Executivos de ponte entre infraestrutura e incorporação redefinem grandes projetos no Brasil

De Eduardo Fischer na MRV a Helcio Tokeshi na Braskem, líderes com DNA de execução em larga escala redesenham a governança do real estate brasileiro.

16 de março de 2026Mercado Imobiliário
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

O mercado imobiliário brasileiro, com VGV de R$ 59,1 bilhões e mais de 127 mil lançamentos em São Paulo (out/2024–set/2025), atingiu escala e complexidade que demandam um novo perfil de liderança: executivos que combinam experiência em infraestrutura pesada, finanças públicas e incorporação. Nomes como Eduardo Fischer (MRV), Helcio Tokeshi, Jorge Goldenstein e Ely Wertheim (Secovi-SP) exemplificam esse arquétipo. Com o MCMV respondendo por 65% do mercado paulistano, a perspectiva de R$ 40 bilhões em crédito novo via Caixa em 2026 e incertezas regulatórias como a liminar do TJ-SP sobre zoneamento, a governança do setor exige líderes multissetoriais capazes de operar em múltiplas frentes simultaneamente.

Principais Insights

  • Executivos com experiência em infraestrutura pesada e finanças públicas assumem posições estratégicas no real estate brasileiro, redefinindo a governança do setor.
  • O MCMV representou 65% do mercado imobiliário de São Paulo entre outubro de 2024 e setembro de 2025, exigindo gestão de escala industrial.
  • A Caixa deve injetar R$ 40 bilhões em crédito novo para a classe média em 2026, com potencial de até R$ 190 bilhões até 2030.
  • A liminar do TJ-SP sobre a Lei de Zoneamento elevou a incerteza regulatória, valorizando líderes com experiência em licenciamento complexo.
  • A convergência entre infraestrutura e incorporação consolidou-se como condição de competitividade para grandes incorporadoras.

O perfil executivo que o mercado imobiliário brasileiro passou a exigir

O mercado imobiliário brasileiro atravessa um ciclo de complexidade sem precedentes recentes. Com 127.237 novos lançamentos e 110.947 unidades vendidas na cidade de São Paulo entre outubro de 2024 e setembro de 2025, segundo dados do Secovi-SP, o setor opera em volumes que exigem capacidades de gestão comparáveis às de grandes obras de infraestrutura. O Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 59,1 bilhões registrado no mesmo período na capital paulista confirma uma escala que transcende a lógica tradicional da incorporação residencial.

Nesse cenário, um perfil específico de liderança ganha protagonismo: executivos cuja trajetória profissional combina experiência em infraestrutura pesada, finanças públicas e desenvolvimento imobiliário corporativo. São profissionais que transitam com fluência entre a disciplina de execução de megaprojetos e a sofisticação financeira da alocação de capital em real estate. O GRI Institute tem acompanhado essa tendência nos seus fóruns e encontros setoriais, onde a presença crescente desse perfil reflete uma transformação estrutural na governança do setor.

Eduardo Fischer Teixeira de Souza, Helcio Tokeshi, Jorge Goldenstein e Ely Wertheim representam variações desse arquétipo. Cada um à sua maneira, esses líderes ilustram como a convergência entre infraestrutura e incorporação deixou de ser exceção para se tornar um padrão emergente na cúpula das principais organizações do setor.

Por que executivos com DNA de infraestrutura assumem posições estratégicas no real estate?

A resposta reside na própria transformação do mercado. O programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) representou 65% de todo o mercado imobiliário de São Paulo no período de outubro de 2024 a setembro de 2025, conforme levantamento do Secovi-SP publicado pela Exame. Operar nessa escala, com margens apertadas e alta dependência regulatória, demanda competências que historicamente pertenciam ao universo da engenharia pesada: gestão de cadeia de suprimentos em volume industrial, negociação com o poder público, capacidade de execução simultânea em múltiplas frentes e disciplina de capital rigorosa.

Eduardo Fischer Teixeira de Souza encarna esse perfil com clareza. Co-CEO da MRV Engenharia e Participações S.A., a maior construtora residencial do Brasil, Fischer foi reeleito para o cargo em maio de 2025, segundo informações da própria MRV. Sua permanência à frente de uma operação que combina escala industrial com sensibilidade ao ciclo de crédito habitacional demonstra como o mercado valoriza líderes capazes de operar simultaneamente nos registros da construção civil de grande porte e da gestão financeira de companhias listadas.

A trajetória de Helcio Tokeshi oferece outra dimensão desse fenômeno. Ex-Secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Tokeshi migrou para o setor privado como Managing Director da IG4 Capital, gestora focada em infraestrutura. Em fevereiro de 2026, renunciou ao cargo de CEO da CLI (Corredor Logística e Infraestrutura) para assumir a liderança da Braskem, conforme reportado pelo Brazil Stock Guide e Brasil 247. Esse movimento revela como executivos com experiência na interface público-privada encontram no setor de infraestrutura e real estate um campo natural de atuação, onde a compreensão de marcos regulatórios e a capacidade de articulação institucional são ativos estratégicos decisivos.

A liderança com experiência em infraestrutura permite antecipar riscos regulatórios que executivos puramente financeiros tendem a subestimar. Essa é uma competência que se tornou crítica no atual ambiente de negócios brasileiro.

Como a complexidade regulatória acelera a demanda por líderes com perfil multissetorial?

O ambiente regulatório do mercado imobiliário brasileiro adicionou uma camada de incerteza que reforça a relevância desse perfil executivo. No final de fevereiro de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo emitiu uma liminar que suspendeu provisoriamente a emissão de alvarás para demolições e construção de novos prédios na capital, após questionamentos do Ministério Público de São Paulo sobre o processo de revisão da Lei de Zoneamento e do Plano Diretor. Para incorporadoras com pipelines extensos de lançamentos, essa paralisação representa um risco operacional de magnitude significativa.

