Blended finance no saneamento brasileiro: a arquitetura que conecta capital privado e garantias multilaterais

Modelo híbrido de financiamento ganha protagonismo no ciclo de universalização até 2033, com executivos de perfil técnico-regulatório liderando a estruturação

3 de julho de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

O artigo analisa como o blended finance está se consolidando como principal modelo de financiamento para a universalização do saneamento no Brasil até 2033. O modelo opera em três pilares — capital catalítico público, garantias multilaterais (IFC, BID Invest, KfW) e capital privado — criando um efeito de alavancagem que amplia a capacidade de investimento do setor. Dados do IDB Lab e da Convergence indicam 11 fundos já estruturados, com US$ 180 milhões mobilizados em capital privado. O Novo Marco Legal do Saneamento forneceu a previsibilidade regulatória necessária, e o setor agora enfrenta o desafio de escalar a execução operacional.

Principais Insights

  • Blended finance combina capital público, garantias multilaterais e investimento privado para viabilizar projetos de saneamento de grande escala no Brasil.
  • Já foram estruturados 11 fundos de blended finance no país, mobilizando cerca de US$ 180 milhões em capital privado.
  • A Lei nº 14.026/2020 criou a base regulatória necessária para atrair organismos multilaterais e investidores internacionais.
  • Executivos com perfil técnico-regulatório, fluentes na interface público-privada, são peças-chave na estruturação desses instrumentos.
  • O desafio agora é escalar a execução até o prazo de universalização em 2033.

O setor de saneamento brasileiro vive um momento de reconfiguração financeira. A universalização dos serviços, meta estipulada pela Lei nº 14.026/2020 para 2033, exige volumes de investimento que transcendem a capacidade isolada do setor público ou do capital privado. Nesse contexto, o blended finance, modelo que combina recursos públicos, garantias multilaterais e capital privado em estruturas híbridas, emerge como o principal vetor de viabilização de projetos de grande escala.

Segundo dados do IDB Lab e da Convergence, publicados em janeiro de 2025 com base em informações de 2024, já foram estruturados 11 fundos de blended finance no Brasil, mobilizando cerca de US$ 180 milhões em capital privado. Embora esses veículos não se restrinjam exclusivamente ao saneamento, o volume sinaliza a maturidade crescente do ecossistema brasileiro para operar instrumentos financeiros híbridos.

O que é blended finance e por que ele importa para o saneamento?

Blended finance é uma abordagem de estruturação financeira na qual capital catalítico, tipicamente proveniente de bancos de desenvolvimento ou organismos multilaterais, é utilizado para reduzir o risco percebido de um projeto e, com isso, atrair investidores privados que de outra forma não participariam. Na prática, isso pode significar garantias parciais de crédito oferecidas por instituições como IFC ou BID Invest, linhas subordinadas de financiamento ou mecanismos de primeira perda que protegem o investidor privado de cenários adversos.

No saneamento, a lógica é particularmente relevante. Concessões e parcerias público-privadas (PPPs) no setor envolvem prazos longos, regulação complexa e riscos de demanda que tornam o financiamento puramente privado mais caro. A presença de garantias multilaterais comprime spreads, alonga prazos e viabiliza a entrada de fundos de pensão, gestoras de infraestrutura e investidores institucionais internacionais.

A universalização do saneamento básico no Brasil exigirá a estruturação contínua de projetos com participação privada e garantias multilaterais até 2033, conforme apontam análises do próprio marco regulatório. Esse horizonte temporal cria uma janela de mais de seis anos para a consolidação do modelo de blended finance como ferramenta estruturante do setor.

Como o perfil dos executivos influencia a estruturação de blended finance?

A complexidade dos instrumentos de blended finance demanda lideranças que dominem simultaneamente a gramática regulatória do setor público e a lógica de alocação de capital do setor privado. A trajetória de Helcio Tokeshi ilustra esse perfil. Ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo e sócio da IG4 Capital, Tokeshi acumula experiência em gestão fiscal, estruturação de projetos e governança de ativos de infraestrutura, incluindo passagem pela EBP e pelo conselho da Iguá Saneamento.

Em junho de 2026, conforme reportado pelo GRI Hub News e pelo Valor Econômico, Tokeshi foi nomeado CEO da Braskem, consolidando a tendência de migração de gestores com perfil técnico-regulatório para o comando de grandes ativos de infraestrutura e indústria. Essa movimentação é representativa de um fenômeno mais amplo: o mercado brasileiro de infraestrutura valoriza cada vez mais executivos que compreendem a interface entre funding público, garantias multilaterais e estruturação de capital privado.

