
Condições macroeconômicas definem quem investe e quem espera em infraestrutura no Brasil até 2026
Com Selic projetada em 12,25%, câmbio a R$ 5,50 e reforma tributária em transição, o apetite por concessões e PPPs enfrenta um teste de resiliência estratégica.
Resumo Executivo
Principais Insights
O Brasil caminha para um recorde histórico de investimentos em infraestrutura. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), o país deve atingir R$ 300 bilhões em aportes no setor em 2026. A cifra impressiona, mas a leitura superficial do número esconde uma dinâmica de tensão entre variáveis macroeconômicas que, combinadas, podem tanto acelerar quanto travar a execução de projetos nos próximos 18 meses.
O pano de fundo é conhecido: política monetária restritiva, câmbio pressionado, reforma tributária em fase de implementação e um ciclo eleitoral que já molda decisões regulatórias. A questão central para investidores, operadores e formuladores de política pública é como cada uma dessas forças se transmite, de forma diferenciada, para os subsegmentos de energia, saneamento, transporte e infraestrutura digital.
Qual o impacto real da Selic e do câmbio sobre os diferentes subsegmentos de infraestrutura?
A expectativa do mercado financeiro para a taxa Selic ao final de 2026 é de 12,25% ao ano, segundo o Boletim Focus do Banco Central do Brasil, divulgado em fevereiro de 2026. A projeção para a taxa de câmbio mantém-se no patamar de R$ 5,50 ao final de 2026 e 2027, conforme a mesma fonte. Esses dois parâmetros constituem a espinha dorsal de qualquer modelagem financeira para projetos de longo prazo.
Uma Selic em dois dígitos encarece o custo de capital próprio e de terceiros, comprime as taxas internas de retorno (TIR) de concessões e PPPs e eleva a exigência de garantias por parte de financiadores. O efeito, porém, é desigual entre os subsegmentos.
O saneamento básico lidera as intenções de investimento em infraestrutura no Brasil, concentrando 49,2% das intenções, seguido por rodovias com 47,8% e energia elétrica com 38,5%, de acordo com o Barômetro da Infraestrutura, pesquisa realizada pela Abdib em parceria com a EY-Parthenon, publicada em janeiro de 2026. A robustez do saneamento decorre, em grande medida, do marco regulatório consolidado e da previsibilidade tarifária, que oferecem proteção parcial contra oscilações de juros. Rodovias, por sua vez, dependem fortemente de tráfego e, portanto, do ritmo de atividade econômica, o que as torna mais sensíveis a um PIB projetado em 1,80% para 2026, conforme o Boletim Focus.
O setor de energia elétrica, especialmente em renováveis, enfrenta dupla pressão: o custo de equipamentos importados sobe com o câmbio a R$ 5,50, ao mesmo tempo em que o financiamento de longo prazo se torna mais oneroso. A atratividade de projetos solares e eólicos permanece elevada pela demanda estrutural de descarbonização, mas a viabilidade financeira de cada empreendimento individual exige calibragem mais fina.
A infraestrutura digital, embora com ciclos de investimento mais curtos que rodovias ou saneamento, também sente o peso do câmbio. Grande parte dos equipamentos de redes de fibra óptica e data centers é denominada em dólar, o que pressiona o capex em reais.
A leitura setorial diferenciada é essencial para evitar generalizações. O cenário macro impõe cautela, mas cada vertical de infraestrutura responde com intensidade distinta às mesmas variáveis.
Como a reforma tributária altera a equação de viabilidade de projetos e PPPs?
A Lei Complementar nº 214/2025 regulamenta a reforma tributária sobre o consumo, instituindo o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto Seletivo (IS). A legislação extingue gradualmente tributos como PIS/Cofins, ICMS e ISS, com a fase de transição iniciando em 2026.
Para o setor de infraestrutura, a reforma representa uma mudança estrutural na forma como custos tributários se distribuem ao longo da cadeia de valor. O fim da cumulatividade tributária, princípio central do novo sistema, promete maior eficiência na alocação de recursos e na logística. Regimes especiais consolidados, como o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi), passam por redefinição, o que gera incerteza no curto prazo sobre o tratamento fiscal de projetos já em estruturação.
