestrutura alterou a lógica de estruturação financeira?
A sanção da Lei nº 14.801/2024 representou uma inflexão estrutural no financiamento de infraestrutura no Brasil. Ao criar as debêntures de infraestrutura com benefícios fiscais direcionados aos emissores, e não apenas aos investidores como ocorria com as debêntures incentivadas da Lei nº 12.431/2011, o novo regime tributário permitiu que concessionárias e sociedades de propósito específico (SPEs) deduzam os juros pagos na apuração do lucro líquido. Essa mudança alterou a equação de custo de capital para os projetos e, consequentemente, redefiniu o trabalho dos estruturadores.
O Decreto nº 11.964/2024, que regulamentou os critérios para enquadramento de projetos prioritários, adicionou uma camada de governança ao processo. A combinação entre a lei e o decreto criou um ambiente em que a capacidade de estruturar uma emissão de debêntures de infraestrutura se tornou tão relevante quanto a capacidade de modelar o próprio projeto. O estruturador técnico agora precisa dominar simultaneamente a engenharia de fluxo de caixa do ativo e a arquitetura tributária do instrumento de captação.
Para investidores institucionais, como fundos de pensão e gestoras de recursos, essa mudança ampliou significativamente o universo de projetos elegíveis. O mercado de infraestrutura brasileiro está migrando de um modelo historicamente dependente de funding bancário para uma estrutura em que o mercado de capitais assume papel protagonista na composição do funding de longo prazo. Essa transição exige estruturadores que falem a linguagem de ambos os mundos: o rigor contratual das concessões e a dinâmica de precificação dos mercados de dívida.
Qual o impacto da modelagem de capex na competitividade dos leilões de concessão?
O ciclo de expansão das concessões rodoviárias federais pode alcançar cerca de R$ 400 bilhões em investimentos nos próximos anos, conforme estimativas da diretoria de infraestrutura do setor. Esse volume pressupõe leilões cada vez mais competitivos, nos quais a diferença entre o lance vencedor e o segundo colocado frequentemente se resolve na precisão da modelagem de capex.
A calibragem do capex em uma concessão de infraestrutura envolve decisões que vão muito além da estimativa de custo de obras. O estruturador precisa definir o cronograma de desembolsos, antecipar riscos de execução, incorporar cláusulas de reequilíbrio e projetar a curva de depreciação dos ativos ao longo de horizontes que podem ultrapassar três décadas. Cada premissa adotada na modelagem afeta diretamente a TIR oferecida no leilão e, consequentemente, a competitividade do lance.
Em um mercado onde o custo de capital é sensível a cada ponto-base de spread, a qualidade da modelagem técnica se tornou o principal diferencial competitivo entre concorrentes com acesso semelhante a funding. Dois consórcios com a mesma capacidade de captar dívida podem chegar a lances radicalmente diferentes se um deles contar com modelagem de capex mais sofisticada, capaz de identificar eficiências construtivas, otimizar a alocação temporal dos investimentos e reduzir os buffers de contingência sem comprometer a solidez do modelo.
Essa realidade explica o interesse crescente da comunidade de infraestrutura pelo tema. Encontros promovidos pelo GRI Institute, que reúnem líderes do setor para debater a fronteira entre modelagem técnica e viabilidade financeira, têm registrado participação expressiva de executivos responsáveis por estruturação. O tema capex e modelagem de concessões, recorrente nas agendas da comunidade GRI Institute, reflete a percepção do mercado de que a vantagem competitiva migrou da mesa de negociação para a planilha de modelagem.
Uma disciplina que define o próximo ciclo
O Brasil investe hoje em infraestrutura volumes que refletem tanto a demanda reprimida quanto a maturação institucional do setor. O Ministério da Fazenda avalizar R$ 270 bilhões em operações de crédito para entes subnacionais, os investimentos projetados de R$ 300 bilhões para 2026 pela Abdib, e o pipeline de R$ 53 bilhões da EPR compõem um cenário que exige estruturação financeira de alta precisão.
A nova geração de estruturadores, composta por profissionais como Pedro Muzzi, Alan Zelazo, José Berenguer e José Carlos Cassaniga, opera nessa fronteira. Eles representam uma competência que o mercado reconhece na prática, mas que o debate setorial ainda documenta de forma insuficiente. O GRI Institute acompanha essa evolução por meio de pesquisas, eventos e interações entre líderes que discutem, em formato reservado, os desafios reais da engenharia financeira de concessões.
O próximo ciclo de infraestrutura brasileiro será definido pela capacidade do país de atrair capital de longo prazo em escala. Essa capacidade depende, em última análise, da qualidade da estruturação. Os estruturadores técnicos são os profissionais que determinam se um projeto será apenas uma intenção política ou um ativo financiável. Reconhecer essa camada de competência é o primeiro passo para fortalecer o ecossistema que sustenta o desenvolvimento da infraestrutura nacional.