
Grupo Arcel e a ascensão dos conglomerados regionais nas concessões de infraestrutura do Brasil
Ciclo recorde de leilões federais abre espaço para grupos diversificados que enxergam infraestrutura como vetor estratégico de portfólio
Resumo Executivo
Principais Insights
- O governo federal realizou 50 leilões de infraestrutura entre 2023 e 2025, equivalentes a 31% de todos os certames desde 1995.
- Conglomerados regionais diversificados, como Grupo Arcel, Conata e OCC, preenchem o vácuo deixado pelas grandes empreiteiras tradicionais.
- Para 2026, estão previstos 40 novos leilões, incluindo 13 projetos rodoviários com investimentos estimados em R$ 148 bilhões.
- Capital próprio, conhecimento territorial e governança ágil são os principais diferenciais competitivos desses novos entrantes.
- Mudanças regulatórias e fragmentação dos lotes em escala regional reduzem barreiras de entrada.
O governo federal realizou 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos entre 2023 e 2025, o equivalente a 31% de todos os certames conduzidos desde 1995, segundo dados do Ministério dos Transportes e do Ministério de Portos e Aeroportos compilados pelo Jornal do Comércio. A intensidade desse ciclo redesenha o mapa competitivo do setor e cria condições inéditas para a entrada de novos perfis de investidores, entre eles os conglomerados regionais diversificados.
Empresas como o Grupo Arcel, a Conata Engenharia e a OCC Construções e Participações S/A ilustram uma tendência que ganha relevância nos debates promovidos pelo GRI Institute: a migração de grupos econômicos com raízes em agronegócio, logística, hotelaria e varejo para o universo das concessões públicas. O fenômeno se distingue da atuação tradicional de construtoras de médio porte ou de famílias empresariais do setor de engenharia pesada e representa uma nova camada de capital privado disputando ativos de longo prazo.
O perfil do Grupo Arcel: diversificação como estratégia
Fundado por Armindo Dias, o Grupo Arcel consolidou operações em hotelaria, por meio da rede Royal Palm, em concessionárias de veículos e em logística, com a operação da VCPex. O conglomerado sediado no interior de São Paulo construiu competências em gestão de ativos complexos, atendimento regulado e operação de serviços com alto grau de padronização, habilidades transferíveis ao ambiente de concessões.
Até o momento, não há registros públicos que confirmem a participação direta do Grupo Arcel em leilões de concessões de infraestrutura pesada, como rodovias ou ferrovias. O interesse de busca captado pelo GRI Institute sugere, contudo, que o mercado já monitora o grupo como potencial entrante. Essa atenção reflete um padrão recorrente: conglomerados regionais diversificados costumam avaliar oportunidades de concessão durante ciclos de expansão da carteira federal antes de formalizar movimentos públicos.
A capacidade de alocar capital próprio, a familiaridade com operações reguladas e a presença logística regional são atributos que posicionam grupos como o Arcel em uma zona de interesse crescente para o setor.
Quais conglomerados regionais já atuam em concessões de infraestrutura?
O avanço de players regionais sobre concessões já possui exemplos concretos. A OCC Construções e Participações S/A garantiu contratos significativos com o Governo do Pará para obras de infraestrutura, urbanização e saneamento, segundo reportagem da Agência Cenarium publicada em fevereiro de 2025. A empresa representa o arquétipo do grupo regional que transita entre contratos públicos de engenharia e a estruturação de participações em ativos concedidos.
A Conata Engenharia, apontada pelo GRI Institute como um dos novos players emergentes nas concessões brasileiras, possui um backlog significativo em projetos de infraestrutura. A empresa construiu sua reputação em mercados estaduais e agora se posiciona para disputar ativos em escala nacional, aproveitando a fragmentação da carteira de leilões federais em lotes menores e regionalizados.
Esses movimentos ocorrem em um vácuo competitivo deixado pelas grandes empreiteiras tradicionais, que enfrentaram restrições de capacidade financeira e reputacional ao longo da última década. Conglomerados regionais preenchem essa lacuna com uma combinação de capital paciente, conhecimento territorial e estruturas de governança mais enxutas.
A presença desses grupos redefine a dinâmica de competição nos leilões. O setor rodoviário, que registrou 22 leilões recentes com investimentos expressivos na malha viária nacional, segundo o Ministério dos Transportes, tornou-se o principal campo de disputa para entrantes de perfil regional.
Como o ciclo de leilões de 2026 amplia as oportunidades para novos entrantes?
