
Carlos Bier Gerdau Johannpeter e o avanço de grupos industriais gaúchos sobre concessões de infraestrutura
Conglomerados do Sul com DNA de manufatura e siderurgia diversificam portfólios rumo a concessões rodoviárias e ativos reais de longo prazo no Brasil
Resumo Executivo
Principais Insights
- O governo federal realizou 21 leilões de rodovias desde 2023, contratando R$ 232 bilhões em investimentos com 16 players diferentes.
- Grupos industriais gaúchos, como o ligado a Carlos Bier Gerdau Johannpeter, diversificam patrimônio migrando da siderurgia e manufatura para concessões de infraestrutura.
- O Bloco 2 de concessões rodoviárias do RS prevê R$ 6 bilhões em investimentos para 409 km ao longo de 30 anos.
- O pipeline federal prevê R$ 120 bilhões em 87 concessões e PPPs no biênio 2025-2026.
- Concessões funcionam como âncoras patrimoniais em processos de sucessão intergeracional de family offices industriais.
O governo federal realizou 21 leilões de rodovias desde 2023, contratando R$ 232 bilhões em investimentos com a participação de 16 diferentes players, incluindo novos entrantes, segundo dados do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). O dado revela um mercado de concessões em plena expansão, que atrai não apenas operadores tradicionais de infraestrutura, mas também famílias industriais brasileiras em busca de diversificação patrimonial. Entre os nomes que simbolizam essa transição está Carlos Bier Gerdau Johannpeter, ligado a um dos maiores conglomerados siderúrgicos do país e com atuação crescente no setor imobiliário e de ativos reais por meio de veículos como Domus Populi e Domus Urbanismo.
Essa movimentação configura uma tese de investimento que o GRI Institute tem acompanhado de perto: a conversão de capital industrial em capital de infraestrutura. Grupos familiares com décadas de experiência em manufatura, commodities e siderurgia enxergam nas concessões de longo prazo uma combinação de previsibilidade de receita, proteção patrimonial e diversificação intergeracional.
Por que grupos industriais gaúchos migram para concessões de infraestrutura?
O Rio Grande do Sul reúne condições específicas que explicam essa convergência. O estado possui uma base industrial densa, com famílias empresariais que acumularam capital ao longo de gerações em setores cíclicos como siderurgia, agronegócio e manufatura. A volatilidade inerente a esses mercados, somada à necessidade de planejamento sucessório, impulsiona a busca por ativos com fluxos de caixa estáveis e horizontes de décadas.
Segundo levantamento do Sistema Fiergs, publicado pelo Jornal do Comércio, 63,3% das indústrias do Rio Grande do Sul pretendem realizar investimentos em 2026. Embora o índice represente uma queda em relação ao patamar de 2025, ele permanece 7,3 pontos percentuais acima da média nacional de 56%, conforme dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Esse diferencial revela um apetite por alocação de capital que não se limita à atividade fabril tradicional, mas que transborda para ativos reais de infraestrutura.
Concessões rodoviárias, em particular, oferecem características atrativas para o perfil desses investidores: contratos de longo prazo com receita indexada, barreira de entrada regulatória que limita a concorrência e potencial de valorização logística dos corredores operados. Para famílias industriais que já dominam cadeias produtivas complexas, a gestão de uma concessão representa uma extensão natural de suas competências operacionais.
O Bloco 2 de rodovias do RS e o novo ciclo de oportunidades
O ambiente de concessões no Rio Grande do Sul está particularmente aquecido. O Bloco 2 de concessões rodoviárias do estado prevê R$ 6 bilhões em investimentos para 409 km de rodovias ao longo de 30 anos, com tarifa-teto de R$ 0,19 por quilômetro no modelo free flow, segundo informações do Governo do Estado do RS divulgadas pelo Grupo A Hora.
O modelo free flow, que elimina praças de pedágio físicas e cobra tarifas proporcionais à distância percorrida por meio de pórticos eletrônicos, representa uma modernização significativa na operação rodoviária brasileira. Para investidores com perfil industrial, esse formato reduz custos operacionais de coleta e amplia a eficiência da concessão.
O Bloco 2, contudo, não avança sem escrutínio. A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul instalou uma CPI das Concessões Rodoviárias que investiga a modelagem do projeto, questionando o cálculo do Volume Diário Médio (VDM), os custos de demolição de acostamentos e os critérios de avaliação de pontes. A comissão realizava audiências públicas no interior do estado no primeiro trimestre de 2026. O escrutínio legislativo adiciona uma camada de risco regulatório que grupos entrantes precisam incorporar em seus modelos de viabilidade.
