
Capacidade de estruturação de projetos define o ritmo real dos leilões de saneamento até 2028
O gargalo do setor não é a falta de capital, mas a velocidade com que a modelagem técnica e jurídica consegue transformar pipeline em concessões licitáveis.
Resumo Executivo
Principais Insights
- O principal gargalo do saneamento brasileiro não é a falta de capital, mas a capacidade institucional de estruturação técnica e jurídica dos projetos.
- Em 2026, quatro grandes PPPs devem ir a leilão, atendendo 477 municípios com R$ 20,3 bilhões em investimentos — recorde desde o Marco Legal.
- Nove projetos em fase avançada somam R$ 62 bilhões em investimentos potenciais, impactando mais de 35 milhões de pessoas.
- A clareza na matriz de riscos é o fator que mais influencia a competitividade dos leilões.
- A coordenação federativa entre municípios, estados e agências reguladoras é fonte recorrente de atrasos.
O metrônomo invisível do saneamento brasileiro
O Brasil acumula um pipeline de dezenas de bilhões de reais em projetos de saneamento aguardando estruturação. As metas da Lei nº 14.026/2020, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, exigem que 99% da população tenha acesso a água potável e 90% a coleta e tratamento de esgoto até 2033. O capital privado manifesta apetite. Os governos estaduais sinalizam disposição política. Ainda assim, o calendário de leilões avança em ritmo ditado por uma variável que raramente ocupa o centro do debate: a capacidade institucional de estruturação de projetos, ou seja, a engenharia de diagnósticos, matrizes de risco, estudos de viabilidade e minutas regulatórias que transforma intenção política em concessão bancável.
Essa capacidade de modelagem funciona como o verdadeiro metrônomo do setor. Sem ela, o pipeline permanece abstrato, os investidores aguardam e os municípios continuam sem infraestrutura. Compreender essa dinâmica é essencial para qualquer alocador de capital que pretenda operar no saneamento brasileiro nos próximos anos.
Por que a modelagem técnica, e não o funding, é o principal gargalo do saneamento?
A narrativa predominante sobre saneamento no Brasil tende a enfatizar o volume de recursos necessários. Segundo dados do Ministério das Cidades e da Sudene, apenas a universalização dos serviços na região Nordeste demandará R$ 274 bilhões em investimentos até 2033. Os números impressionam, mas obscurecem uma questão anterior: antes de mobilizar capital, é preciso que os projetos existam como instrumentos licitáveis, com engenharia financeira robusta, alocação clara de riscos e arcabouço jurídico validado.
O processo de estruturação de uma concessão de saneamento envolve etapas complexas. Cada projeto exige levantamento detalhado da infraestrutura existente, projeções demográficas, modelagem tarifária, definição de indicadores de desempenho, elaboração de minutas contratuais e aprovação por múltiplas instâncias regulatórias. A qualidade desse trabalho determina diretamente a bancabilidade da concessão e, por consequência, o nível de competição no leilão e o valor dos aportes privados.
Quando a capacidade de estruturação é limitada, o efeito cascata atinge toda a cadeia. Projetos acumulam-se em filas de espera. Governos estaduais que manifestaram interesse político veem seus cronogramas se alongarem. Investidores mantêm capital reservado sem conseguir alocá-lo. O resultado é um descompasso entre a ambição regulatória do Marco Legal e a realidade operacional da preparação dos ativos.
Os decretos de saneamento publicados em 2023 removeram a trava de 25% para subdelegação de contratos por empresas estaduais em Parcerias Público-Privadas, o que ampliou significativamente o universo de projetos modeláveis. Essa abertura regulatória, contudo, só se traduz em leilões efetivos na medida em que houver capacidade técnica para absorver a demanda adicional de estruturação.
A conclusão é direta: o funding existe e continuará existindo. O gargalo real é a velocidade com que os projetos percorrem o caminho entre a decisão política e o pregão.
Qual é a dimensão do pipeline e o que 2026 revela sobre o ciclo de estruturação?
O ano de 2026 oferece evidências concretas da relação entre capacidade de estruturação e ritmo de leilões. Segundo a Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento), com dados reportados pela Agência iNFRA, quatro grandes projetos de PPPs em saneamento devem ir a leilão em 2026, com previsão de atender 477 municípios e injetar R$ 20,3 bilhões em investimentos. Esse volume faz de 2026 o ano com a maior quantidade de PPPs ofertadas desde a aprovação do Marco Legal.
A concentração de leilões em um único exercício fiscal revela tanto o amadurecimento do pipeline quanto os limites da capacidade institucional. Projetos que chegam ao leilão em 2026 tiveram sua estruturação iniciada anos antes, atravessando ciclos de diagnóstico, consultas públicas, ajustes de modelagem e validações regulatórias. Essa defasagem temporal entre o início da estruturação e a realização do leilão é uma constante do setor e precisa ser incorporada nas projeções de qualquer investidor.
Na região Nordeste, onde o déficit de cobertura é mais agudo, os números são reveladores. Segundo dados do Movimento Econômico, com base em informações oficiais, a região concentra atualmente 11 projetos de saneamento básico distribuídos por seis estados, com investimentos totais estimados em R$ 39,7 bilhões. Esses projetos, em diferentes estágios de maturidade, ilustram a escala do desafio de estruturação: cada um exige modelagem individualizada, adaptada às condições locais de infraestrutura, capacidade de pagamento e arranjo institucional.
