
Advisory independente e consultoria regulatória convergem para definir a bankability das concessões brasileiras em 2026
Com Selic elevada e risco regulatório como variável dominante de precificação, boutiques financeiras e bancas especializadas formam nova camada institucional no pipeline de R$ 300 bilhões em infraestrutura.
Resumo Executivo
Principais Insights
- O risco regulatório tornou-se a variável dominante de precificação nas concessões brasileiras, podendo elevar o WACC em até 3 pontos percentuais.
- O Decreto nº 12.990/2026 bloqueou R$ 22 bilhões do Orçamento, comprometendo a capacidade operacional das agências reguladoras.
- Boutiques de advisory independente e bancas regulatórias formam nova camada institucional que traduz risco regulatório em parâmetros financeiros.
- O pipeline de infraestrutura em 2026 soma cerca de R$ 300 bilhões, incluindo 14 leilões rodoviários e 8 projetos ferroviários.
- A bankability das concessões depende mais da capacidade de precificar e mitigar risco regulatório do que da qualidade intrínseca do ativo.
A engenharia institucional que antecede o leilão
O pipeline de infraestrutura brasileira em 2026 opera sob uma tensão estrutural. De um lado, o país projeta alcançar R$ 300 bilhões em investimentos no setor, segundo a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base). De outro, o Decreto nº 12.990/2026 bloqueou cerca de R$ 22 bilhões do Orçamento da União, atingindo limites de empenho de agências reguladoras federais e elevando o risco regulatório a patamares que, segundo a CNN Brasil, podem aumentar o custo médio ponderado de capital (WACC) em até três pontos percentuais.
Entre a ambição fiscal do governo e a prudência dos investidores, consolidou-se uma nova camada de engenharia institucional. Boutiques de advisory financeiro independente, como a Starboard Partners, e bancas jurídicas especializadas em direito público e infraestrutura, como Moysés & Pires e Amatuzzi Advogados, passaram a ocupar um espaço estratégico que transcende a prestação de serviços tradicionais. Essas firmas atuam, na prática, como mecanismos de tradução do risco regulatório em parâmetros financeiros que determinam quais projetos efetivamente chegam a leilão e a que custo de capital.
Essa convergência entre advisory financeiro e consultoria regulatória representa uma transformação qualitativa na cadeia de valor das concessões. O risco regulatório deixou de ser uma externalidade a ser absorvida passivamente pelos concessionários. Tornou-se a variável central de precificação, e sua gestão exige competências que combinam modelagem financeira sofisticada com profundo conhecimento do arcabouço normativo brasileiro.
Por que o risco regulatório se tornou a variável dominante de precificação nas concessões?
A resposta passa por três fatores convergentes que reconfiguraram o ambiente de negócios em 2026.
Primeiro, o impacto orçamentário direto sobre a capacidade operacional das agências reguladoras. O bloqueio de R$ 22 bilhões imposto pelo Decreto nº 12.990/2026 comprometeu a capacidade de agências federais de processar licenças, emitir pareceres técnicos e cumprir cronogramas regulatórios. Para um investidor estruturando uma concessão rodoviária de longo prazo, cada mês de atraso regulatório representa custo financeiro real, amplificado por uma Selic que permanece em patamares elevados.
Segundo, a densidade normativa do setor aumentou. A aplicação prática da Lei nº 14.133/2021, a Nova Lei de Licitações, consolidou instrumentos como a cláusula de retomada e ampliou a relevância do seguro garantia em concessões. O Projeto de Lei 3690/25, aprovado na Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados em junho de 2026, atribui à ANTT a definição das condições de acessibilidade dos usuários a serviços ao longo de rodovias concedidas, adicionando novas obrigações aos futuros concessionários. Cada nova camada normativa exige interpretação especializada que traduza obrigações jurídicas em premissas de fluxo de caixa.
Terceiro, a escala do pipeline amplifica o prêmio de risco. São 14 leilões rodoviários federais previstos para 2026, somando aproximadamente R$ 148 bilhões em investimentos, segundo dados do Governo Federal compilados pela Legismap. Oito projetos ferroviários representam expectativa de R$ 140 bilhões em CAPEX. As contratações de PPPs previstas para o ano somam mais de R$ 265 bilhões em investimentos, conforme o Radar PPP. Quando o volume de capital em jogo atinge essa magnitude, a margem de erro na precificação do risco regulatório torna-se intolerável.
