GRI InstituteDiálogo competitivo deve ampliar participação de players internacionais em licitações
Estado de São Paulo caminha para ser o primeiro ente público brasileiro a adotar o modelo utilizado pela União Europeia e OCDE; entenda
11 de maio de 2026Infraestrutura
Escrito por:Henrique Cisman
Principais Insights
- O diálogo competitivo pode destravar a participação de operadores internacionais que visam o mercado brasileiro. A ausência de interação estruturada com o poder concedente e o regime de menor preço sem diferenciação técnica são apontados como barreiras concretas à entrada de players globais.
- O ciclo de vida total do projeto tende a ser equivalente ou mais curto que o da concorrência tradicional, apesar de o processo licitatório se estender em aproximadamente 12 meses adicionais.
O Estado de São Paulo caminha para se tornar o primeiro ente público brasileiro a adotar o diálogo competitivo em projetos complexos de infraestrutura metroferroviária, sinalizando uma inflexão institucional que pode redefinir a forma como o país atrai capital e expertise internacional para grandes concessões.
O projeto-piloto escolhido - o Trem Intercidades (TIC) São Paulo-Sorocaba, com investimentos na casa das dezenas de bilhões de reais - não é apenas um teste de modalidade licitatória, mas um compromisso com a sofisticação do processo de contratação pública como vetor de competitividade.
A mesa-redonda realizada pelo GRI Institute em parceria com a VINCI Concessions na Câmara de Comércio França-Brasil, no último dia 29, evidencia que o Brasil precisa de uma modalidade que permita ao poder concedente dialogar com o mercado antes de definir a solução técnica final, sem comprometer a isonomia competitiva.
O diálogo competitivo, previsto na Nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021), mas ainda sem aplicação prática relevante no país, oferece exatamente esse espaço. Não se trata de flexibilizar o rigor da contratação pública, mas de reconhecer que, em projetos de altíssima complexidade, a administração não detém todas as respostas técnicas antes de ouvir quem efetivamente vai projetar e executar.
A primeira fase consiste em uma pré-seleção robusta de consórcios, com critérios de qualificação técnica e financeira que filtram, desde o início, apenas participantes com capacidade real de execução. Essa etapa é decisiva: ao elevar a barreira de entrada, o Estado reduz o risco de seleção adversa, isto é, a presença de licitantes sem condições efetivas de entregar o projeto, que competem apenas por preço e depois transferem o risco de volta ao poder público por meio de renegociações.
A segunda fase é a etapa dialógica propriamente dita, com duração estimada de seis a oito meses. Nela, cada consórcio pré-selecionado desenvolve individualmente seu projeto de engenharia, em interação estruturada e confidencial com o poder concedente. O Estado apresenta seus requisitos funcionais e de desempenho; os licitantes propõem soluções técnicas, identificam riscos e sugerem alocações. Cada diálogo é bilateral, sigiloso e documentado - não há compartilhamento de informações entre concorrentes.
A terceira fase é competitiva e objetiva: os consórcios apresentam suas propostas finais com base no modelo econômico-financeiro definido pelo Estado, e a adjudicação ocorre pelo critério de menor preço. A diferença fundamental em relação à concorrência tradicional é que, nesse ponto, o preço reflete um projeto de engenharia real, desenvolvido pelo próprio licitante, e não uma estimativa genérica sobre um projeto básico elaborado pelo poder público.
A solução encontrada pelo Estado de São Paulo é engenhosa: a B3, com sua infraestrutura de governança, compliance e custódia de informações sensíveis, foi designada como guardiã do processo: as reuniões dialógicas serão gravadas em suas instalações, e os data rooms serão hospedados em ambiente controlado. Cada interação será rastreável e auditável.
Esse arranjo não elimina o risco de contestação judicial, mas cria uma camada de credibilidade institucional que pode ser decisiva para a aceitação do processo pelo Tribunal de Contas e pelo Poder Judiciário. A Procuradoria Geral do Estado de São Paulo já sinalizou abertura para o modelo e iniciou diálogo com os órgãos de controle, reconhecendo que a ausência de maturidade prática não equivale a impedimento jurídico.
A razão é estratégica. Em um regime de menor preço puro, o licitante internacional compete em desvantagem com operadores locais que conhecem as dinâmicas de renegociação contratual, os ciclos políticos e as margens de manobra regulatória. O diálogo competitivo nivela o campo ao valorizar a capacidade técnica, a experiência em projetos similares e a qualidade da solução de engenharia - atributos nos quais operadores globais tendem a ser altamente competitivos.