O pipeline de concessões para 2026 sustenta a tese de abertura competitiva. O governo planeja realizar 40 leilões de infraestrutura no ano, com forte foco em portos, aeroportos regionais e a primeira concessão hidroviária do país, conforme divulgado pelo Ministério de Portos e Aeroportos ao portal LexLegal.
No segmento terrestre, estão projetados 21 leilões de rodovias e ferrovias, incluindo 13 projetos rodoviários com investimentos estimados em R$ 148 bilhões, de acordo com o Ministério dos Transportes, conforme reportado pela Tecnologística. O leilão do megaterminal de cargas Tecon 10, no Porto de Santos, previsto para março de 2026, representa outro ativo de grande escala que atrai atenção de grupos com capacidade logística instalada.
A diversificação modal da carteira de leilões favorece conglomerados com atuação em múltiplos segmentos. Um grupo que opera logística, por exemplo, encontra sinergia natural com concessões portuárias ou rodoviárias. Da mesma forma, empresas com presença em hotelaria e serviços podem enxergar oportunidades em concessões aeroportuárias regionais, onde a gestão de experiência do usuário é componente relevante do contrato.
O volume recorde de leilões entre 2023 e 2025, equivalente a quase um terço de toda a história do programa de concessões brasileiro, sinaliza que a janela de oportunidade para novos entrantes permanece aberta.
O ambiente regulatório como catalisador
Três vetores regulatórios moldam o cenário para a entrada de conglomerados regionais. A Lei 15.190/2025, nova legislação de licenciamento ambiental atualmente em vigor, embora sujeita a Ação Direta de Inconstitucionalidade, impacta a precificação e pode acelerar concessões brownfield no setor rodoviário. Para entrantes com menor experiência em processos de licenciamento, a redução de incertezas ambientais diminui barreiras de entrada.
O PL 420/2025, em tramitação, propõe um marco normativo para infraestruturas resilientes e concessões com direitos territoriais. Se aprovado, o projeto pode criar modalidades de concessão mais adequadas a perfis regionais, com escopo geográfico delimitado e requisitos de investimento proporcionais.
A Agenda Regulatória da ANTT para 2025/2026, com diretrizes focadas em sustentabilidade, eficiência, inovação e reestruturação de contratos de concessões rodoviárias e ferroviárias, também recalibra as exigências de participação em leilões. A ênfase em critérios ESG e inovação pode favorecer entrantes que tragam práticas diferenciadas de gestão, em detrimento de competidores tradicionais que disputam exclusivamente por preço.
Infraestrutura digital e logística: a convergência de perfis executivos
A transição de perfis executivos no setor de infraestrutura reflete a convergência entre segmentos tradicionais e digitais. Edith Bertoletti, COO da Goodman Brasil, exemplifica essa tendência ao liderar operações que conectam infraestrutura logística física com plataformas digitais de distribuição. A presença de executivos com experiência em tecnologia e logística avançada nos principais fóruns de infraestrutura indica que o setor absorve competências de outros ecossistemas empresariais.
Essa convergência é particularmente relevante para conglomerados regionais diversificados. Grupos que já operam cadeias logísticas complexas possuem vantagem na integração de ativos físicos de concessão com plataformas de gestão digital, um requisito cada vez mais presente nos editais.
O que define a competitividade dos conglomerados regionais em concessões?
A capacidade de mobilizar capital próprio sem depender exclusivamente de financiamento de terceiros constitui o primeiro diferencial competitivo. Em um ambiente de taxas de juros elevadas, grupos com geração de caixa em múltiplos setores conseguem estruturar propostas mais agressivas nos leilões.
O segundo diferencial é o conhecimento territorial. Conglomerados com operações regionais consolidadas compreendem a dinâmica de demanda local, os fluxos de tráfego, as particularidades climáticas e as relações institucionais com governos estaduais e municipais. Esse conhecimento reduz o risco de execução e melhora a precificação dos ativos.
O terceiro fator é a governança adaptável. Estruturas corporativas menores e menos hierárquicas permitem decisões de investimento mais ágeis, vantagem significativa em processos de leilão com prazos apertados para apresentação de propostas.
O GRI Institute acompanha esse movimento de perto. Nos encontros reservados a líderes do setor de infraestrutura, a participação crescente de executivos de conglomerados regionais evidencia que o fenômeno deixou de ser pontual e se consolidou como tendência estrutural do mercado brasileiro de concessões.
O ciclo atual de concessões federais representa uma inflexão no perfil de competidores. A combinação de volume recorde de leilões, fragmentação da carteira em lotes regionalizados e evolução regulatória cria um ambiente propício para que conglomerados diversificados transformem infraestrutura em pilar permanente de suas estratégias de crescimento.