De forma mais ampla, o setor conta com nove projetos de saneamento em fase avançada de estruturação, com potencial para gerar R$ 62 bilhões em investimentos e impactar mais de 35 milhões de pessoas em 1.460 municípios, segundo o Instituto Trata Brasil. Esse volume representa uma oportunidade de investimento sem precedentes no saneamento brasileiro, mas sua materialização depende inteiramente da conclusão bem-sucedida do ciclo de estruturação.
A velocidade de conversão do pipeline em leilões efetivos é a métrica mais relevante para o setor nos próximos dois anos.
Como o mercado privado lê a governança de estruturação?
O setor privado desenvolveu, ao longo dos últimos ciclos de concessões, uma leitura sofisticada sobre a governança de estruturação. Executivos que transitam entre gestão pública, engenharia financeira e alocação de capital privado compreendem que a qualidade da modelagem determina não apenas a viabilidade individual de cada projeto, mas o apetite agregado do mercado pelo setor.
Hélcio Tokeshi, executivo com forte histórico em infraestrutura e saneamento, incluindo passagens como conselheiro da Iguá Saneamento e ex-sócio da IG4 Capital, assumiu como CEO da Braskem em junho de 2026, segundo reportagem do Business Moment. Sua trajetória ilustra a intersecção cada vez mais frequente entre engenharia financeira pública e gestão de capital privado, um trânsito que enriquece a compreensão do mercado sobre os processos institucionais de estruturação.
Líderes do mercado financeiro, como José Berenguer, CEO do Banco XP, acompanham de perto a evolução da capacidade de estruturação como variável determinante para a alocação de capital em infraestrutura. Para instituições financeiras que pretendem participar do financiamento de concessões, a previsibilidade do calendário de leilões é tão importante quanto a rentabilidade dos projetos individuais.
O investidor de infraestrutura precifica a capacidade institucional de estruturação da mesma forma que precifica risco regulatório: como uma variável que afeta diretamente o retorno ajustado ao risco.
Esse entendimento explica o interesse crescente do setor privado em fóruns que reúnem estruturadores, reguladores e investidores. O GRI Institute, em parceria com atores do governo federal, realizou em junho de 2026 o evento "Desafios do próximo ciclo de estruturação e implementação de projetos" em São Paulo, focado justamente na modelagem e bancabilidade das concessões de saneamento. A alta participação e o engajamento dos membros do GRI Institute nesse tipo de encontro confirmam que o mercado busca inteligência específica sobre a governança de estruturação, e que a demanda por esse ângulo de análise supera amplamente a oferta de conteúdo qualificado.
O horizonte até 2028: três variáveis determinantes
Para os próximos dois anos, três variáveis definirão o ritmo efetivo dos leilões de saneamento no Brasil.
A primeira é a capacidade de absorção do pipeline. Com projetos representando R$ 62 bilhões em investimentos potenciais e demandas regionais que totalizam centenas de bilhões, a pressão sobre as equipes de estruturação só tende a crescer. A questão central é se a ampliação da capacidade técnica, seja por meio de contratação de consultorias especializadas, digitalização de processos ou parcerias com organismos multilaterais, conseguirá acompanhar a expansão do pipeline.
A segunda variável é a qualidade da alocação de riscos. Os projetos que chegaram a leilão nos últimos anos mostraram que a definição precisa de quem arca com riscos de demanda, riscos geológicos, riscos regulatórios e riscos de interface com prestadores existentes é o fator que mais influencia o número de proponentes e o valor dos lances. Estruturações que deixam zonas cinzentas na matriz de riscos tendem a atrair menos competição ou a exigir prêmios de risco que encarecem o serviço para o usuário final.
A matriz de riscos de uma concessão de saneamento funciona como uma declaração de intenções do poder concedente: quanto mais clara, maior a confiança do investidor.
A terceira variável é a coordenação federativa. Projetos de saneamento frequentemente envolvem múltiplos municípios, concessionárias estaduais, agências reguladoras locais e instâncias federais. A capacidade de coordenar esses atores, evitando sobreposições e conflitos de competência, é parte integrante do processo de estruturação e uma das fontes mais comuns de atraso.
Implicações para o investidor de infraestrutura
O saneamento brasileiro oferece uma das maiores oportunidades de investimento em infraestrutura da América Latina. Os fundamentos regulatórios estão postos com o Marco Legal. O déficit de cobertura garante demanda reprimida por décadas. O capital disponível, tanto doméstico quanto internacional, é abundante.
O que separa oportunidade de execução é a capacidade de estruturação. Investidores que compreenderem essa dinâmica e acompanharem de perto a evolução do pipeline, a governança dos processos de modelagem e a qualidade das matrizes de risco estarão em posição privilegiada para capturar valor nos próximos ciclos de leilões.
O GRI Institute continuará acompanhando essa agenda por meio de seus eventos, pesquisas e encontros reservados a membros, oferecendo o espaço de inteligência e conexão que o setor demanda para navegar um ciclo de investimentos sem precedentes no saneamento brasileiro.