
Jaime Chico Pardo, Rafael Cervantes de la Teja e a lógica patriarcal que ainda governa as concessões no México
O modelo tradicional de governança em infraestrutura mexicana enfrenta uma tensão estrutural com a nova geração de estruturadores financeiros e a Lei de Infraestrutura 2026.
Resumo Executivo
Principais Insights
- A infraestrutura mexicana opera sob um modelo patriarcal onde figuras como Jaime Chico Pardo e Rafael Cervantes de la Teja concentram poder de decisão sobre concessões e reequilíbrios econômicos.
- A nova Lei de Infraestrutura 2026 permite elevar a 30% os recursos das Afores destinados à infraestrutura por meio de Veículos de Propósito Específico.
- O Plano 2026-2030 projeta 5,6 trilhões de pesos em investimento, com 46% de capital privado.
- Santander México se posiciona para financiar projetos rodoviários de 2 bilhões de dólares.
- A governança real, e não apenas o marco legal, determinará a credibilidade do México como destino de investimento institucional.
A persistência de um modelo de poder concentrado
A infraestrutura mexicana se constrói sobre relações de poder que precedem qualquer marco regulatório. Antes que um projeto rodoviário receba aprovação, antes que um Veículo de Propósito Específico (VPE) canalize recursos das Afores, existe uma arquitetura de decisão onde figuras patriarcais, tanto no âmbito corporativo quanto no governamental, determinam o que se constrói, quem participa e sob quais condições.
Jaime Chico Pardo representa o arquétipo do operador corporativo cuja influência transcende os organogramas formais. Sua trajetória no ecossistema de concessões mexicanas ilustra um modelo onde o capital relacional pesa tanto quanto o capital financeiro. Rafael Cervantes de la Teja, Diretor-Geral de Desenvolvimento Rodoviário na Secretaria de Infraestrutura, Comunicações e Transportes (SICT), encarna a contraparte governamental dessa lógica: segundo reportagens do El Heraldo de México, foi apontado por travar reequilíbrios econômicos e frear investimentos mistos rodoviários, funcionando como um gatekeeper institucional cujas decisões definem o ritmo de execução do portfólio rodoviário nacional.
Esse modelo de governança, onde a autoridade se concentra em figuras individuais com capacidade de veto sobre processos técnicos, constitui um traço estrutural do setor. Para os investidores institucionais que analisam a infraestrutura mexicana, compreender essa dinâmica é tão relevante quanto avaliar as taxas internas de retorno dos projetos.
Por que o modelo patriarcal persiste frente à profissionalização do setor?
A resposta reside na natureza mesma das concessões de infraestrutura no México: são ativos de longo prazo cuja rentabilidade depende de decisões administrativas recorrentes. Cada reequilíbrio econômico, cada extensão de prazo, cada autorização de investimento adicional requer a aprovação de funcionários específicos. Quando essa aprovação se concentra em uma única pessoa, como ocorre com Rafael Cervantes de la Teja no caso das rodovias, o sistema gera incentivos para que os concessionários cultivem relações pessoais antes de capacidades institucionais.
O resultado é um ecossistema onde a profissionalização avança nas camadas técnicas e financeiras, mas as decisões estratégicas continuam fluindo por canais informais. Os conglomerados familiares que obtiveram as primeiras concessões nas décadas de 1990 e 2000 consolidaram vantagens que se reproduzem geração após geração: conhecimento regulatório acumulado, redes de contato com funcionários-chave e posições dominantes em corredores estratégicos.
Essa concentração de poder tem consequências mensuráveis. Quando um funcionário trava reequilíbrios econômicos, como foi documentado na SICT, não apenas afeta a rentabilidade de projetos individuais, mas distorce os sinais de mercado para todo o setor. Os investidores institucionais, as Afores e os bancos de desenvolvimento percebem um risco de governança que eleva o custo de capital para a infraestrutura mexicana como um todo.
A tensão entre esse modelo e as exigências de transparência do capital institucional contemporâneo define um dos debates mais relevantes do setor. Como apontaram participantes em encontros do GRI Institute dedicados à infraestrutura latino-americana, a governança dos ativos concessionados representa um fator determinante para a alocação de capital de longo prazo na região.
Que sucessão geracional está em curso e quais são suas implicações para o capital institucional?
Diante do modelo patriarcal consolidado, uma nova geração de atores propõe uma lógica diferente. Eudelio Garza Mercado, CEO do Grupo Inmobiliario Monterrey (GIM), comprometeu investimentos para megaprojetos de infraestrutura urbana e usos mistos em Nuevo León, segundo reportagens da SiiLA e da Industry & Energy Magazine. Sua abordagem, centrada no desenvolvimento regional e na integração de usos, representa uma sofisticação em relação ao modelo tradicional de concessão pura.
