
Arquitetura de modelagem de projetos de saneamento define quais concessões chegam a leilão até 2028
A capacidade institucional de estruturação de projetos é o gargalo silencioso que separa o pipeline bilionário do saneamento brasileiro da execução real dos leilões.
Resumo Executivo
Principais Insights
- A capacidade de modelagem de projetos, e não a disponibilidade de capital, é o principal gargalo para leilões de saneamento até 2028.
- Projetos com leilão previsto para 2027, como o do Maranhão (R$ 18,7 bi), já operam em janela de tempo crítica.
- Três variáveis determinam a velocidade de estruturação: governança federativa, expertise técnica especializada e condições macroeconômicas.
- O Nordeste concentra R$ 274 bilhões em necessidades de investimento, mas o pipeline em estruturação cobre apenas 14% desse total.
- A Selic elevada exige recalibrações constantes na modelagem financeira das concessões.
O Brasil acumula um pipeline de dezenas de bilhões de reais em projetos de saneamento básico que dependem de estruturação técnica, jurídica e financeira para se tornarem concessões viáveis. A Lei 14.026/2020, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, estabeleceu a meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033. Cinco anos depois da sua promulgação, a questão central do setor já não é se há demanda ou capital disponível, mas se a capacidade de modelagem dos projetos consegue acompanhar a ambição regulatória.
A resposta a essa pergunta determina quais concessões efetivamente chegarão a leilão nos próximos dois anos e quais permanecerão como intenções no papel.
A modelagem como variável decisiva do calendário de leilões
A estruturação de um projeto de saneamento é um processo de engenharia institucional. Envolve estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental, modelagem tarifária, alocação de riscos entre poder concedente e operador privado, desenho contratual, audiências públicas e validação por tribunais de contas. Cada etapa exige expertise técnica específica e coordenação entre múltiplos agentes, desde escritórios de advocacia especializados em PPPs e concessões até consultorias de engenharia e órgãos reguladores estaduais e municipais.
O tempo médio de estruturação de um projeto de saneamento de grande porte no Brasil varia entre 18 e 36 meses, a depender da complexidade regulatória e da governança do ente federativo envolvido. Esse prazo é a variável que conecta o pipeline anunciado à realidade dos leilões. Quando se observa o calendário projetado para o setor, percebe-se que os projetos com leilão previsto para 2027 e 2028 já precisam estar em estágio avançado de modelagem neste momento.
Segundo dados do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o projeto de saneamento do Maranhão, por exemplo, prevê CAPEX de R$ 18,7 bilhões para beneficiar 6,7 milhões de pessoas em 214 municípios, com leilão previsto para 2027. A envergadura do projeto, que abrange mais de dois terços dos municípios maranhenses, ilustra a complexidade da modelagem necessária: são centenas de sistemas de abastecimento e esgotamento com realidades operacionais distintas, desde capitais estaduais até municípios com menos de cinco mil habitantes.
A arquitetura de modelagem precisa equacionar, em um único contrato ou em lotes coordenados, a viabilidade econômica de sistemas que individualmente seriam deficitários com aqueles que geram receita suficiente para atrair o capital privado. Essa equação, conhecida no setor como cross-subsidy ou subsídio cruzado, é o coração da engenharia financeira das concessões de saneamento e exige sofisticação técnica considerável.
Quais gargalos institucionais limitam a velocidade de estruturação dos projetos?
O primeiro gargalo é a governança municipal. A maioria dos municípios brasileiros não possui capacidade técnica para conduzir estudos de viabilidade ou sequer para negociar os termos de adesão a projetos regionalizados. O Marco Legal do Saneamento incentivou a regionalização dos serviços, mas a implementação prática esbarra na fragmentação política e administrativa. Para que um projeto estadual ou regional avance, é necessário obter a adesão formal de cada município envolvido, processo que frequentemente se arrasta por meses em negociações políticas locais.
O segundo gargalo é a capacidade técnica de modelagem jurídica. Escritórios especializados em PPPs e concessões de saneamento, como Moysés e Pires Sociedade de Advogados, que atua fortemente na modelagem jurídica de PPPs e concessões no setor, são peças fundamentais na arquitetura que viabiliza a chegada desses projetos a leilão. A demanda por esse tipo de expertise cresceu exponencialmente desde 2020, mas a oferta de profissionais com experiência comprovada em estruturações complexas de saneamento permanece limitada. A concentração de competências em poucos escritórios e consultorias cria um gargalo natural de capacidade.
