
Executivos híbridos redesenham a demanda corporativa por data centers no Brasil no ciclo 2026-2028
A convergência entre ocupantes e investidores define um novo vetor de precificação em um mercado que deve receber R$ 252,4 bilhões até 2029
Resumo Executivo
Principais Insights
- O Brasil concentra 48% da capacidade instalada de data centers na América Latina e 71% da capacidade em construção.
- Investimentos estimados em R$ 252,4 bilhões entre 2026 e 2029, com crescimento projetado de 17% ao ano até 2030.
- Executivos híbridos — que transitam entre tecnologia, operações e infraestrutura — são co-definidores do valor imobiliário dos ativos.
- Contratos de ocupação de longo prazo determinam o cap rate e o valuation dos data centers.
- Restrição de crédito e incerteza regulatória (PL 278/2026 e PL 1680/2025) favorecem ocupantes com maior poder de negociação.
O mercado brasileiro de data centers atravessa um ciclo de expansão sem precedentes. Com projeção de crescimento de 17% ao ano até 2030, segundo a Moody's Ratings, e investimentos estimados em R$ 252,4 bilhões entre 2026 e 2029, conforme dados da BNamericas, o país consolida sua posição como epicentro latino-americano de infraestrutura digital. Contudo, a maior parte da análise setorial concentra-se no lado da oferta: capacidade instalada, pipeline energético, precificação de ativos. O vetor mais determinante para o valuation desses empreendimentos permanece subexplorado: a demanda corporativa e os executivos que a articulam.
São profissionais com trajetórias que transitam entre tecnologia, logística, operações e real estate. Eles definem contratos de colocation e build-to-suit, negociam SLAs de disponibilidade e latência, e, ao fazê-lo, estabelecem os parâmetros reais de rentabilidade dos ativos. Compreender esse perfil executivo é condição para antecipar a dinâmica de preços do setor nos próximos anos.
Quem são os executivos híbridos que definem o valor dos data centers brasileiros?
A expressão "executivo híbrido" designa líderes que combinam competências de infraestrutura física, gestão operacional e estratégia de tecnologia. Em um setor onde o contrato de ocupação de longo prazo determina o cap rate do ativo, esses profissionais exercem influência direta sobre a precificação imobiliária, mesmo quando suas posições formais não pertencem ao mercado de real estate.
Rafael Szarf ilustra esse perfil. Executivo com experiência consolidada em operações e logística, Szarf assumiu a presidência da Loggi com o mandato de liderar a execução operacional e acelerar o caminho da empresa para o breakeven, conforme reportado pelo NeoFeed em maio de 2026. A relevância de sua trajetória para o ecossistema de data centers reside na interseção entre infraestrutura física e operações digitais: empresas de logística de alta escala são grandes demandantes de capacidade computacional, e suas decisões de localização, redundância e conectividade impactam diretamente os projetos de colocation em mercados como São Paulo e Campinas.
O fenômeno transcende casos individuais. Líderes de fintechs, bancos digitais, operadores logísticos e hyperscalers compartilham uma característica comum: operam na fronteira entre o consumo de infraestrutura digital e a definição de seus parâmetros econômicos. Quando um CEO de uma plataforma de tecnologia assina um contrato de 10 ou 15 anos com um operador de data center, ele fixa a receita previsível que sustenta o valuation do ativo, determina a viabilidade de expansões futuras e sinaliza ao mercado de capitais a qualidade creditícia do empreendimento.
Essa lógica transforma o ocupante corporativo em co-definidor do valor imobiliário. O data center deixa de ser apenas um ativo de infraestrutura e passa a funcionar como um instrumento financeiro cujo rendimento depende da qualidade e da durabilidade dos contratos de demanda.
Como a expansão da oferta interage com a sofisticação da demanda no ciclo 2026-2028?
O Brasil concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers em operação na América Latina e 71% de toda a capacidade atualmente em construção, segundo relatório da JLL publicado em março de 2026. O mercado interno, avaliado em US$ 2,95 bilhões em 2025, deve atingir US$ 3,38 bilhões em 2026, de acordo com a Mordor Intelligence.
Os movimentos recentes de expansão confirmam a escala do ciclo. A Ascenty anunciou investimentos para construir e expandir quatro data centers no estado de São Paulo, adicionando pelo menos 150 MW de capacidade, conforme divulgado pelo LatAm Tech Weekly em maio de 2026. A Tecto, empresa de data centers do grupo V.tal, comunicou um plano que inclui cinco novos projetos previstos para o ano, segundo o TeleSíntese.
