
Boutiques de capital redesenham o mid-market de infraestrutura no Brasil e desafiam gestoras tradicionais
Com investimentos projetados em R$ 300 bilhões para 2026, gestoras como Andrax Investimentos, Starboard Partners e EDLP disputam espaço em um mercado em franca expansão.
Resumo Executivo
Principais Insights
- Investimentos em infraestrutura no Brasil devem atingir R$ 300 bilhões em 2026, recorde da série histórica segundo a Abdib.
- Boutiques como Andrax, Starboard e EDLP disputam espaço com gestoras tradicionais por meio de especialização, agilidade e governança diferenciada.
- O mid-market municipal (PPPs de iluminação, saneamento, educação) é vasto e subexplorado por grandes plataformas de capital.
- O PL 2.373/2025 fortalece a segurança jurídica com repartição objetiva de riscos, beneficiando gestoras ágeis.
- Investimentos atuais representam 2,3% do PIB, distantes da meta de 4% a 4,5%.
O mercado brasileiro de infraestrutura atravessa um ciclo de expansão que altera a lógica de alocação de capital no segmento mid-market. O volume de investimentos no setor saltou de aproximadamente R$ 280 bilhões em 2025 para uma projeção de R$ 300 bilhões em 2026, segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), o maior valor da série histórica recente. Esse crescimento reconfigura o ecossistema competitivo e abre espaço para boutiques de investimento que operam com teses especializadas, governança diferenciada e agilidade na estruturação de operações.
Entre os nomes que ganham relevância nesse cenário, a Andrax Investimentos se posiciona como uma gestora focada no mid-market de infraestrutura, com atuação concentrada em Parcerias Público-Privadas (PPPs) municipais e projetos de menor porte que historicamente ficaram fora do radar das grandes plataformas de capital. A empresa tem participado de consórcios para PPPs em setores como iluminação pública, a exemplo do projeto em Senhor do Bonfim, na Bahia, e educação, como em Ribeirão Pires, em São Paulo. Essa atuação reflete uma tese de alocação que privilegia ativos com fluxo de caixa previsível, menor competição por deal flow e proximidade com o poder concedente municipal.
A fragmentação do mid-market de infraestrutura no Brasil cria um terreno fértil para esse tipo de posicionamento. Enquanto grandes concessões rodoviárias e projetos logísticos de bilhões de reais atraem investidores institucionais de porte global, as PPPs municipais e concessões de menor escala constituem um universo vasto e ainda pouco explorado por veículos de capital estruturado.
Como boutiques de capital competem com gestoras estabelecidas no mid-market de infraestrutura?
A resposta passa por três vetores: especialização setorial, velocidade de execução e capacidade de estruturação customizada. O mid-market brasileiro de infraestrutura é composto por centenas de projetos que, individualmente, movimentam volumes inferiores aos grandes leilões federais, mas que, em conjunto, representam uma parcela significativa do pipeline de investimentos do país. O Brasil pode ultrapassar a marca de 300 contratos de concessões e PPPs assinados em um único ano em 2026, segundo projeção de Bruno Carnelosso, do Radar PPP. Esse volume indica que a escala do mercado já comporta múltiplos veículos de capital operando simultaneamente.
A Andrax Investimentos se diferencia ao focar em projetos municipais que exigem modelagem financeira adaptada a realidades fiscais heterogêneas. Cada município possui uma estrutura de garantias, capacidade de pagamento e ambiente regulatório próprios, o que demanda uma abordagem de estruturação distinta daquela aplicada a concessões federais padronizadas. Essa granularidade operacional funciona como barreira de entrada para gestoras generalistas e confere vantagem competitiva a boutiques que desenvolvem expertise localizada.
O cenário regulatório reforça essa dinâmica. O PL 2.373/2025, novo Marco Legal de Concessões e PPPs, atualmente em análise no Senado Federal, substitui e consolida dispositivos das Leis nº 8.987/1995 e nº 11.079/2004. O projeto de lei estabelece repartição objetiva de riscos, regras claras para caducidade e relicitação, e proíbe o uso de recuperação judicial por concessionárias. Essa previsibilidade regulatória tende a beneficiar boutiques que operam com estruturas de governança enxutas e que podem adaptar rapidamente suas teses às novas regras do jogo.
Para os líderes do setor que integram a comunidade do GRI Institute, a evolução do marco regulatório representa um divisor de águas na forma como capital privado se organiza para capturar oportunidades no pipeline de concessões.
