
Estruturação de concessões de saneamento: o verdadeiro gargalo do próximo ciclo de leilões no Brasil
Com até R$ 62 bilhões em projetos aguardando modelagem, a capacidade institucional de estruturação define o calendário real da universalização
Resumo Executivo
Principais Insights
- O Brasil tem nove projetos de concessão de saneamento em estruturação, com investimentos estimados entre R$ 47,6 bi e R$ 62 bi, alcançando até 35 milhões de pessoas.
- O principal gargalo não é capital ou vontade política, mas a capacidade técnica e institucional de modelagem dos projetos.
- A Selic elevada pressiona o mercado de capitais, exigindo projetos com modelagem impecável para atrair investidores.
- Faltam métricas públicas sobre tempo e desempenho do pipeline de estruturação.
- Padronização de processos e ampliação de equipes técnicas são ações prioritárias para destravar o pipeline.
O ritmo da universalização depende de quem modela os projetos
O Brasil acumula um pipeline de nove novos projetos de concessão e PPP de saneamento em fase de estruturação, com investimentos estimados entre R$ 47,6 bilhões e R$ 62 bilhões, segundo dados do Instituto Trata Brasil e de fontes públicas federais. São iniciativas com potencial para alcançar até 35 milhões de pessoas em 1.460 municípios, em um horizonte de leilões que começa a se desenhar a partir de 2026. Os números impressionam pela escala, mas revelam, ao mesmo tempo, um desafio que transcende a disponibilidade de capital: a capacidade técnica e operacional de estruturação dessas concessões.
A Lei nº 14.026/2020, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, estabeleceu metas ambiciosas de universalização: 99% da população com acesso a água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. O prazo é apertado. E a distância entre a meta legal e a realidade operacional do país passa, necessariamente, pela velocidade com que cada projeto é diagnosticado, modelado, regulado e levado a leilão. Estruturar uma concessão de saneamento exige muito mais do que montar uma planilha financeira. Envolve diagnósticos operacionais complexos, definição de matriz de riscos entre poder concedente e operador privado, modelagem tarifária, desenho regulatório específico para cada bacia e, frequentemente, articulação entre dezenas de municípios com realidades distintas.
A velocidade desse processo de modelagem dita o ritmo real dos leilões. Cada mês adicional na fila de estruturação representa atraso direto na execução das obras e, consequentemente, no avanço das metas de universalização. Essa é a equação central que o setor precisa enfrentar com franqueza.
Qual é a real capacidade institucional para estruturar o pipeline de saneamento?
Quando se discute infraestrutura de saneamento no Brasil, o debate público tende a se concentrar em duas frentes: a origem dos recursos financeiros e a vontade política dos entes federativos. Ambas são relevantes, mas insuficientes para explicar o andamento concreto do pipeline. O gargalo mais determinante está na fase anterior ao leilão, na etapa em que o projeto ganha forma técnica, jurídica e econômica.
Estruturas públicas de modelagem, sejam bancos de desenvolvimento, agências reguladoras ou consultorias contratadas pelo poder concedente, operam com equipes técnicas limitadas diante de uma demanda crescente. A complexidade dos projetos de saneamento agrava essa limitação. Diferentemente de uma concessão rodoviária, onde os parâmetros de demanda e receita são relativamente previsíveis, o saneamento envolve variáveis como perdas hídricas, inadimplência tarifária, expansão de rede em áreas de ocupação irregular e interface com planos diretores municipais.
O resultado é um backlog institucional. Projetos se acumulam em filas de análise, aguardando diagnósticos de viabilidade e definições regulatórias antes de poderem ser oferecidos ao mercado. Não existem dados públicos consolidados sobre o tempo médio de estruturação de cada projeto, o que por si só evidencia a falta de transparência e métricas de desempenho nessa etapa crítica. O setor opera, em grande medida, sem indicadores claros sobre a produtividade do pipeline de modelagem.
Essa lacuna foi debatida em junho de 2026, quando o GRI Institute reuniu líderes do setor em São Paulo para um encontro dedicado aos desafios do próximo ciclo de estruturação de saneamento. O evento colocou em evidência uma percepção compartilhada entre executivos e investidores: a qualidade da modelagem dos projetos é tão determinante quanto a disponibilidade de capital para viabilizar as concessões. Um projeto mal estruturado gera insegurança jurídica, eleva o custo de capital e afasta operadores qualificados.