A transição tributária é, simultaneamente, uma oportunidade de ganho de competitividade e um fator de risco operacional. Concessionárias que operam em múltiplos estados, como as de rodovias e transmissão de energia, enfrentam complexidade adicional na convivência entre o sistema antigo e o novo durante o período de migração. PPPs municipais e estaduais precisam revisar modelos de equilíbrio econômico-financeiro para refletir a nova carga tributária.
A clareza regulatória na implementação da LC 214/2025 será um divisor de águas para a confiança dos investidores. Cada mês de ambiguidade normativa representa custo adicional de estruturação e pode postergar decisões de investimento em um momento em que o país precisa de aceleração.
Ciclo eleitoral 2026 e capital privado: como investidores recalibram suas teses?
A proximidade das eleições presidenciais de 2026 introduz uma variável política que permeia todas as decisões de alocação de capital em infraestrutura. Historicamente, ciclos eleitorais brasileiros produzem dois efeitos simultâneos: aceleração de concessões e leilões nos 12 meses anteriores ao pleito, como forma de consolidar legado, e cautela por parte de investidores de longo prazo, que aguardam definição sobre a continuidade de políticas setoriais.
A iniciativa privada deve ser responsável por 72,2% do valor total aportado em infraestrutura no Brasil até o fim de 2025, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicados em junho de 2025. Essa participação expressiva do capital privado significa que a percepção de risco político e regulatório tem impacto direto sobre o volume efetivo de investimentos.
Investidores institucionais, fundos de pensão e gestores de private equity em infraestrutura operam com horizontes de 15 a 30 anos. Para esses agentes, a questão não é apenas quem vence a eleição, mas qual será a agenda regulatória do próximo ciclo governamental para setores como saneamento, energia e transportes. A estabilidade do marco do saneamento, a continuidade dos leilões de transmissão e a política tarifária de rodovias são variáveis que pesam tanto quanto a taxa de juros na decisão de alocar capital.
Fundos estrangeiros, que tradicionalmente respondem por parcela relevante do financiamento de projetos de infraestrutura, enfrentam a combinação de câmbio depreciado e juros elevados com perspectivas mistas. Por um lado, ativos brasileiros ficam mais baratos em dólar, o que eleva a atratividade para compradores internacionais. Por outro, o custo de hedge cambial e a volatilidade reduzem a previsibilidade de retornos em moeda forte.
O apetite estrangeiro por infraestrutura brasileira depende menos do nível absoluto de juros ou câmbio e mais da percepção de consistência institucional e previsibilidade regulatória ao longo do tempo.
O que está em jogo para os próximos 18 meses
A convergência de fatores macroeconômicos, tributários e políticos configura um cenário que exige sofisticação analítica por parte de todos os agentes do ecossistema de infraestrutura. O recorde projetado de R$ 300 bilhões em investimentos para 2026 é alcançável, mas depende da capacidade do ambiente institucional de oferecer sinais claros ao mercado.
Três condições se destacam como determinantes. Primeiro, a trajetória da política monetária: uma sinalização mais firme de convergência da Selic para patamares inferiores aos atuais pode destravar projetos hoje em compasso de espera. Segundo, a regulamentação detalhada da reforma tributária para o setor de infraestrutura precisa avançar com celeridade e previsibilidade, minimizando a insegurança jurídica durante a transição. Terceiro, a agenda de concessões e leilões programados para 2025 e 2026 precisa manter ritmo e qualidade técnica, independentemente do calendário eleitoral.
Líderes do setor, como os que participam das discussões promovidas pelo GRI Institute em seus encontros dedicados ao futuro da infraestrutura brasileira, têm reiterado que o problema do Brasil não é ausência de capital disponível, mas a consistência do ambiente de negócios que permite transformar intenção de investimento em obra executada.
O país tem diante de si uma janela real de crescimento em infraestrutura. Aproveitá-la exige que decisões macroeconômicas, regulatórias e políticas operem na mesma direção. O capital, privado e estrangeiro, está atento. A resposta institucional definirá o ritmo.
Este tema é parte da agenda estratégica do GRI Institute, que reúne líderes de infraestrutura, investidores e formuladores de políticas públicas em encontros dedicados a analisar os vetores que condicionam o crescimento do setor no Brasil e na América Latina.