Data centers no Brasil: o mapa dos projetos, players e a infraestrutura crítica que define a corrida por capacidade digital

País deve saltar de 826 MW para 1.746 MW até o fim de 2026 e será o primeiro da América Latina a ultrapassar 1 GW de capacidade instalada.

3 de agosto de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

O Brasil caminha para mais que dobrar sua capacidade instalada de data centers até o fim de 2026, saltando de 826 MW para 1.746 MW, impulsionado pela expansão da inteligência artificial, pela matriz energética majoritariamente renovável e pelo interesse de investidores globais como Brookfield, DigitalBridge e KKR. O país concentra 48% da capacidade operacional e 71% da capacidade em construção na América Latina. Contudo, a materialização do pipeline de US$ 20 bilhões depende de desafios críticos: a absorção da demanda energética pela rede elétrica, a aprovação do regime tributário Redata e a agilidade no licenciamento ambiental de mega-empreendimentos.

Principais Insights

  • O Brasil deve saltar de 826 MW para 1.746 MW em capacidade de data centers até o fim de 2026, sendo o primeiro da América Latina a ultrapassar 1 GW.
  • A demanda projetada atinge 13.321 MW em 2036, um crescimento de mais de 15 vezes em relação a 2025.
  • Pedidos de conexão à rede elétrica por data centers somam mais de 13,4 GW, superando setores como indústria e mineração.
  • A definição do Redata e o licenciamento ambiental são gargalos regulatórios decisivos para a conversão do pipeline em capacidade efetiva.
  • Mega-projetos como AI City (5 GW) e Rio AI City (3,2 GW) sinalizam apostas estruturais de longo prazo.

De 826 MW para 1.746 MW: o salto que redefine a infraestrutura digital brasileira

O Brasil se prepara para mais que dobrar sua capacidade instalada de data centers em pouco mais de um ano. Segundo dados do Ministério de Minas e Energia (MME), divulgados via BNamericas em julho de 2025, a capacidade projetada do país deve saltar de 826 MW em 2025 para 1.746 MW até o final de 2026. O dado coloca o Brasil como o primeiro mercado da América Latina a ultrapassar a marca de 1 GW de capacidade instalada de data centers, consolidando sua posição como hub digital dominante na região.

Esse crescimento acelerado não é um fenômeno isolado. Ele reflete a convergência de três vetores estruturais: a expansão global da inteligência artificial, que exige capacidade computacional massiva; a matriz elétrica brasileira, composta por 80% a 85% de fontes renováveis; e o posicionamento estratégico de operadores e investidores globais que identificaram no país a combinação rara de escala, energia limpa e demanda reprimida.

O GRI Institute acompanha essa transformação de perto, com eventos dedicados ao tema, incluindo o GRI Data Center 2026, agendado para 15 de setembro em São Paulo, e o Brazil GRI 2026, marcado para 28 e 29 de outubro.

Qual é a dimensão real do pipeline de data centers no Brasil?

Os números revelam uma escala que vai muito além dos projetos individuais. De acordo com a Associação Brasileira de Data Center (ABDC), conforme reportado pela Folha de S.Paulo em dezembro de 2025, novos projetos de data centers no Brasil devem adicionar 2.000 MW à capacidade atual, com investimentos estimados em cerca de US$ 20 bilhões. Trata-se de um volume de capital que rivaliza com grandes programas de concessão de infraestrutura tradicionais no país.

A projeção de longo prazo é ainda mais expressiva. O MME estima que a demanda instalada de data centers no Brasil atingirá 9.959 MW em 2030 e 13.321 MW em 2036. O crescimento de mais de 15 vezes entre 2025 e 2036 configura uma das maiores curvas de expansão de infraestrutura digital já registradas em um mercado emergente.

O Brasil concentra cerca de 48% da capacidade instalada em operação na América Latina e 71% de toda a capacidade atualmente em construção, segundo o JLL Latin America Data Center Report de março de 2026. Esses percentuais demonstram que o país já exerce uma centralidade inequívoca no ecossistema regional, tanto em ativos operacionais quanto no pipeline de novos empreendimentos.

Quem são os players que lideram a corrida por capacidade?

O mercado brasileiro de data centers conta com um ecossistema diversificado de operadores, que inclui empresas globais e plataformas de origem local que atingiram escala continental. Scala, Elea, ODATA, Ascenty e Equinix figuram entre os nomes que lideram os mega-projetos em desenvolvimento.

Dois empreendimentos exemplificam a nova escala dos projetos no país. A Scala anunciou o AI City, um mega-campus no Rio Grande do Sul com capacidade projetada de 5 GW. A Elea, por sua vez, desenvolve o Rio AI City, com 3,2 GW de capacidade planejada. Projetos dessa magnitude sinalizam que o Brasil deixou de ser um mercado de expansão incremental para se tornar palco de apostas estruturais de longo prazo.