O mercado de capitais está pronto para absorver esse pipeline?
A resposta depende de duas condições simultâneas: que os projetos cheguem ao mercado com qualidade técnica suficiente e que o ambiente macroeconômico permita a mobilização de capital de longo prazo a custos razoáveis.
José Berenguer, CEO do Banco XP, afirmou recentemente que o mercado de capitais brasileiro cresce "com o freio de mão puxado" devido à Selic elevada, conforme reportado pelo NeoFeed em maio de 2026. A metáfora é precisa. Debêntures de infraestrutura, CRIs e fundos de investimento em participações (FIPs) voltados a saneamento competem diretamente com a renda fixa soberana. Quando o custo de oportunidade do capital privado é elevado, apenas projetos com retorno ajustado ao risco muito bem calibrado conseguem atrair investidores institucionais.
Isso cria uma dinâmica circular. Projetos que chegam ao mercado com modelagem incompleta ou com alocação de riscos desequilibrada tendem a receber propostas mais conservadoras, com deságios menores e exigências de garantias mais elevadas. A consequência é a redução do valor gerado para o poder concedente e, em última instância, para a população atendida. A qualidade da estruturação, portanto, afeta diretamente a capacidade de absorção do mercado de capitais.
A movimentação de lideranças relevantes do setor de infraestrutura ilustra a maturidade e a sofisticação crescente desse mercado. Helcio Tokeshi, executivo com trajetória marcante em infraestrutura e saneamento, incluindo sua atuação como sócio da IG4 Capital, controladora da Iguá Saneamento, assumiu em junho de 2026 a posição de CEO da Braskem, segundo o Valor Econômico. Esse tipo de transição sinaliza que o capital humano especializado em concessões e operações reguladas circula cada vez mais entre setores de alta complexidade, o que reforça a tese de que o Brasil possui expertise executiva para absorver grandes projetos, desde que a estruturação prévia esteja à altura.
O que precisa mudar para que o pipeline de R$ 62 bilhões avance de fato?
Três frentes de ação são prioritárias.
A primeira é a ampliação da capacidade de estruturação institucional. O Brasil precisa de mais equipes técnicas qualificadas dedicadas à modelagem de projetos de saneamento, seja em bancos públicos de desenvolvimento, em agências reguladoras ou por meio de consultorias especializadas contratadas pelos estados e municípios. A concentração da modelagem em poucas instituições cria um funil que limita a vazão do pipeline.
A segunda frente é a padronização de processos e documentos. Cada concessão de saneamento no Brasil é, em certa medida, um projeto único, dada a heterogeneidade dos sistemas operados. Contudo, é possível avançar na padronização de matrizes de risco, minutas contratuais e metodologias de cálculo tarifário. A padronização reduz o tempo de análise, diminui a assimetria de informação entre poder concedente e operador privado e facilita a comparação entre projetos pelo mercado de capitais.
A terceira frente é a criação de métricas públicas de desempenho para o pipeline de estruturação. Quantos projetos estão em fila? Qual o tempo médio entre o início dos estudos e a publicação do edital? Quais são os principais fatores de atraso? Sem essas informações, o setor opera às cegas, e a sociedade não tem como cobrar eficiência das instituições responsáveis.
A universalização do saneamento até 2033 é uma meta legal, mas sua execução depende de uma cadeia institucional que vai muito além da vontade política. A capacidade de estruturação de projetos é o elo mais frágil dessa cadeia e, ao mesmo tempo, o que mais pode ser fortalecido com decisões de gestão e governança.
O pipeline existe. O capital, ainda que sob pressão da Selic, pode ser mobilizado. O que falta é acelerar a engrenagem que transforma demanda social em projetos licitáveis.
Onde o debate avança
O GRI Institute tem promovido discussões de alto nível sobre esse tema, reunindo CEOs de operadoras, investidores institucionais, reguladores e formuladores de política pública. O encontro realizado em junho de 2026 em São Paulo, dedicado especificamente aos desafios do próximo ciclo de estruturação de saneamento, evidenciou que a comunidade de líderes do setor reconhece o gargalo institucional como prioridade estratégica. A continuidade desse diálogo, ancorada em dados e análises independentes, é condição necessária para que o Brasil transforme metas legais em infraestrutura real.