Navegar esse tipo de turbulência exige líderes que compreendam tanto a mecânica jurídico-regulatória quanto o impacto financeiro de atrasos em cronogramas de obra. Jorge Goldenstein, Diretor Proprietário da Jotagê Engenharia Comércio e Incorporações, empresa com mais de 40 anos de atuação em construção civil, infraestrutura urbana e desenvolvimento imobiliário, segundo registros do GRI Institute, representa o perfil de executivo que construiu essa competência dupla ao longo de décadas de operação em um mercado onde regulação e execução são indissociáveis.

A capacidade de ler simultaneamente o cenário regulatório, o ciclo de crédito e a dinâmica operacional de canteiros de obra define o executivo que o mercado passou a buscar. Profissionais que dominam apenas uma dessas dimensões encontram dificuldade crescente para liderar organizações expostas a todas elas.

Ely Wertheim, presidente do Secovi-SP, adiciona uma perspectiva institucional a essa análise. Segundo projeções divulgadas por Wertheim, o novo modelo de crédito imobiliário da Caixa Econômica Federal deve injetar aproximadamente R$ 40 bilhões em dinheiro novo para a classe média no primeiro ano de teste, em 2026. Em horizonte mais amplo, o potencial estimado é de R$ 180 bilhões a R$ 190 bilhões ao longo de cinco anos, entre 2026 e 2030. Volumes dessa magnitude demandam governança institucional robusta nas incorporadoras que absorverão esses recursos, o que naturalmente favorece líderes com experiência em gestão de operações complexas e capital regulado.

Um fluxo de crédito da ordem de R$ 40 bilhões em um único ano exige das incorporadoras uma capacidade de absorção e execução que apenas líderes com experiência em operações de grande escala conseguem garantir.

O que diferencia o executivo de ponte dos líderes tradicionais do setor?

O executivo tradicional do mercado imobiliário brasileiro construiu carreira dentro do próprio setor, dominando o ciclo de incorporação, da aquisição de terrenos ao repasse de unidades financiadas. Esse perfil continua relevante, mas deixou de ser suficiente para liderar organizações que operam na interseção entre habitação social em escala industrial, logística e infraestrutura urbana, e mercado de capitais.

O executivo de ponte traz três competências distintivas. Primeiro, experiência em projetos com ciclos longos e alta intensidade de capital, característica herdada do universo da infraestrutura. Segundo, familiaridade com a interface entre setor público e privado, essencial em um mercado onde o MCMV responde por 65% das vendas em São Paulo. Terceiro, capacidade de operar em ambientes de alta regulação, onde mudanças normativas podem alterar a viabilidade de projetos inteiros.

A convergência entre infraestrutura e real estate deixou de ser uma tendência emergente para se consolidar como condição de competitividade. Incorporadoras que não adaptarem sua governança a essa realidade enfrentarão desvantagem estrutural na disputa por capital e por projetos de maior complexidade.

Os encontros e eventos promovidos pelo GRI Institute têm servido como espaço privilegiado para observar essa convergência em tempo real. Nos fóruns dedicados ao mercado imobiliário e à infraestrutura, a presença simultânea de executivos oriundos de ambos os setores deixou de ser novidade para se tornar regra. A comunidade GRI, composta por líderes que definem a alocação de capital em real estate e infraestrutura no Brasil e globalmente, reflete essa transformação na composição de seus membros e na pauta de suas discussões.

Implicações para o ciclo 2026-2030

O mercado imobiliário brasileiro entra em um ciclo marcado por dualidades. O segmento de habitação popular opera aquecido, impulsionado pelo MCMV reformulado em 2023 com novas faixas de financiamento, incluindo a Faixa 4 voltada para a classe média baixa. O alto padrão mantém dinamismo próprio. O médio padrão, contudo, enfrenta pressão dos juros elevados, com a Selic em patamares restritivos.

Nesse contexto, a perspectiva de R$ 40 bilhões em crédito novo para a classe média via Caixa Econômica Federal em 2026, conforme projeção do Secovi-SP, pode representar um ponto de inflexão para o segmento intermediário. Capturar essa oportunidade exigirá das incorporadoras velocidade de aprovação de projetos, eficiência construtiva e disciplina na alocação de capital, três atributos que definem o repertório do executivo com passagem pela infraestrutura.

A liminar do TJ-SP sobre a Lei de Zoneamento acrescenta uma variável de risco que torna ainda mais valiosa a experiência em gestão de incerteza regulatória. Executivos que já navegaram processos de licenciamento ambiental em obras de infraestrutura, por exemplo, possuem um repertório aplicável à nova realidade da incorporação em São Paulo.

O fenômeno dos executivos de ponte entre infraestrutura e incorporação não é uma moda passageira. É a resposta orgânica de um mercado que atingiu escala, complexidade e exposição regulatória incompatíveis com modelos de governança anteriores. Eduardo Fischer Teixeira de Souza à frente da MRV, Helcio Tokeshi transitando entre gestão pública e privada, Jorge Goldenstein acumulando décadas de atuação em construção e infraestrutura, Ely Wertheim articulando a agenda institucional do setor: cada trajetória confirma que o futuro do real estate brasileiro será definido por líderes capazes de operar em múltiplos registros simultaneamente.

O GRI Institute continuará acompanhando e promovendo o debate sobre essa transformação na liderança do setor, conectando os executivos e investidores que moldam o mercado imobiliário e de infraestrutura no Brasil e no mundo.

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