A capacidade de dialogar com organismos multilaterais como IFC, BID Invest e KfW, entendendo seus critérios de elegibilidade, requisitos de salvaguardas ambientais e sociais e mecanismos de garantia, tornou-se uma competência estratégica para CEOs e C-Level de concessionárias e holdings de saneamento. Executivos que transitaram entre o setor público e o privado carregam o conhecimento institucional necessário para destravar essas estruturas.

O ecossistema de blended finance no Brasil: instrumentos e players

O ecossistema brasileiro de blended finance para infraestrutura envolve múltiplas camadas de capital e diferentes tipos de instrumentos. Em linhas gerais, a arquitetura financeira se organiza em três pilares.

O primeiro pilar é o capital catalítico público. Bancos de desenvolvimento e agências governamentais aportam recursos em condições abaixo do mercado ou oferecem garantias de crédito que reduzem o custo total do financiamento. Esses recursos funcionam como âncora para a estruturação de projetos.

O segundo pilar são as garantias multilaterais. Organismos como IFC, BID Invest e KfW disponibilizam instrumentos de mitigação de risco, incluindo garantias parciais de crédito, seguros contra risco político e linhas de co-financiamento. Esses mecanismos são particularmente relevantes em concessões de saneamento de longo prazo, nas quais a previsibilidade regulatória e tarifária é determinante para a atratividade do investimento.

O terceiro pilar é o capital privado. Fundos de infraestrutura, gestoras de private equity, fundos de pensão e investidores institucionais aportam equity e dívida em condições de mercado, atraídos pela redução de risco proporcionada pelos dois pilares anteriores. Os 11 fundos de blended finance já estruturados no Brasil, que mobilizaram cerca de US$ 180 milhões em capital privado segundo o IDB Lab e a Convergence, são exemplos concretos dessa dinâmica.

A interação entre esses três pilares cria o que especialistas chamam de "efeito de alavancagem catalítica": cada real de capital público ou garantia multilateral mobiliza múltiplos reais de investimento privado, ampliando significativamente a capacidade de financiamento do setor.

O marco regulatório como fundação do modelo

A Lei nº 14.026/2020, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, estabeleceu as condições institucionais para que o blended finance se tornasse viável no setor. Ao definir metas claras de universalização até 2033, abrir espaço para a participação privada via concessões e PPPs e criar incentivos à regionalização dos serviços, o marco regulatório reduziu a incerteza jurídica que historicamente afastava investidores internacionais e organismos multilaterais.

A previsibilidade regulatória é uma pré-condição para o funcionamento de instrumentos de blended finance. Garantias multilaterais, por definição, exigem contratos robustos, governança transparente e mecanismos de resolução de disputas que protejam os investidores. O marco legal de 2020 forneceu essa fundação normativa.

O desafio agora é de execução. Com o prazo de 2033 se aproximando, o setor precisa acelerar a estruturação de projetos que efetivamente utilizem blended finance como ferramenta de viabilização. O pipeline de concessões e PPPs em saneamento permanece extenso, e a demanda por instrumentos financeiros híbridos tende a crescer nos próximos anos.

Qual é o papel do GRI Institute nesse ecossistema?

O GRI Institute tem atuado como plataforma de articulação entre os diferentes players do ecossistema de blended finance em infraestrutura. Em junho de 2026, o GRI Institute realizou, em parceria com o PPI e a AESBE, o evento "Desafios do próximo ciclo de estruturação e implementação de projetos" em São Paulo, reunindo líderes do setor público, concessionárias, bancos de desenvolvimento e investidores institucionais.

Esse tipo de articulação é fundamental para a consolidação do blended finance no saneamento brasileiro. A estruturação de instrumentos financeiros híbridos exige confiança institucional entre as partes, alinhamento de expectativas sobre risco e retorno e conhecimento técnico compartilhado sobre os mecanismos disponíveis. Fóruns como os promovidos pelo GRI Institute aceleram esse processo ao criar espaços de diálogo qualificado entre tomadores de decisão.

O mercado brasileiro de saneamento está diante de uma oportunidade histórica. A combinação de um marco regulatório robusto, instrumentos multilaterais disponíveis e uma geração de executivos com fluência na interface público-privada cria as condições para que o blended finance se torne o modelo dominante de financiamento do setor. O volume de US$ 180 milhões já mobilizados em capital privado via fundos de blended finance, embora relevante, representa apenas o início de um ciclo que deverá se intensificar até 2033.

A questão central já passou da fase conceitual para a operacional. O setor sabe o que precisa ser feito. O desafio é escalar a execução, multiplicar os veículos financeiros e garantir que a gramática regulatória permaneça estável o suficiente para sustentar compromissos de longo prazo. O blended finance oferece a arquitetura. Cabe aos líderes do setor utilizá-la com a velocidade que a universalização exige.

Você precisa fazer login para baixar este conteúdo.