Para o poder concedente, a consequência prática é ampliar o universo de competidores qualificados, o que significa obter mais opções de soluções técnicas e, potencialmente, melhores preços.
A análise de ciclo de vida do projeto, contudo, inverte essa percepção. Ao exigir que cada licitante desenvolva seu projeto de engenharia durante a fase dialógica, o modelo antecipa para antes da assinatura contratual um trabalho que, na concorrência tradicional, só ocorre após a adjudicação, frequentemente com atrasos, revisões e disputas que consomem anos.
A experiência internacional sugere que projetos contratados via diálogo competitivo apresentam menor incidência de aditivos, menor taxa de litígios e prazos de execução mais previsíveis. Assim, o tempo adicional na licitação não é um custo, mas um investimento em maturidade técnica e previsibilidade contratual.
O Brasil enfrenta um pipeline de projetos que exige soluções técnicas sofisticadas, financiamento de longo prazo e operadores com experiência comprovada. A modalidade de contratação é uma variável determinante na qualidade do ativo que será entregue à sociedade e na sustentabilidade econômica da concessão ao longo de décadas.
São Paulo está, deliberadamente, testando uma hipótese: a de que o Brasil pode competir pelos melhores operadores e pelas melhores soluções do mundo, desde que ofereça um processo de contratação à altura da complexidade dos seus projetos. Os próximos meses dirão se essa hipótese se sustenta na prática - mas o fato de ela estar sendo testada, com esse grau de sofisticação institucional, já representa uma mudança de patamar.
O projeto-piloto escolhido - o Trem Intercidades (TIC) São Paulo-Sorocaba, com investimentos na casa das dezenas de bilhões de reais - não é apenas um teste de modalidade licitatória, mas um compromisso com a sofisticação do processo de contratação pública como vetor de competitividade.
Menor preço, sozinho, já não basta
A lógica do menor preço como critério dominante nas licitações de infraestrutura produziu, ao longo de décadas, projetos adjudicados a valores agressivos que, na execução, acumulam aditivos contratuais, disputas arbitrais e atrasos que corroem qualquer economia inicial. Em setores de alta complexidade técnica, como o metroferroviário, onde a integração entre sistemas de sinalização, material rodante, obra civil e operação exige coordenação de engenharia desde a fase de concepção, esse modelo revelou limitações estruturais.A mesa-redonda realizada pelo GRI Institute em parceria com a VINCI Concessions na Câmara de Comércio França-Brasil, no último dia 29, evidencia que o Brasil precisa de uma modalidade que permita ao poder concedente dialogar com o mercado antes de definir a solução técnica final, sem comprometer a isonomia competitiva.
O diálogo competitivo, previsto na Nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021), mas ainda sem aplicação prática relevante no país, oferece exatamente esse espaço. Não se trata de flexibilizar o rigor da contratação pública, mas de reconhecer que, em projetos de altíssima complexidade, a administração não detém todas as respostas técnicas antes de ouvir quem efetivamente vai projetar e executar.
Como funciona o processo
O modelo desenhado para o TIC São Paulo-Sorocaba estrutura o diálogo competitivo em três fases distintas, cada uma com função estratégica clara.A primeira fase consiste em uma pré-seleção robusta de consórcios, com critérios de qualificação técnica e financeira que filtram, desde o início, apenas participantes com capacidade real de execução. Essa etapa é decisiva: ao elevar a barreira de entrada, o Estado reduz o risco de seleção adversa, isto é, a presença de licitantes sem condições efetivas de entregar o projeto, que competem apenas por preço e depois transferem o risco de volta ao poder público por meio de renegociações.
A segunda fase é a etapa dialógica propriamente dita, com duração estimada de seis a oito meses. Nela, cada consórcio pré-selecionado desenvolve individualmente seu projeto de engenharia, em interação estruturada e confidencial com o poder concedente. O Estado apresenta seus requisitos funcionais e de desempenho; os licitantes propõem soluções técnicas, identificam riscos e sugerem alocações. Cada diálogo é bilateral, sigiloso e documentado - não há compartilhamento de informações entre concorrentes.
