Gestão de ativos de infraestrutura no Brasil enfrenta teste de governança em meio a investimentos recordes

Crise em gestora capixaba expõe fragilidades na governança de fundos regionais enquanto setor de infraestrutura atinge patamar histórico de aportes privados

14 de agosto de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

O setor de infraestrutura brasileiro vive um paradoxo: enquanto investimentos atingem recordes históricos impulsionados pelo capital privado e por avanços regulatórios — como o Marco do Saneamento e as debêntures de infraestrutura —, crises de governança em gestoras regionais expõem fragilidades nos controles internos de intermediários financeiros. Com quase 3 mil projetos mapeados pelo Plano CNT e demanda trilionária, o Brasil se posiciona como um dos mercados emergentes mais ativos em concessões e project finance. Contudo, a sustentabilidade desse ciclo depende da integração entre sofisticação regulatória e excelência fiduciária nas gestoras de ativos.

Principais Insights

  • Investimentos em infraestrutura no Brasil atingiram recorde histórico em 2025, liderados pelo capital privado, com projeção de novo patamar em 2026.
  • Crises de governança em gestoras regionais geram efeito cascata, elevando exigências de compliance e due diligence em todo o setor.
  • Debêntures de infraestrutura (Lei nº 14.801/2024) ampliam o universo de investidores ao transferir o benefício fiscal para o emissor.
  • Quase 3 mil projetos mapeados pelo Plano CNT demandam investimentos trilionários.
  • Otimismo setorial caiu, sinalizando maior seletividade na alocação de capital.

O setor de gestão de ativos de infraestrutura no Brasil atravessa um momento de contradições. De um lado, os investimentos em infraestrutura atingiram recorde histórico no último ano, impulsionados majoritariamente pelo capital privado, segundo o 15º Barômetro da Infraestrutura Brasileira, elaborado pela ABDIB em parceria com a EY-Parthenon. De outro, episódios recentes de crise financeira em gestoras regionais reacendem o debate sobre governança, transparência e diligência na alocação de recursos em projetos de longo prazo.

O cenário expõe um paradoxo relevante para investidores institucionais e gestores de portfólio: a abundância de capital não elimina, por si só, o risco de governança. A solidez dos marcos regulatórios e a sofisticação dos instrumentos de captação precisam caminhar lado a lado com controles internos robustos nas casas que intermediam esses fluxos.

A infraestrutura brasileira em patamar histórico de investimentos

Os dados mais recentes do 15º Barômetro da Infraestrutura Brasileira (ABDIB/EY-Parthenon) confirmam que os investimentos totais em infraestrutura no Brasil atingiram um recorde histórico em 2025, com o capital privado respondendo pela maior fatia dos aportes. A Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) projeta que esses investimentos devem continuar crescendo e alcançar um novo patamar nominal em 2026.

Esse crescimento reflete a maturação de um ambiente regulatório favorável à participação privada. A Lei nº 14.026/2020, o novo Marco Legal do Saneamento Básico, estabeleceu metas ambiciosas de universalização: 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033. Já a Lei nº 14.801/2024 criou as debêntures de infraestrutura, transferindo o benefício fiscal para a empresa emissora por meio da dedução de juros na base de cálculo do IRPJ e da CSLL, com o objetivo de atrair investidores institucionais para projetos prioritários. Esse instrumento, recentemente regulamentado pelo Decreto nº 11.964/2024 e pela Portaria MCID nº 984/2026, amplia o leque de captação para concessionárias e SPEs de infraestrutura.

A escala das necessidades é igualmente expressiva. Segundo o Plano CNT de Transporte e Logística 2026, publicado pela Confederação Nacional do Transporte, são necessários investimentos trilionários para viabilizar quase 3 mil projetos focados em integração nacional e mobilidade urbana. Esse volume reforça a tese de que o Brasil continuará sendo um dos mercados mais ativos do mundo em concessões, PPPs e project finance nos próximos anos.

Qual é o impacto de crises de governança no ecossistema de gestão de ativos?

O recorde de investimentos convive com sinais de alerta. A percepção favorável de gestores e especialistas para novos investimentos em infraestrutura nos próximos seis meses sofreu uma queda expressiva, conforme aponta o mesmo 15º Barômetro da Infraestrutura Brasileira (ABDIB/EY-Parthenon), referente a 2026. A retração do otimismo setorial decorre de fatores macroeconômicos, mas também de episódios que corroem a confiança do mercado na integridade dos veículos de investimento.

Crises de governança em gestoras de recursos geram um efeito cascata que transcende a instituição envolvida. Quando inconsistências financeiras vêm à tona em uma casa de gestão relevante, investidores institucionais tendem a reavaliar seus mandatos em todo o segmento, elevando exigências de compliance e due diligence. Esse fenômeno é particularmente sensível no setor de infraestrutura, onde os prazos de maturação dos ativos são longos e a confiança na governança do gestor é um pré-requisito para a alocação de capital.

