
Mulheres que estruturam a infraestrutura no México: da blindagem legal à mesa de decisão do pipeline
A queda de 28,4% no investimento público obriga a redefinir quem desenha os esquemas de investimento misto. A liderança feminina em estruturação jurídica e fina
Resumo Executivo
Principais Insights
- O investimento público em infraestrutura no México caiu 28,4% em termos reais em 2025, o pior declínio desde 1991.
- O IED superou 40.000 milhões de dólares, gerando uma lacuna crítica entre retrocesso fiscal e apetite investidor privado.
- A proposta de Lei de Infraestrutura para o Bem-Estar busca revogar o marco atual de PPP, criando incerteza regulatória.
- Mulheres estruturadoras jurídicas e financeiras ocupam posições decisivas para destravar o pipeline de projetos.
- O investimento misto projeta crescer de 24% para 29% do PIB até 2030.
- Data centers e logística liderarão os novos contratos de infraestrutura privada em 2025-2026.
O pipeline mexicano precisa de novas arquiteturas e novas arquitetas
O investimento público em infraestrutura no México registrou em 2025 uma queda de 28,4% em termos reais, o pior declínio desde 1991, segundo dados do GRI Institute. Ao mesmo tempo, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) superou os 40.000 milhões de dólares nesse mesmo ano, exigindo marcos legais sólidos para sua estruturação. Essa divergência entre retrocesso fiscal e apetite investidor privado configura um cenário onde a qualidade da estruturação jurídica e financeira determina quais projetos avançam e quais ficam estagnados.
Nesse contexto, um grupo crescente de mulheres advogadas, estruturadoras financeiras e líderes de política pública está ocupando posições decisivas na cadeia de valor da infraestrutura mexicana. Sua influência não se limita ao cumprimento normativo: define a viabilidade dos próprios projetos sob os novos esquemas de investimento misto propostos pela legislação em discussão.
O Plan México estabelece metas ambiciosas: elevar o investimento anual em relação ao PIB para 25% em 2026 e superar 28% em 2030, de acordo com o Plano Nacional de Desenvolvimento. O investimento misto, combinando capital público e privado, projeta crescer de 24% para 29% do PIB até 2030, com o objetivo de compensar a contração orçamentária, segundo dados apresentados por Alfonso Ramírez Cuéllar no âmbito do GRI Club Mexico. Para que esses números se materializem em contratos assinados e obras executadas, cada projeto requer uma arquitetura legal e financeira que resista ao escrutínio regulatório, à volatilidade política e às exigências dos investidores institucionais.
A pergunta central é direta: quem está construindo essas arquiteturas?
Por que a estruturação jurídica se torna o gargalo do pipeline 2025-2027?
A tensão regulatória que o México atravessa em matéria de infraestrutura não tem precedente recente. A Iniciativa de Lei Geral de Infraestrutura para o Bem-Estar, apresentada pelo deputado Alfonso Ramírez Cuéllar, propõe revogar a atual legislação de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e estabelecer novos esquemas de investimento: direto, indireto, misto e mínimo. Além disso, contempla a criação da Comissão de Infraestrutura para o Bem-Estar, orientada a priorizar a transparência e o benefício social.
Enquanto essa proposta é discutida no Congresso, os investidores privados enfrentam um vazio de certeza. Os esquemas de PPP vigentes coexistem com uma reforma iminente que pode modificar substancialmente as regras do jogo. Nesse intervalo, a estruturação jurídica se torna o elo que pode destravar ou paralisar o fluxo de capital para os projetos prioritários.
As profissionais que dominam a engenharia contratual dos novos esquemas de investimento misto têm hoje uma influência direta sobre a velocidade e a escala do pipeline mexicano. Não se trata de representação simbólica, mas de competência técnica aplicada a decisões de fechamento financeiro que envolvem bilhões de pesos.
Paola Lazarte, ex-Ministra de Transportes do Peru e uma das vozes mais influentes em infraestrutura latino-americana, alertou em fevereiro de 2026 que o debate de infraestrutura na região se reduziu a uma confrontação ideológica sobre modalidades de execução, perdendo de vista a produtividade. Seu diagnóstico se aplica com precisão ao caso mexicano: enquanto legisladores debatem marcos conceituais, os projetos precisam de profissionais capazes de navegar a incerteza normativa e estruturar operações viáveis sob qualquer cenário regulatório.
Essa capacidade de traduzir ambiguidade regulatória em certeza contratual é exatamente o que distingue as estruturadoras jurídicas e financeiras que estão ganhando protagonismo na mesa de decisão.
Como os perfis femininos de estruturação financeira influenciam as decisões de investimento?