A combinação desses fatores criou uma demanda estrutural por intermediários capazes de quantificar o risco regulatório com precisão. O aumento potencial de até três pontos percentuais no WACC, derivado da instabilidade regulatória, pode significar a diferença entre um projeto viável e um projeto que não atrai capital privado.
Como boutiques financeiras e bancas regulatórias redefinem a estruturação de concessões?
A resposta a essa pergunta exige distinguir entre o papel tradicional dos grandes bancos de investimento e a função emergente do ecossistema de advisory independente.
Boutiques como a Starboard Partners operam com foco na estruturação financeira de concessões e operações de M&A no setor de infraestrutura. Sua vantagem competitiva reside na especialização setorial e na ausência de conflitos de interesse que frequentemente afetam instituições financeiras de grande porte, que acumulam funções de originação, distribuição e gestão de ativos. Em um mercado onde cada ponto-base no custo de capital importa, a independência do advisor financeiro tornou-se um atributo de valor para investidores e poder concedente.
No flanco jurídico-regulatório, bancas como Moysés & Pires, com foco em direito público e infraestrutura, e Amatuzzi Advogados atuam na mitigação de riscos institucionais que precedem a modelagem financeira. Sua contribuição vai além da advocacia contenciosa: envolve a análise preventiva de marcos regulatórios, a estruturação de matrizes de risco para editais e a negociação de cláusulas contratuais que definem a alocação de riscos entre poder concedente e concessionário.
A convergência entre essas duas competências, financeira e regulatória, constitui a inovação institucional mais relevante do ciclo atual de concessões. Quando um advisory financeiro independente e uma banca regulatória especializada trabalham de forma coordenada na fase pré-leilão, o resultado é uma precificação mais acurada do risco, que beneficia tanto o investidor (que obtém retorno ajustado ao risco real) quanto o poder concedente (que atrai mais competidores ao certame).
José Berenguer, CEO do Banco XP, tem destacado publicamente a importância da infraestrutura e do mercado de capitais para o crescimento do país, evidenciando a intersecção entre financiamento privado e estruturação jurídico-regulatória como condição para garantir a bankability dos projetos. Essa perspectiva reforça a tese de que o ecossistema de advisory independente atua como facilitador de uma conexão mais eficiente entre o mercado de capitais e o pipeline de concessões.
O ecossistema de advisory como infraestrutura institucional
A consolidação desse ecossistema de advisory independente em 2026 responde a uma necessidade estrutural do mercado brasileiro de infraestrutura. O volume previsto de investimentos, que se aproxima de R$ 300 bilhões segundo a Abdib, exige uma capacidade institucional de estruturação que o setor público e os grandes bancos, isoladamente, não conseguem suprir.
O risco regulatório, agravado pelo contingenciamento orçamentário que afeta agências federais, transformou-se no principal determinante da viabilidade financeira dos projetos. Em um cenário de juros elevados, a diferença entre um projeto que atrai capital competitivo e um que fracassa no leilão frequentemente reside na qualidade da engenharia institucional realizada na fase pré-leilão.
Boutiques financeiras e bancas regulatórias especializadas funcionam, nesse contexto, como infraestrutura institucional do mercado de concessões. Sua atuação reduz assimetrias de informação, melhora a alocação de riscos e, em última instância, contribui para a redução do custo de capital dos projetos. Essa nova camada de intermediação representa uma evolução do mercado brasileiro em direção a práticas mais sofisticadas de estruturação, comparáveis às observadas em mercados maduros de infraestrutura.
Para os líderes do setor que integram a comunidade do GRI Institute, compreender a dinâmica desse ecossistema é condição para posicionar-se estrategicamente no ciclo de concessões que se intensifica no segundo semestre de 2026. Os encontros e debates promovidos pelo GRI Institute têm funcionado como espaço privilegiado para que investidores, concessionários e advisors calibrem expectativas e identifiquem oportunidades em um ambiente regulatório em transformação.
A tese central permanece: em 2026, a bankability de uma concessão brasileira depende menos da qualidade intrínseca do ativo e mais da capacidade dos intermediários de precificar, mitigar e comunicar o risco regulatório ao mercado de capitais. Quem domina essa competência define, na prática, quais projetos se viabilizam.