Radar de investimento: a nova lei de PPPs na América Latina e o pipeline que se reativa em 2025-2026

México, Colômbia e Peru redefinem seus marcos regulatórios para atrair capital privado à infraestrutura. Análise comparativa das reformas e suas implicações.

28 de fevereiro de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

México, Peru e Colômbia estão redefinindo seus marcos regulatórios de parcerias público-privadas para acelerar o investimento em infraestrutura. O Peru lidera com a Lei N.° 32441, o México propõe uma lei de investimentos mistos respaldada por 5,6 trilhões de pesos projetados, e a Colômbia avança em projetos pontuais apesar da cautela do ciclo eleitoral de 2026. A materialização do pipeline regional dependerá da qualidade da regulamentação secundária, da estabilidade institucional e da capacidade de fechar a lacuna histórica entre reformas normativas e execução real nos próximos 18 meses.

Principais Insights

  • O Peru promulgou a Lei N.° 32441 de PPPs, fortalecendo a ProInversión e eliminando entraves burocráticos, com o setor de construção projetando crescimento de 4,9% em 2025.
  • O México projeta investimento misto de até 5,6 trilhões de pesos (2026-2030), com nova lei que incorpora propostas não solicitadas preservando a reitoria estatal.
  • A Colômbia enfrenta incerteza investidora pelo ciclo eleitoral de 2026, embora projetos como o Metrô da 80 em Medellín avancem.
  • A lacuna entre promulgação legislativa e execução efetiva segue sendo o principal risco para os pipelines de infraestrutura na região.

O México projeta um investimento misto em infraestrutura de até 5,6 trilhões de pesos para o período 2026-2030, segundo o El Economista. O valor representa uma aposta sem precedentes recentes nos esquemas de parceria público-privada na maior economia hispanófona do mundo. Ao mesmo tempo, o Peru acaba de promulgar a Lei N.° 32441 de PPPs e Projetos em Ativos, enquanto a Colômbia enfrenta um ciclo eleitoral que condiciona o ritmo de seus investimentos em infraestrutura. O mapa regulatório das parcerias público-privadas na América Latina está sendo redesenhado com velocidade e complexidade.

Esta análise do GRI Institute examina, país por país, as reformas legislativas que marcarão o calendário de licitações e a estruturação de projetos nos próximos dois anos.

O que muda com as novas leis de PPPs no México e no Peru?

As reformas em andamento respondem a um diagnóstico compartilhado: os marcos regulatórios anteriores geravam gargalos burocráticos, desincentivavam a participação privada e alongavam os prazos de estruturação a ponto de inviabilizar projetos estratégicos.

Peru: a Lei N.° 32441 e o fortalecimento da ProInversión

O Peru tomou a dianteira no ciclo reformista com a promulgação da Lei N.° 32441, nova Lei de PPPs e Projetos em Ativos. A norma, já vigente, fortalece o papel estratégico da ProInversión como órgão reitor da promoção de investimento privado e busca eliminar entraves burocráticos que historicamente atrasaram a adjudicação de concessões.

O contexto macroeconômico acompanha a reforma. O setor de construção no Peru projeta um crescimento de 4,9% para 2025, embora o investimento estatal deva se expandir apenas 1,0% em 2026, segundo dados do BCR e do MEF compilados pela Revista Economía. Essa assimetria entre o dinamismo privado e a restrição fiscal reforça a lógica da nova lei: se o Estado não consegue expandir seus gastos de capital no ritmo necessário, o marco normativo deve facilitar que o setor privado ocupe esse espaço.

Um indicador relevante da solidez do ecossistema financeiro peruano é o desempenho do programa Reactiva Perú: 89% dos créditos concedidos, equivalentes a S/ 51 bilhões de um total de S/ 57 bilhões, já foram pagos, segundo a COFIDE. Essa taxa de recuperação sinaliza a capacidade do sistema financeiro local de absorver riscos e respaldar operações de longo prazo como as que demandam os projetos de infraestrutura sob PPPs.

A Lei N.° 32441 representa o instrumento regulatório mais importante para a infraestrutura peruana na presente década. Sua implementação efetiva determinará se o país conseguirá fechar lacunas críticas em transporte, energia e serviços digitais.

México: investimentos mistos e o programa rodoviário 2025-2030

No México, o Executivo anunciou em fevereiro de 2026 uma proposta de nova Lei de Investimentos Mistos, desenhada para harmonizar o marco legal e incorporar o modelo de contratos mistos e propostas não solicitadas em infraestrutura, garantindo a reitoria do Estado. A iniciativa busca canalizar parte dos 5,6 trilhões de pesos projetados em investimento misto para projetos que combinem capital público e privado sob regras claras.