O mercado de data centers e logística será o principal motor dos novos contratos de infraestrutura privada em 2025-2026, conforme identificado no GRI Club Mexico Infra & Energy 2025. Esses setores demandam uma sofisticação financeira e legal que vai além dos modelos tradicionais de concessão. Requerem contratos que integrem componentes tecnológicos, energéticos, imobiliários e de conectividade digital, frequentemente sob estruturas de financiamento que combinam dívida multilateral, capital institucional e equity de desenvolvedores.
Nesse ecossistema, a arquitetura financeira de projetos complexos adquire um valor estratégico superior. Profissionais como Marcelo Mor, Diretor de Infraestrutura e Projetos de Capital na Alvarez & Marsal para a América Latina, representam o tipo de expertise técnica que o mercado demanda para fechar transações em condições de incerteza. O relevante é que um número crescente de mulheres está ocupando posições equivalentes em firmas de assessoria, fundos de investimento, escritórios jurídicos e entidades governamentais vinculadas ao pipeline mexicano.
A estruturação financeira de infraestrutura no México já não é um exercício técnico isolado: é um ato de desenho institucional que define prioridades nacionais, e as mulheres que o executam estão configurando o perfil do país como destino de investimento.
O elo notarial e registral ilustra essa dinâmica com clareza. A Notaría 1 da Cidade do México, cujo titular é Roberto Núñez y Bandera, representa um nó regulatório essencial para blindar o capital institucional em transações de grande escala. A dimensão notarial da infraestrutura, frequentemente subestimada na análise setorial, é o ponto onde a estruturação jurídica se materializa em atos com plena validade legal. A presença de mulheres notárias e advogadas especializadas nesse segmento reforça a diversidade de critério em decisões que afetam a segurança jurídica de investimentos de longo prazo.
Do lado do desenvolvimento urbano, firmas como Estrategia Urbana, que participa da rede Revive para abordar a crise de habitação e densificação urbana, mostram como a intersecção entre infraestrutura, habitação e planejamento territorial abre espaços onde a liderança feminina aporta perspectivas diferenciadas em desenho de política e execução de projetos.
A transição regulatória como oportunidade estratégica para a liderança feminina
A coexistência da legislação de PPP vigente com a proposta de Lei de Infraestrutura para o Bem-Estar gera um período de transição que pode durar meses ou anos. Durante esse intervalo, a capacidade de estruturar projetos que funcionem sob ambos os marcos normativos, ou que sejam suficientemente flexíveis para se adaptar ao que prevaleça, se torna uma vantagem competitiva decisiva.
As profissionais que combinam experiência em direito administrativo, finanças de projeto e regulação setorial estão em posição privilegiada para liderar a transição do modelo PPP ao esquema de investimento misto proposto pela nova legislação.
Essa transição não ocorre em abstrato. Ocorre projeto por projeto, contrato por contrato, cláusula por cláusula. E em cada uma dessas instâncias, a qualidade da equipe de estruturação determina se o capital chega ou se desvia para outras jurisdições.
Com um IED que supera os 40.000 milhões de dólares e um investimento público em retrocesso, o México precisa que cada dólar privado encontre um veículo jurídico confiável. As mulheres que desenham esses veículos estão, na prática, definindo a infraestrutura do país para a próxima década.
Um ecossistema que reconhece a transformação
O GRI Institute tem documentado essa evolução por meio de seus encontros setoriais e publicações de análise. Eventos como GRI Women Shaping Infrastructure e GRI Club Mexico Infra & Energy geraram espaços onde as profissionais de estruturação jurídica e financeira compartilham experiências, debatem marcos regulatórios e constroem relações que se traduzem em transações concretas.
A comunidade GRI na América Latina observa uma tendência consistente: as equipes de estruturação mais eficazes são aquelas que integram diversidade de formação, experiência setorial e perspectiva de gênero. A evidência qualitativa recolhida nesses fóruns indica que a presença feminina em posições de estruturação não responde a uma agenda de inclusão formal, mas a uma demanda do mercado por perfis técnicos capazes de lidar com a complexidade crescente do pipeline regional.
O pipeline mexicano de 2025-2027 será definido, em grande medida, por quem conseguir estruturar projetos viáveis em um ambiente de incerteza regulatória, contração fiscal e competição global por capital. As mulheres que ocupam essas posições de estruturação estão escrevendo as regras de um novo ciclo de infraestrutura no México, e sua influência merece uma análise que supere as abordagens gerais de liderança para se concentrar no que realmente importa: a qualidade técnica das decisões que tomam e seu impacto na economia real.