A magnitude desses investimentos eleva a relevância estratégica do lado da demanda. Cada megawatt adicional de capacidade instalada precisa de contratos de ocupação que justifiquem o desembolso de capital. A taxa de absorção desse novo inventário depende diretamente da sofisticação dos ocupantes corporativos, de sua capacidade de firmar compromissos de longo prazo e de sua disposição para aceitar estruturas de preço que remunerem adequadamente o desenvolvedor.
O perfil do demandante brasileiro evoluiu significativamente. Não se trata apenas de hyperscalers globais, como AWS, Google e Microsoft, que negociam contratos de centenas de megawatts. Bancos digitais, fintechs, empresas de inteligência artificial e operadores logísticos de grande porte compõem uma camada intermediária de demanda que valoriza proximidade, baixa latência e integração com redes de fibra óptica. Essa diversificação da base de ocupantes reduz o risco de concentração e amplia o espectro de cap rates praticáveis.
A Conata Engenharia, que atua no mercado de infraestrutura brasileiro com presença em projetos de infraestrutura digital e data centers, representa o elo de execução nessa cadeia. Empresas de engenharia com backlog expressivo em infraestrutura digital ganham protagonismo à medida que a velocidade de entrega de novos projetos se torna variável competitiva decisiva.
Qual o impacto do ambiente regulatório e do crédito sobre a precificação dos ativos?
O arcabouço regulatório brasileiro para data centers permanece em construção, e sua evolução tem efeito direto sobre o custo de implantação e, consequentemente, sobre a atratividade do setor para ocupantes e investidores.
O PL 278/2026, substitutivo da MP 1.318/2025, institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata). O mecanismo prevê a isenção de PIS/Pasep, Cofins, IPI e imposto de importação para equipamentos de infraestrutura digital. Aprovado na Câmara dos Deputados, o projeto aguarda votação no Senado. A expiração da MP original, em fevereiro de 2026, gerou um período de insegurança jurídica que afetou decisões de investimento e evidenciou a dependência do setor em relação à previsibilidade tributária.
Paralelamente, o PL 1680/2025 propõe a Política Nacional de Data Centers, com foco em eficiência energética e hídrica e na proteção de infraestruturas críticas para a soberania digital. A tramitação na Câmara dos Deputados sinaliza que o legislativo reconhece a dimensão estratégica do setor, embora o ritmo de aprovação ainda gere incerteza para investidores com horizonte de deploy imediato.
No plano financeiro, o ambiente de crédito adiciona uma camada de complexidade. Vinicius Mastrorosa, sócio da Nova Milano Capital, destacou o descasamento no financiamento imobiliário brasileiro decorrente da queda no saldo das cadernetas de poupança desde 2020, conforme entrevista ao Market Makers em maio de 2026. Esse diagnóstico, embora formulado para o mercado imobiliário amplo, tem implicações diretas para data centers: projetos que dependem de financiamento local enfrentam custos de capital mais elevados, o que pressiona os operadores a buscar contratos de demanda mais robustos para viabilizar a equação financeira.
A convergência entre restrição de crédito e exigência regulatória favorece os ocupantes corporativos com maior capacidade de negociação. Empresas que oferecem contratos longos, com garantias sólidas, obtêm condições preferenciais de precificação, pois reduzem o risco percebido pelo desenvolvedor e por seus financiadores.
A convergência como tese de investimento
O ciclo 2026-2028 marca uma inflexão na forma como o mercado brasileiro de data centers atribui valor aos ativos. A precificação deixa de ser função exclusiva do custo de construção e da disponibilidade energética e passa a incorporar, de forma estrutural, a qualidade da demanda corporativa.
Executivos que transitam entre tecnologia, operações e infraestrutura física desempenham papel central nessa equação. Suas decisões de localização, redundância e compromisso contratual definem a receita previsível que sustenta o valuation do ativo.
Para investidores e desenvolvedores, a implicação é clara: a análise de viabilidade de um data center exige compreender com profundidade o perfil do ocupante, sua capacidade creditícia e seu horizonte estratégico. O ativo físico é condição necessária, mas a demanda qualificada é condição suficiente para a geração de valor.
O GRI Institute tem acompanhado essa transformação por meio de encontros dedicados à infraestrutura digital, reunindo líderes de ambos os lados da transação, desde desenvolvedores e investidores até ocupantes corporativos e engenharias especializadas. Essa interlocução entre oferta e demanda, conduzida em ambiente de alto nível, é essencial para que o mercado supere a assimetria informacional que ainda separa quem constrói de quem ocupa.
O Brasil dispõe dos fundamentos para se consolidar como hub global de data centers: energia renovável abundante, localização estratégica e uma base crescente de demanda digital. A variável que determinará o sucesso do ciclo 2026-2028 não é apenas a capacidade de construir, mas a capacidade de atrair e reter os ocupantes certos, liderados por executivos que compreendem simultaneamente a linguagem do bit e a do metro quadrado.