Mulheres na infraestrutura brasileira: liderança feminina já redesenha a modelagem financeira e operacional das concessões

Com pipeline de até R$ 300 bilhões e pressão regulatória por diversidade, presença feminina avança da governança para a estruturação executiva de projetos complexos

2 de abril de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

O artigo analisa como a liderança feminina na infraestrutura brasileira está deixando de ser uma questão restrita à governança corporativa para influenciar diretamente a modelagem financeira, a gestão operacional e a percepção de risco das concessões. Duas peças regulatórias — o Anexo ASG da B3 e a Lei nº 15.177/2025 — elevaram a diversidade de gênero a exigência formal, num contexto em que 56% das empresas listadas sequer tinham mulheres na diretoria. Com um pipeline de até R$ 300 bilhões em concessões e PPPs, empresas como a Motiva (43% de mulheres) já demonstram avanço operacional. O debate agora migra da representatividade para a mensuração do impacto da diversidade na performance dos projetos.

Principais Insights

  • O pipeline de concessões e PPPs no Brasil alcançou R$ 280 bilhões em 2025, com projeção de R$ 300 bilhões em 2026.
  • O Anexo ASG da B3 e a Lei nº 15.177/2025 transformaram diversidade de gênero em exigência regulatória formal.
  • 56% das empresas listadas na B3 não tinham mulheres na diretoria estatutária antes das novas regras.
  • A Motiva já conta com 43% de mulheres em suas 12 concessionárias de rodovias.
  • Diversidade de gênero passou a influenciar a análise de bankability e precificação de risco dos projetos.
  • O mercado busca agora métricas concretas que correlacionem liderança feminina e performance das concessões.

O ciclo de expansão da infraestrutura brasileira atravessa um momento de dupla transformação. De um lado, o pipeline de concessões e parcerias público-privadas (PPPs) alcançou R$ 280 bilhões em 2025, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), com projeções de atingir R$ 300 bilhões em 2026. De outro, o arcabouço regulatório passou a exigir mudanças estruturais na composição das lideranças corporativas, com impacto direto sobre as concessionárias que disputam e operam esses ativos. A convergência entre volume recorde de investimentos e novas regras de diversidade cria um cenário em que a presença feminina em posições decisórias deixa de ser um tema restrito à governança corporativa e passa a influenciar a modelagem financeira, a gestão operacional e a percepção de risco dos projetos.

A liderança feminina na infraestrutura brasileira está migrando dos conselhos de administração para a linha de frente da estruturação de concessões, o que altera a dinâmica competitiva do setor.

Por que a diversidade de gênero se tornou variável estrutural nas concessões brasileiras?

Duas peças regulatórias recentes elevaram a diversidade de gênero de compromisso voluntário a exigência formal. O Anexo ASG da B3, em vigor desde 2025 no modelo "pratique ou explique", determina que empresas listadas tenham pelo menos uma mulher e um membro de comunidade sub-representada no conselho de administração ou diretoria estatutária até 2026. A Lei nº 15.177/2025, sancionada em julho de 2025, vai além e estabelece reserva mínima gradual de 30% de vagas para mulheres como membros titulares do conselho de administração em empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias.

O ponto de partida revela a dimensão do desafio. Antes da implementação das novas regras, 56% das companhias listadas na B3 não tinham mulheres na diretoria estatutária e 37% não possuíam mulheres no conselho de administração, conforme levantamento publicado pela Folha de S.Paulo. Em um setor como o de infraestrutura, historicamente marcado por baixa representatividade feminina nos cargos executivos, a adequação regulatória impõe uma reestruturação que vai muito além do preenchimento de cadeiras em conselhos.

A pressão regulatória por diversidade não é mais uma questão de compliance isolado, mas uma variável que investidores institucionais incorporam à análise de bankability dos projetos de concessão.

Para as concessionárias que competem por ativos no pipeline bilionário de rodovias, saneamento, energia e mobilidade, a composição da liderança passa a integrar o conjunto de critérios avaliados por fundos de investimento, multilaterais e agências de rating na análise de crédito e na precificação de risco. O Anexo ASG da B3 e a Lei nº 15.177/2025 criam, na prática, um novo patamar de exigência para as empresas que pretendem captar recursos no mercado de capitais ou acessar linhas de financiamento com condições diferenciadas.

Como a presença feminina avança da governança para a operação das concessões?

O caso da Motiva, maior empresa de infraestrutura de mobilidade do Brasil, oferece uma referência concreta. Nas suas 12 concessionárias de rodovias, as mulheres já representam 43% do quadro de funcionários, com atuação que se estende do administrativo à engenharia e operações, segundo reportagem do Jornal Bom Dia Piedade. Esse dado é significativo porque demonstra que a participação feminina no setor não se limita a funções de suporte ou governança, mas alcança a gestão técnica e operacional dos ativos.