A governança corporativa em gestoras de ativos de infraestrutura precisa ser tratada com o mesmo rigor aplicado às concessionárias e SPEs que operam os projetos. A assimetria entre a sofisticação regulatória dos ativos e a fragilidade dos controles internos de alguns intermediários financeiros representa uma vulnerabilidade sistêmica que o mercado brasileiro ainda precisa endereçar de forma mais estruturada.

Como o mercado diferencia gestores preparados para o ciclo atual?

O ecossistema brasileiro de gestão de ativos de infraestrutura conta com uma diversidade crescente de players. Gestoras independentes, braços de investimento de bancos globais e plataformas especializadas em project finance disputam mandatos em setores como energia renovável, saneamento, rodovias, ferrovias e infraestrutura digital.

A diferenciação entre essas casas passa por critérios cada vez mais rigorosos. Investidores institucionais avaliam, além do track record de retornos, a arquitetura de governança do gestor, a independência dos comitês de investimento, a segregação entre patrimônio próprio e recursos de terceiros e a qualidade dos processos de valuation e monitoramento de portfólio.

Profissionais com experiência em estruturação de operações complexas, M&A e mercado de capitais de infraestrutura ocupam posições estratégicas nesse ecossistema. Alan Zelazo, CEO da Genco Energia, e Pedro Muzzi, que atua na liderança de operações de infraestrutura no Goldman Sachs, exemplificam o perfil de executivos que conduzem transações relevantes no setor. Sua atuação em segmentos como geração de energia e fusões e aquisições de ativos de infraestrutura reflete a crescente sofisticação do mercado brasileiro.

O ciclo atual exige gestores que combinem capacidade de originação de ativos com disciplina fiduciária. A expansão das debêntures de infraestrutura, viabilizada pela Lei nº 14.801/2024, amplia as oportunidades de captação, mas também eleva o escrutínio regulatório e de mercado sobre a qualidade das emissões e a solidez das garantias.

Debêntures de infraestrutura e o novo padrão de captação

A regulamentação das debêntures de infraestrutura representa um marco para o financiamento de projetos no Brasil. Ao transferir o benefício fiscal para o emissor, o instrumento amplia o universo de investidores potenciais, incluindo fundos de pensão, seguradoras e gestoras institucionais que antes tinham restrições para alocar em debêntures incentivadas tradicionais.

Esse novo padrão de captação reforça a importância de gestoras com capacidade técnica para estruturar, distribuir e monitorar emissões com lastro em ativos reais de infraestrutura. A cadeia de valor do financiamento de projetos se torna mais complexa, exigindo profissionais com domínio simultâneo de engenharia financeira, regulação setorial e análise de risco de construção e operação.

O pipeline de projetos sustenta a demanda. Com quase 3 mil projetos mapeados pelo Plano CNT de Transporte e Logística 2026, envolvendo investimentos trilionários em integração nacional e mobilidade urbana, o Brasil oferece um volume de oportunidades que poucos mercados emergentes conseguem igualar.

O papel da governança na sustentabilidade do ciclo de investimentos

A convergência entre volume recorde de investimentos, novos instrumentos de captação e um marco regulatório robusto cria condições favoráveis para a consolidação do setor de infraestrutura como classe de ativo prioritária no Brasil. A sustentabilidade desse ciclo, contudo, depende diretamente da qualidade da governança em toda a cadeia, dos reguladores às gestoras, das concessionárias aos investidores finais.

Episódios de crise financeira em gestoras servem como lembrete de que a sofisticação dos instrumentos financeiros não substitui a disciplina nos controles internos. O fortalecimento dos padrões de governança nas casas de gestão é condição necessária para que o capital institucional continue fluindo para a infraestrutura brasileira em escala compatível com as necessidades do país.

Líderes do setor de infraestrutura que participam de fóruns especializados, como os encontros promovidos pelo GRI Institute, têm reiterado que a agenda de governança em gestoras de ativos é tão relevante quanto a agenda de governança nas concessões em si. A integração entre essas duas dimensões será determinante para a credibilidade do mercado brasileiro perante investidores globais.

O Brasil reúne os fundamentos para liderar o ciclo de infraestrutura entre economias emergentes. O diferencial competitivo estará nas mãos dos gestores que combinarem escala de capital com excelência fiduciária, demonstrando que crescimento e integridade são objetivos complementares.

Perspectivas para o segundo semestre de 2026

A queda no otimismo setorial registrada pelo Barômetro da Infraestrutura Brasileira não significa retração de investimentos, mas sinaliza maior seletividade na alocação de capital. Gestores e investidores institucionais devem priorizar ativos com governança comprovada, fluxos de caixa previsíveis e exposição a setores com demanda regulatória, como saneamento e energia renovável.

O amadurecimento do mercado brasileiro de infraestrutura passa pela capacidade de absorver crises pontuais sem comprometer a trajetória estrutural de crescimento. A próxima geração de gestão de ativos será definida pela qualidade dos processos, pela transparência na prestação de contas e pela capacidade de atrair capital de longo prazo em um ambiente de escrutínio crescente.

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