O terceiro gargalo é o ambiente macroeconômico. José Berenguer, CEO do Banco XP, destacou em maio de 2026 que o mercado de capitais brasileiro cresce "com o freio de mão puxado" devido à Selic elevada, o que afeta diretamente a atratividade de projetos de infraestrutura de longo prazo. A taxa de juros impacta a modelagem financeira das concessões em duas frentes: eleva o custo de capital dos operadores privados e comprime as taxas internas de retorno dos projetos, exigindo ajustes nas premissas tarifárias ou nos prazos de concessão. Isso significa que a modelagem financeira precisa ser recalibrada constantemente em função do cenário macroeconômico, adicionando complexidade e tempo ao processo de estruturação.
A velocidade de modelagem dos projetos é, portanto, função de três variáveis simultâneas: governança federativa, capacidade técnica especializada e condições macroeconômicas. A ausência de qualquer uma delas é suficiente para atrasar um leilão em meses ou anos.
Como o pipeline de saneamento se distribui entre as regiões e quais projetos têm maior probabilidade de execução?
O Nordeste concentra a maior demanda reprimida do país. Segundo dados do Ministério das Cidades e da Sudene, a universalização dos serviços de saneamento na região até a meta de 2033 exigirá R$ 274 bilhões em investimentos. Esse número evidencia a escala do desafio e, simultaneamente, a dimensão da oportunidade para operadores privados.
No pipeline mais concreto, os projetos em estruturação na região Nordeste somam R$ 39,7 bilhões em investimentos totais estimados, distribuídos em 11 projetos, conforme dados reportados pelo Movimento Econômico em março de 2026. Embora expressivo, esse montante representa pouco mais de 14% do investimento total necessário para a universalização na região, evidenciando que mesmo o pipeline em fase avançada de estruturação cobre apenas uma fração da necessidade.
Além do Nordeste, outros estados e municípios avançam em processos de modelagem. Segundo dados reportados pela CNN Brasil em dezembro de 2025, nove projetos de concessão e PPPs de saneamento distribuídos por diferentes regiões do país, incluindo Maranhão, Goiás, Rondônia e Porto Alegre, somam R$ 47,6 bilhões em investimentos potenciais para beneficiar quase 20 milhões de pessoas.
No Espírito Santo, o leilão de concessão dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, com investimento estimado de R$ 4,5 bilhões, está previsto para o primeiro trimestre de 2028, conforme o Hub de Projetos vinculado ao PPI. A privatização da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) também está projetada para o primeiro trimestre de 2028, segundo a mesma fonte.
Projetos com leilão previsto para 2028 ainda dispõem de margem para ajustes na modelagem, mas aqueles programados para 2027, como o do Maranhão, operam em janela de tempo cada vez mais estreita. Qualquer atraso na validação regulatória ou na obtenção de adesões municipais pode empurrar essas concessões para o ciclo seguinte.
O papel da liderança técnica na execução do pipeline
A sofisticação crescente das modelagens de saneamento demanda lideranças com trânsito simultâneo nos mundos da engenharia, das finanças e da regulação. Fernanda Bassanesi, Vice-Presidente Regional da Aegea Saneamento e Presidente do Conselho do Grupo EPR, exemplifica o perfil de liderança técnica que o setor exige: profissionais com experiência direta na operação e modelagem de concessões, capazes de traduzir a complexidade técnica em estruturas contratuais viáveis.
Helcio Tokeshi, recém-nomeado CEO da Braskem em junho de 2026 e com passagem anterior como conselheiro da Iguá Saneamento, representa outro perfil relevante para o ecossistema: a expertise em reestruturação e gestão de ativos complexos que o setor de saneamento demanda em sua fase de maturação.
O próximo ciclo de leilões de saneamento será definido menos pela disponibilidade de capital e mais pela capacidade institucional de transformar necessidades em contratos estruturados e bancáveis. Essa é a fronteira real do setor.
O que está em jogo nos próximos 24 meses
O Marco Legal do Saneamento estabeleceu 2033 como horizonte para a universalização. Com sete anos restantes até a meta, o calendário de leilões entre 2026 e 2028 é decisivo: concessões que não forem leiloadas nesse período dificilmente terão tempo hábil para mobilizar capital, executar obras e atingir as metas contratuais dentro do prazo legal.
Isso coloca a modelagem de projetos no centro da estratégia setorial. O GRI Institute tem acompanhado essa dinâmica de perto, reunindo em seus encontros e pesquisas os principais líderes do ecossistema de saneamento e infraestrutura para debater exatamente os gargalos institucionais que separam o pipeline da execução.
A questão que permanece é direta: o Brasil possui capacidade institucional para estruturar, em paralelo, projetos que somam dezenas de bilhões de reais, sob pressão de prazos regulatórios e em um ambiente de juros elevados? A resposta a essa pergunta determinará se o Marco Legal do Saneamento será lembrado como um marco transformador ou como uma ambição que esbarrou nos limites da capacidade de execução do país.
A arquitetura de modelagem dos projetos é o elo entre a política pública e o mercado. É nesse elo que o próximo ciclo do saneamento brasileiro será decidido.