Essa capilaridade operacional tem implicações diretas para a modelagem de projetos. Concessionárias com maior diversidade nas equipes que estruturam propostas de concessão, elaboram planos de investimento e gerenciam a execução dos contratos tendem a incorporar perspectivas mais amplas na identificação de riscos, na definição de indicadores de desempenho e na relação com comunidades afetadas pelos empreendimentos. Embora ainda não existam métricas consolidadas que isolem o impacto financeiro direto da liderança feminina sobre o retorno das concessões brasileiras, a literatura internacional e a prática de mercado indicam que equipes diversas produzem análises de risco mais robustas e decisões operacionais mais equilibradas.

O avanço da presença feminina para a estruturação executiva e operacional de concessões representa uma mudança qualitativa no perfil de liderança do setor de infraestrutura.

O reconhecimento institucional acompanha essa tendência. O Prêmio P3C 2026, referência no ecossistema de PPPs e concessões no Brasil, incluiu a categoria "Mulheres na Infraestrutura", conforme divulgado pelo Estadão. A premiação sinaliza que o mercado já identifica a contribuição feminina como diferencial na estruturação de projetos, e não apenas como meta de representatividade.

Qual o papel do ecossistema institucional na aceleração dessa transformação?

A articulação entre regulação, mercado e plataformas de conhecimento é determinante para que a presença feminina em posições decisórias se traduza em resultados mensuráveis para o setor. Nesse contexto, o GRI Institute tem desempenhado papel relevante ao mapear, conectar e dar visibilidade às lideranças femininas que atuam na estruturação de projetos de infraestrutura no Brasil.

O evento GRI Women Shaping Infrastructure Brazil 2026, realizado pelo GRI Institute, lançou uma publicação que reconhece 50 mulheres líderes e 5 talentos em ascensão que atuam na estruturação e decisão de projetos de infraestrutura no país. A iniciativa vai além do reconhecimento simbólico: ao identificar e conectar profissionais que ocupam posições estratégicas em concessionárias, fundos de investimento, órgãos reguladores e consultorias especializadas, o GRI Institute fortalece uma rede de alto nível que influencia diretamente a modelagem, o financiamento e a operação de concessões.

O alto engajamento da comunidade com o tema, evidenciado pelo tráfego orgânico expressivo nas páginas do evento, confirma que a liderança feminina na infraestrutura é uma pauta central para os membros do GRI Institute. A demanda por análises mais profundas sobre o impacto da diversidade nos resultados financeiros e operacionais das concessões indica que o mercado já superou a fase declaratória e busca agora evidências concretas de performance.

Da representatividade à performance: o próximo estágio

O setor de infraestrutura brasileiro enfrenta, nos próximos anos, uma combinação de desafios que exige lideranças preparadas para operar em ambientes de alta complexidade regulatória, técnica e financeira. O pipeline de R$ 280 a R$ 300 bilhões em concessões e PPPs, estimado respectivamente pela CBIC e por projeções para 2026, demandará equipes capazes de estruturar projetos que atendam simultaneamente a critérios de rentabilidade, sustentabilidade e governança.

As novas exigências do Anexo ASG da B3 e da Lei nº 15.177/2025 criam um piso regulatório, mas o diferencial competitivo estará nas empresas que integrarem a diversidade de gênero como componente estratégico da gestão, e não apenas como resposta a obrigações normativas. A experiência da Motiva, com 43% de mulheres em suas concessionárias de rodovias, sugere que as empresas que avançaram mais cedo nessa direção já colhem benefícios em termos de atração de talentos, cultura organizacional e robustez operacional.

Para os investidores e operadores que participam do ecossistema de infraestrutura mapeado pelo GRI Institute, a questão central deixou de ser se a liderança feminina importa para o desempenho das concessões. O debate agora se concentra em como medir esse impacto com precisão, como acelerar a progressão de carreira em funções técnicas e executivas, e como transformar diversidade em vantagem competitiva sustentável.

O GRI Institute segue acompanhando essa evolução por meio de eventos, publicações e pesquisas que conectam os principais tomadores de decisão do setor. A próxima fronteira analítica exige que o mercado produza e compartilhe dados granulares sobre a correlação entre composição de liderança e indicadores de performance das concessões, criando uma base empírica que sustente políticas corporativas e regulatórias mais eficazes.

A infraestrutura brasileira tem diante de si uma oportunidade rara: escalar investimentos em velocidade recorde enquanto reconstrói o perfil de liderança do setor. As empresas que compreenderem essa dupla agenda como um movimento integrado, e não como agendas paralelas, estarão melhor posicionadas para capturar os ativos mais relevantes do ciclo.

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