Investidores globais de infraestrutura, como Brookfield, DigitalBridge e KKR, têm intensificado seu posicionamento no mercado brasileiro. A presença desses grupos, com histórico de alocação de capital em ativos de infraestrutura crítica, reforça a leitura de que os data centers no Brasil transitaram da categoria de aposta tecnológica para a de infraestrutura essencial, com perfil de retorno e risco compatível com os grandes fundos de investimento.

A infraestrutura energética como gargalo e como vantagem competitiva

A energia é simultaneamente o maior diferencial competitivo e o principal desafio operacional do setor de data centers no Brasil. A matriz elétrica predominantemente renovável confere ao país uma vantagem estrutural para atrair operadores globais que enfrentam metas corporativas de descarbonização e pressão regulatória por credenciais ESG.

Contudo, a velocidade de expansão do setor impõe pressão significativa sobre a rede elétrica. Os pedidos de conexão à rede básica feitos por data centers somam mais de 13,4 GW de capacidade até 2038, segundo o MME, via BNamericas, em dados divulgados em julho de 2025. Esse volume supera demandas de setores como indústria e mineração, evidenciando que os data centers se tornaram o segmento de maior crescimento em demanda por energia no país.

A capacidade de o sistema elétrico brasileiro absorver essa expansão dependerá de investimentos coordenados em geração, transmissão e distribuição. A construção de linhas de transmissão dedicadas, a contratação de energia renovável via contratos bilaterais (PPAs) e o reforço das subestações próximas aos grandes campi de data centers figuram entre as necessidades imediatas. Essa convergência entre infraestrutura digital e infraestrutura energética representa um dos temas centrais debatidos nas reuniões promovidas pelo GRI Institute com líderes dos dois setores.

Redata: o regime tributário que pode acelerar ou frear a expansão

No plano regulatório, o setor aguarda a definição sobre o Redata (Regime Especial de Tributação para Data Centers), um conjunto de incentivos fiscais sobre componentes e equipamentos de data centers proposto para viabilizar novos projetos e aumentar a competitividade do Brasil frente a outros mercados. Até agosto de 2026, o Redata permanece em fase de discussão.

A aprovação do regime é considerada estratégica pelo mercado. Os custos de importação de servidores, sistemas de refrigeração e equipamentos de rede representam parcela significativa do capex dos projetos. A definição favorável do Redata pode acelerar decisões de investimento que hoje aguardam maior clareza tributária. A ausência de um marco fiscal competitivo, por outro lado, pode redirecionar parte do pipeline para mercados vizinhos que ofereçam condições mais previsíveis.

Desafios de licenciamento e a maturidade institucional do setor

Além da questão energética e tributária, o licenciamento ambiental surge como variável crítica para a execução dos projetos anunciados. O caso do projeto da ByteDance no Ceará, que enfrentou questionamentos do Ministério Público Federal, ilustra a complexidade que mega-empreendimentos de data centers podem encontrar no processo de aprovação ambiental.

A maturidade do arcabouço institucional brasileiro para lidar com projetos dessa escala será testada nos próximos meses. A velocidade de licenciamento, a clareza dos requisitos ambientais e a capacidade de diálogo entre operadores, reguladores e comunidades locais determinarão se o pipeline anunciado se converterá em capacidade efetiva.

Data centers em escala de gigawatt consomem volumes expressivos de água e energia, geram impacto sobre uso do solo e demandam infraestrutura viária e de telecomunicações no entorno. O tratamento regulatório desses projetos como infraestrutura crítica, e não apenas como empreendimentos comerciais convencionais, pode facilitar processos de aprovação e garantir maior previsibilidade para investidores.

O que esperar do mercado até o fim de 2026

O segundo semestre de 2026 será decisivo para o setor de data centers no Brasil. Três fatores merecem atenção dos líderes de infraestrutura e dos investidores institucionais:

Primeiro, a evolução dos pedidos de conexão à rede elétrica indicará quais projetos avançam efetivamente da fase de planejamento para a construção. Segundo, a definição do Redata pode destravar uma nova onda de compromissos de investimento. Terceiro, a capacidade dos operadores de garantir terrenos, energia contratada e licenças ambientais determinará a competição entre os estados brasileiros pelos grandes campi de data centers.

O Brasil reúne os fundamentos para se consolidar como potência global em infraestrutura digital. A combinação de energia renovável abundante, mercado consumidor de escala continental e presença crescente de capital institucional sofisticado cria condições favoráveis para que a projeção de 13.321 MW até 2036 se materialize. A execução, contudo, dependerá de decisões regulatórias, energéticas e ambientais que estão sendo tomadas agora.

O GRI Institute continuará mapeando essa transformação e conectando os líderes que definem a trajetória do setor. O GRI Data Center 2026, em setembro, e o Brazil GRI 2026, em outubro, reúnem os principais tomadores de decisão do ecossistema de infraestrutura digital no país.

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