Apesar dessa turbulência institucional, a estrutura do projeto permanece atrativa para investidores de longo prazo. O horizonte de 30 anos permite a amortização de investimentos pesados em pavimentação, sinalização e sistemas inteligentes de transporte, alinhando-se ao perfil de capital paciente típico de family offices industriais.
Qual é o papel dos family offices industriais no novo mapa das concessões brasileiras?
A entrada de famílias industriais nas concessões de infraestrutura altera a dinâmica competitiva do setor. Historicamente dominado por grandes construtoras e operadores especializados, o mercado brasileiro de concessões passou por uma reorganização profunda após os ciclos de endividamento e reestruturação da última década. Esse vácuo abriu espaço para novos perfis de investidores.
O calendário de leilões do governo federal prevê R$ 120 bilhões em investimentos a partir de uma agenda de 87 concessões e PPPs estruturadas para o biênio 2025-2026, segundo dados compilados por BNamericas e NeoFeed. A escala dessa oferta de ativos cria oportunidades para grupos que dispõem de capital próprio e capacidade de execução, mas que até então não atuavam no setor.
Segundo análise da Agência iNFRA, o novo ciclo de concessões de transportes em 2026 deve reorganizar o mercado, permitindo que grupos regionais consolidem posições e formem "campeões nacionais ou regionais" com portfólios diversificados em ativos reais. Essa projeção reforça a tese de que famílias industriais do Sul, com balanços sólidos e governança corporativa estabelecida, podem ocupar posições relevantes nesse redesenho.
O caso de Carlos Bier Gerdau Johannpeter ilustra esse movimento. Com raízes na siderurgia e experiência consolidada no setor imobiliário, o grupo familiar demonstra uma trajetória de diversificação que converge com as oportunidades abertas pelo ciclo de concessões. O GRI Club, por meio de plataformas como o GRI Institute Brasil e eventos regionais como o Infra Sul GRI, tem funcionado como espaço de conexão entre esses grupos e as oportunidades de concessões públicas, facilitando o diálogo entre capital privado e poder concedente.
A estratégia de diversificação também responde a imperativos de governança familiar. Concessões de infraestrutura, com fluxos previsíveis e contratos de décadas, funcionam como âncoras patrimoniais em processos de sucessão. Famílias que construíram fortunas em setores voláteis encontram nas concessões uma ferramenta de perpetuação de riqueza que transcende ciclos econômicos.
O regulatório como variável decisiva
A entrada de grupos industriais no setor de concessões depende diretamente da estabilidade regulatória. Em Minas Gerais, o Decreto Estadual nº 49.148/2025 regulamentou parcerias entre o setor público e a iniciativa privada para investimentos diretos em infraestrutura rodoviária e logística, criando um arcabouço que grupos industriais como a Gerdau já utilizam. Esse tipo de regulamentação estadual complementa o marco federal e oferece caminhos adicionais para a participação de capital industrial em ativos de infraestrutura.
No Rio Grande do Sul, a CPI das Concessões Rodoviárias adiciona incerteza ao ambiente regulatório, mas também pode resultar em modelagens mais robustas, beneficiando investidores de longo prazo que valorizam segurança jurídica. A tensão entre aceleração de leilões e rigor na modelagem é saudável para a maturidade do mercado.
Perspectivas para o capital industrial em infraestrutura
O movimento dos conglomerados industriais gaúchos rumo às concessões representa uma tendência estrutural, e não conjuntural. A combinação de um ciclo federal robusto de leilões, oportunidades estaduais como o Bloco 2 no RS e o amadurecimento dos family offices industriais cria as condições para uma reconfiguração do perfil dos concessionários no Brasil.
Três fatores sustentam essa trajetória. Primeiro, a escala do pipeline de concessões e PPPs, com R$ 120 bilhões em investimentos previstos para o biênio, garante oferta suficiente de ativos para acomodar novos entrantes. Segundo, a experiência operacional de grupos industriais em gestão de ativos complexos é transferível para a operação de concessões. Terceiro, a lógica intergeracional dos family offices industriais se alinha naturalmente com contratos de 30 anos.
O GRI Institute continuará monitorando essa convergência entre capital industrial e infraestrutura, tema que integra a agenda dos principais fóruns de discussão do setor no Brasil. O reconhecimento de lideranças empresariais em iniciativas como o GRI Awards reforça a importância de mapear os novos protagonistas de um mercado em transformação.
A conversão de capital industrial em capital de infraestrutura não é um fenômeno isolado. Trata-se de uma reconfiguração patrimonial que reflete a maturidade do mercado brasileiro de concessões e a sofisticação crescente das famílias empresariais do Sul do país.