A terceira fase é competitiva e objetiva: os consórcios apresentam suas propostas finais com base no modelo econômico-financeiro definido pelo Estado, e a adjudicação ocorre pelo critério de menor preço. A diferença fundamental em relação à concorrência tradicional é que, nesse ponto, o preço reflete um projeto de engenharia real, desenvolvido pelo próprio licitante, e não uma estimativa genérica sobre um projeto básico elaborado pelo poder público.
O papel da B3
A gestão da confidencialidade é, reconhecidamente, o cerne do diálogo competitivo em qualquer jurisdição. No Brasil, onde a cultura de transparência pública é historicamente associada à publicidade irrestrita dos atos administrativos, o desafio é ainda mais agudo.A solução encontrada pelo Estado de São Paulo é engenhosa: a B3, com sua infraestrutura de governança, compliance e custódia de informações sensíveis, foi designada como guardiã do processo: as reuniões dialógicas serão gravadas em suas instalações, e os data rooms serão hospedados em ambiente controlado. Cada interação será rastreável e auditável.
Esse arranjo não elimina o risco de contestação judicial, mas cria uma camada de credibilidade institucional que pode ser decisiva para a aceitação do processo pelo Tribunal de Contas e pelo Poder Judiciário. A Procuradoria Geral do Estado de São Paulo já sinalizou abertura para o modelo e iniciou diálogo com os órgãos de controle, reconhecendo que a ausência de maturidade prática não equivale a impedimento jurídico.
O que o mercado internacional enxerga
O diálogo competitivo é a modalidade padrão para projetos de infraestrutura complexa no Canadá, na Europa, na Austrália e no Oriente Médio. Empresas com décadas de experiência em concessões globais operam confortavelmente dentro dessa lógica e, inversamente, enfrentam dificuldades estruturais para competir em regimes onde o menor preço sobre projeto básico é o único critério.A razão é estratégica. Em um regime de menor preço puro, o licitante internacional compete em desvantagem com operadores locais que conhecem as dinâmicas de renegociação contratual, os ciclos políticos e as margens de manobra regulatória. O diálogo competitivo nivela o campo ao valorizar a capacidade técnica, a experiência em projetos similares e a qualidade da solução de engenharia - atributos nos quais operadores globais tendem a ser altamente competitivos.
Para o poder concedente, a consequência prática é ampliar o universo de competidores qualificados, o que significa obter mais opções de soluções técnicas e, potencialmente, melhores preços.
Mais lento para licitar, mais rápido para entregar
Uma das objeções mais frequentes ao diálogo competitivo é o alongamento do processo licitatório. No caso do TIC São Paulo-Sorocaba, a estimativa é de aproximadamente 12 meses adicionais em relação à concorrência tradicional. Em um país onde a pressão por celeridade na contratação pública é constante, esse dado pode parecer, à primeira vista, um obstáculo político.A análise de ciclo de vida do projeto, contudo, inverte essa percepção. Ao exigir que cada licitante desenvolva seu projeto de engenharia durante a fase dialógica, o modelo antecipa para antes da assinatura contratual um trabalho que, na concorrência tradicional, só ocorre após a adjudicação, frequentemente com atrasos, revisões e disputas que consomem anos.
A experiência internacional sugere que projetos contratados via diálogo competitivo apresentam menor incidência de aditivos, menor taxa de litígios e prazos de execução mais previsíveis. Assim, o tempo adicional na licitação não é um custo, mas um investimento em maturidade técnica e previsibilidade contratual.
O que está em jogo além do TIC
O Trem Intercidades São Paulo-Sorocaba é o projeto-piloto, mas a ambição institucional é claramente mais ampla. Se o modelo for bem-sucedido tanto na condução do processo quanto na validação pelos órgãos de controle, o diálogo competitivo pode se tornar referência para outros projetos de infraestrutura complexa no Estado e, eventualmente, no país.O Brasil enfrenta um pipeline de projetos que exige soluções técnicas sofisticadas, financiamento de longo prazo e operadores com experiência comprovada. A modalidade de contratação é uma variável determinante na qualidade do ativo que será entregue à sociedade e na sustentabilidade econômica da concessão ao longo de décadas.
São Paulo está, deliberadamente, testando uma hipótese: a de que o Brasil pode competir pelos melhores operadores e pelas melhores soluções do mundo, desde que ofereça um processo de contratação à altura da complexidade dos seus projetos. Os próximos meses dirão se essa hipótese se sustenta na prática - mas o fato de ela estar sendo testada, com esse grau de sofisticação institucional, já representa uma mudança de patamar.