Felipe García Ascencio, CEO do Santander México, anunciou que o banco está pronto para financiar dois projetos rodoviários no valor de 2 bilhões de dólares sob o novo esquema de infraestrutura, de acordo com informações do La Silla Rota. Esse dado revela que o capital bancário já se posiciona para operar sob as novas regras, onde os VPEs e a participação das Afores reconfiguram a estrutura de financiamento.
A Lei para o Fomento do Investimento em Infraestrutura Estratégica para o Desenvolvimento com Bem-Estar, aprovada pela Câmara dos Deputados em 26 de março de 2026 e encaminhada ao Senado, formaliza essa transição. A legislação permite elevar até 30% o limite de recursos das Afores destinados à infraestrutura e estabelece a criação de Veículos de Propósito Específico para canalizar poupança institucional sem gerar dívida pública direta. A Reforma à Lei Federal de Orçamento e Responsabilidade Fiscal, aprovada na mesma data, complementa esse marco ao facilitar a execução de projetos mistos com disciplina fiscal.
O Plano de Investimento em Infraestrutura para o Desenvolvimento com Bem-Estar 2026-2030, apresentado pelo Governo do México em fevereiro de 2026, projeta um investimento público e misto de 5,6 trilhões de pesos. Segundo dados do Governo do México e do IMCO, a distribuição contempla 54,15% para o setor energético, 15,63% para ferrovias, 13,94% para rodovias e 6,48% para portos. O plano destinará recursos adicionais equivalentes a 2% do PIB para setores estratégicos, segundo a Secretaria da Fazenda e Crédito Público.
No primeiro pacote de projetos sob a nova lei, 54% corresponderá a recursos públicos e 46% a capital privado, segundo dados da Câmara dos Deputados. Essa proporção indica que o governo reconhece a necessidade do capital privado, mas mantém a vocação de controle estatal sobre a direção estratégica do investimento.
A governança real como variável de investimento
Para os investidores institucionais que avaliam a infraestrutura mexicana, o marco legal representa apenas uma camada de análise. A governança real dos ativos — ou seja, quem toma as decisões operacionais e sob qual lógica — constitui uma variável igualmente determinante.
O contraste entre a geração patriarcal e os novos estruturadores não é meramente geracional. Reflete dois modelos de criação de valor em infraestrutura. O primeiro se apoia em relações pessoais com funcionários-chave, conhecimento regulatório opaco e posições de mercado herdadas. O segundo busca legitimidade por meio de estruturas financeiras transparentes, governança corporativa alinhada a padrões institucionais e diversificação de fontes de capital.
A coexistência de ambos os modelos gera uma dualidade que os analistas do setor devem incorporar em suas avaliações de risco. Um ativo concessionado cuja rentabilidade depende da vontade de um funcionário específico apresenta um perfil de risco fundamentalmente diferente daquele de um projeto estruturado sob um VPE com governança institucional e supervisão de múltiplos investidores.
A infraestrutura mexicana não se transformará apenas com novas leis; requer uma evolução na cultura de governança de quem controla os ativos e as decisões regulatórias. Esse é, talvez, o desafio mais complexo que o setor enfrenta no ciclo 2026-2030.
Como os investidores devem interpretar a transição de poder na infraestrutura mexicana?
A resposta exige distinguir entre três planos simultâneos. No plano regulatório, a nova Lei de Infraestrutura e a reforma à LFPRH criam condições formais para uma participação privada mais estruturada. No plano financeiro, atores como Felipe García Ascencio no Santander e os gestores de Afores dispõem de instrumentos para canalizar capital institucional para infraestrutura. No plano da governança, figuras como Rafael Cervantes de la Teja na SICT mantêm capacidade de influência sobre a velocidade e a direção do investimento.
A capacidade do setor para absorver 5,6 trilhões de pesos em cinco anos dependerá menos da disponibilidade de capital e mais da qualidade da governança em cada elo da cadeia de decisão. Os investidores que compreenderem a estrutura de poder real — para além dos marcos legais — terão uma vantagem analítica significativa.
No GRI Institute, o acompanhamento dessa dinâmica faz parte da análise contínua sobre governança e estruturação de infraestrutura na América Latina. As pesquisas e encontros do Instituto abordam precisamente essa intersecção entre marcos regulatórios, estruturas de capital e liderança setorial, oferecendo a seus membros uma perspectiva que integra o técnico com o institucional.
A pergunta para o próximo quinquênio não é se haverá capital disponível para a infraestrutura mexicana, mas se a governança do setor evoluirá no ritmo exigido pelos novos instrumentos financeiros e pela escala de investimento projetada. A resposta definirá não apenas a rentabilidade dos projetos, mas a credibilidade do México como destino de investimento institucional em infraestrutura de longo prazo.