Rafael Cervantes de la Teja, Diretor-Geral de Desenvolvimento Rodoviário da SICT, é uma figura central na articulação do novo Programa Nacional de Infraestrutura Rodoviária 2025-2030 sob esses esquemas mistos. A malha viária constitui o segmento com maior maturidade para a aplicação de contratos público-privados no México, e o programa rodoviário será o primeiro teste de fogo para o novo marco regulatório uma vez aprovado.

A proposta de lei de investimentos mistos no México abre a porta para propostas não solicitadas, um mecanismo que poderia acelerar significativamente o pipeline de projetos se a regulamentação secundária estabelecer critérios transparentes de avaliação.

José Luis Mogollón, Diretor de Desenvolvimento da Quivira, destacou a urgência de infraestrutura energética e de serviços para impulsionar o desenvolvimento regional, especialmente em zonas isoladas como Baja California Sur. Sua perspectiva ilustra uma demanda concreta do setor privado: as reformas regulatórias devem se traduzir em habilitação territorial efetiva, não apenas em ajustes normativos abstratos.

Como o ciclo eleitoral colombiano afeta o pipeline de infraestrutura?

A Colômbia apresenta um panorama distinto. Sem uma reforma legislativa de PPPs da magnitude das do México ou Peru em andamento, o país enfrenta um condicionante político que pesa sobre as decisões de investimento: o ciclo eleitoral de 2026.

Munir Jalil, Economista-Chefe para a Região Andina do BTG Pactual, alertou sobre a incerteza que esse ciclo gera no investimento em infraestrutura colombiana. Segundo projeções do Bancolombia, BTG Pactual e BNP Paribas, a economia colombiana cresceria entre 2% e 3,2% em 2026, impulsionada pelo consumo, mas com investimento ainda fraco e condicionado justamente pela incerteza política.

Na Colômbia, o crescimento econômico projetado de entre 2% e 3,2% para 2026 pode ficar aquém se o investimento em infraestrutura não se descolar do calendário político. Os projetos de transporte de massa e conectividade regional não podem esperar resoluções eleitorais.

Apesar desse contexto, projetos emblemáticos avançam. Tomás Elejalde, Gerente do Metrô de Medellín, lidera a execução do Metrô da 80 e trabalha em sua futura integração com o Tren del Río, duas iniciativas que demonstram que a capacidade institucional local pode sustentar a execução mesmo em períodos de incerteza macropolítica. Esses projetos de mobilidade urbana em Medellín se tornaram referências de gestão público-privada no continente.

Mapa comparativo: três países, três estratégias regulatórias

A análise comparada revela enfoques diferenciados, mas convergentes em seu objetivo de mobilizar capital privado.

O Peru optou pela via legislativa direta com a Lei N.° 32441, centralizando a promoção na ProInversión e priorizando a eliminação de barreiras administrativas. O crescimento de 4,9% do setor de construção em 2025 sugere que o mercado já antecipa os efeitos da reforma.

O México aposta em um modelo de investimentos mistos que preserva a reitoria estatal enquanto incorpora mecanismos de mercado como as propostas não solicitadas. Os 5,6 trilhões de pesos projetados para 2026-2030 constituem o maior compromisso fiscal-privado da região, embora a aprovação e regulamentação da lei proposta determine sua viabilidade operacional.

A Colômbia atravessa um período de espera ativa, onde a execução de projetos em andamento, como o Metrô da 80 em Medellín, convive com a cautela investidora derivada do ciclo eleitoral. A janela de oportunidade para uma nova geração de concessões se abrirá com maior clareza uma vez definido o panorama político de 2026.

Implicações para estruturadores e investidores

Para os atores do ecossistema de infraestrutura na América Latina, o momento atual exige um acompanhamento granular da implementação regulatória, não apenas dos anúncios legislativos. A distância entre promulgação e execução efetiva tem sido historicamente o ponto de maior atrito na região.

Os fóruns de alto nível do GRI Institute identificaram de maneira consistente essa lacuna de implementação como o principal risco para os pipelines de projetos. A interação direta entre reguladores, estruturadores e operadores, como a que se viabiliza nos encontros do clube, é determinante para traduzir reformas em projetos financiáveis.

As três reformas regulatórias analisadas compartilham uma premissa: a América Latina precisa mobilizar capital privado em maior escala e com maior velocidade. A diferença estará na qualidade da regulamentação secundária, na estabilidade institucional e na capacidade dos organismos promotores de gerar confiança no mercado.

O pipeline de infraestrutura na região se reativa com marcos normativos renovados, mas sua materialização dependerá de que as regras do jogo se mantenham estáveis para além dos ciclos políticos. Os próximos 18 meses serão definitivos.

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