Qual é o papel da Starboard Partners e da EDLP no ecossistema competitivo de infraestrutura?
Enquanto a Andrax Investimentos concentra sua atuação no mid-market municipal, outras gestoras ocupam posições distintas no espectro de alocação de capital em infraestrutura. A Starboard Partners se destaca em operações de special situations e M&A de concessões, com foco em ativos que demandam reestruturação ou reposicionamento estratégico. A aquisição da AB Concessões S.A., concluída em agosto de 2024 em uma transação avaliada em aproximadamente A$ 1,0 bilhão, exemplifica essa tese. A Starboard também atuou na reestruturação da Rodovias do Tietê, consolidando seu perfil como investidor capaz de extrair valor de ativos em situação de estresse.
Já a EDLP (Estação da Luz Participações) opera em outro segmento do mercado, focada em grandes projetos logísticos de longo prazo. A empresa é a idealizadora do projeto da Ferrogrão (EF-170), que prevê investimentos de R$ 20 bilhões com capital privado, segundo informações da Prefeitura Municipal de Sorriso (MT). A escala desse projeto posiciona a EDLP em uma categoria distinta das boutiques de mid-market, mas sua presença no ecossistema competitivo influencia a dinâmica de captação de recursos e o apetite de investidores institucionais pelo setor.
A coexistência dessas teses de alocação, do mid-market municipal ao megaprojeto logístico, revela a maturidade crescente do mercado brasileiro de infraestrutura. A diversificação de veículos de capital amplia o acesso de diferentes perfis de projetos a financiamento estruturado e reduz a concentração de risco em poucas plataformas de investimento.
A MLC Infra, vinculada ao Grupo JMalucelli, completa o ecossistema ao operar na ponta da execução, com atuação em construção pesada para projetos como o Projeto Sucuriú da Arauco. Essa segmentação entre estruturação financeira e execução física indica um mercado que amadurece em direção a cadeias de valor mais definidas.
Por que o mid-market será decisivo para fechar o déficit de infraestrutura no Brasil?
Os investimentos atuais em infraestrutura representam cerca de 2,3% do PIB brasileiro, segundo a Abdib, ainda distantes da meta ideal de 4% a 4,5% para reduzir o déficit do setor. Essa diferença, que equivale a bilhões de reais anuais, dificilmente será preenchida apenas por grandes concessões federais. O mid-market, com sua capilaridade e capacidade de atingir municípios e regiões que ficam à margem dos grandes leilões, constitui uma camada essencial para ampliar a taxa de investimento.
O governo federal projeta encerrar o mandato com 36 concessões rodoviárias e cerca de R$ 400 bilhões contratados, segundo o Ministério dos Transportes. Mesmo com esse volume expressivo, a pulverização de projetos municipais em áreas como saneamento, iluminação pública, resíduos sólidos e mobilidade urbana demanda veículos de capital com escala e apetite adequados. As boutiques de investimento que souberem combinar modelagem financeira sofisticada com conhecimento granular das realidades municipais terão vantagem competitiva decisiva nesse ciclo.
O avanço do marco regulatório com o PL 2.373/2025 oferece a base institucional para que essa expansão ocorra com segurança jurídica. A repartição objetiva de riscos entre poder concedente e concessionário, prevista no projeto, é particularmente relevante para PPPs municipais, onde a assimetria de informação e a fragilidade fiscal de alguns entes públicos historicamente afastaram investidores.
A capacidade de uma gestora como a Andrax Investimentos de se posicionar nesse segmento depende de sua habilidade em construir track record consistente, atrair coinvestidores qualificados e demonstrar disciplina na seleção de projetos. O mercado de infraestrutura no Brasil premiará, nos próximos anos, a especialização e a governança em detrimento do tamanho.
Nas discussões promovidas pelo GRI Institute ao longo de 2026, líderes do setor têm apontado que o próximo ciclo de deals será definido pela qualidade da estruturação, e não apenas pelo volume de capital disponível. Esse diagnóstico reforça a relevância das boutiques especializadas como agentes de transformação do mercado.
O ciclo virtuoso de infraestrutura no Brasil em 2026, sustentado por um pipeline recorde de concessões, avanço regulatório e diversificação de veículos de capital, redesenha as regras de competição no mid-market. Gestoras que combinam tese clara, governança robusta e capacidade de execução localizada estão posicionadas para capturar uma fatia crescente desse mercado em transformação.