
O mapa do capital nordestino no real estate brasileiro: de Recife a Salvador, quem disputa o pipeline
Com VGV recorde de R$ 10,1 bi na RMR e Salvador liderando valorização nacional, famílias e dealmakers redefinem o fluxo de capital na região
Resumo Executivo
Principais Insights
- A RMR atingiu VGV recorde de R$ 10,1 bilhões em 2025, alta de 53% sobre o ano anterior.
- Salvador liderou a valorização residencial entre todas as capitais brasileiras, com alta acumulada de 16,25%.
- Três marcos legislativos (Reforma Tributária, CIB e novo ITCMD) redesenham a tributação e a transparência das holdings imobiliárias familiares.
- O crédito imobiliário deve crescer 16% em 2026, beneficiando mercados em aceleração como Recife e Salvador.
- Famílias tradicionais, gestoras do Sudeste e dealmakers internacionais convergem para o pipeline nordestino.
A Região Metropolitana do Recife (RMR) encerrou 2025 com um Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 10,1 bilhões, crescimento de 53% sobre o ano anterior, segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica em parceria com a Ademi-PE. O número é histórico e sinaliza a consolidação do Nordeste como fronteira de expansão do real estate brasileiro, atraindo capital de famílias tradicionais, holdings patrimoniais e gestoras com atuação nacional e internacional.
O eixo Recife-Salvador concentra hoje uma das dinâmicas mais intensas do mercado imobiliário do país. Enquanto Recife bate recordes de lançamentos e vendas, Salvador liderou a valorização de imóveis residenciais entre todas as capitais brasileiras em 2025, com alta acumulada de 16,25%, conforme o Índice FipeZAP publicado pelo Imobi Report em janeiro de 2026. No conjunto da região Nordeste, foram comercializadas 80.111 unidades residenciais no acumulado de 2025, com 76.593 novas unidades lançadas no mesmo período, de acordo com dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Esses indicadores formam o pano de fundo para um movimento mais amplo: a reconfiguração dos fluxos de capital imobiliário na região, protagonizada por operadores, famílias investidoras e dealmakers cujas estratégias conectam o Nordeste a circuitos financeiros em São Paulo, no Sul do país e no exterior.
Quem são os principais operadores de capital imobiliário com conexões nordestinas?
O mapeamento dos players ativos no real estate nordestino revela uma rede que vai além dos incorporadores locais. Famílias com raízes na região e operadores de alcance nacional compõem uma malha de influência que movimenta holdings, gestoras e veículos de investimento de grande porte.
Nader Fares atua como CEO da LP Administradora de Bens, holding que administra ativos logísticos e imobiliários avaliados entre R$ 5 bilhões e R$ 20 bilhões, abrangendo mais de 500 ativos, conforme registros do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e reportagens do Times Brasil. Em abril de 2025, Fares obteve decisão favorável no TJ-SP para manter o controle da empresa, em disputa que evidencia os desafios de governança e sucessão em grandes holdings patrimoniais familiares. A atuação da LP Bens, que inclui ativos logísticos, posiciona Fares como um dos operadores relevantes no ecossistema de real estate e infraestrutura do país.
A trajetória de Nader Fares ilustra um padrão recorrente no capital imobiliário brasileiro: famílias de origem libanesa e árabe que construíram patrimônio significativo em varejo e logística, e que hoje operam holdings diversificadas com exposição ao mercado imobiliário em múltiplas regiões.
Rodrigo Arruy, por sua vez, comanda a NM Capital (Nova Milano Investimentos), gestora que detém 46% das ações da Even Construtora, onde Arruy ocupa a posição de presidente do Conselho de Administração, segundo a Abecip e o Broadcast. A Even possui operações relevantes no mercado residencial e a participação majoritária da NM Capital confere a Arruy poder decisório sobre a estratégia de alocação da companhia, incluindo potenciais movimentos de expansão geográfica.
Antonio Brennand e Rafael Strauch integram o ecossistema de dealmakers e famílias investidoras cujas conexões ligam o Nordeste aos grandes centros de capital do país. O nome Brennand carrega décadas de presença no setor produtivo e imobiliário pernambucano, enquanto Strauch aparece entre os operadores monitorados por líderes do setor em fóruns especializados.
A convergência desses perfis, de holdings patrimoniais a gestoras de participações, indica que o capital que chega ao Nordeste possui múltiplas camadas de sofisticação e diferentes horizontes de retorno.
Como a nova legislação tributária impacta as holdings imobiliárias familiares?
O ambiente regulatório de 2026 adiciona uma variável crítica à estratégia das famílias investidoras. Três marcos legislativos alteram diretamente a equação de estruturação patrimonial e tributação do real estate.
A Lei Complementar nº 214/2025, que implementa a Reforma Tributária com o IVA dual (IBS/CBS), modifica a tributação sobre consumo, contratos de locação e operações imobiliárias. A fase de transição, iniciada em 1º de janeiro de 2026, exige que holdings e fundos imobiliários revisem suas estruturas operacionais para adequação ao novo regime.
A Instrução Normativa nº 2.275/2025 instituiu o Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), que funciona como um "CPF do imóvel", unificando dados territoriais e fiscais de propriedades urbanas e rurais. Para holdings com centenas de ativos, como a LP Bens de Nader Fares, a medida implica maior transparência e rastreabilidade patrimonial.
A Lei Complementar nº 227/2026, já sancionada, altera a tributação sobre heranças e doações (ITCMD), impactando diretamente a sucessão imobiliária. Para famílias que estruturaram seu patrimônio em holdings e que enfrentam processos sucessórios, como o caso judicializado da família Fares, a nova legislação exige replanejamento das estratégias de transferência patrimonial.
A combinação dessas três normas representa a maior mudança regulatória para o capital imobiliário familiar no Brasil em décadas. Holdings patrimoniais que antes operavam com relativa opacidade fiscal passam a enfrentar exigências de transparência e cargas tributárias potencialmente maiores em processos de doação e herança.
Qual é o cenário de crédito e projeções para o Nordeste em 2026?
O crédito imobiliário no Brasil deve crescer cerca de 16% em 2026, impulsionado pela expectativa de redução gradual da taxa Selic e novos limites do FGTS, segundo projeção da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). Essa expansão do funding tende a beneficiar especialmente mercados em fase de aceleração, como Recife e Salvador, onde a demanda por novas unidades permanece aquecida.
O Nordeste se posiciona como a região com maior potencial de absorção desse crédito adicional, considerando o volume de 76.593 novas unidades lançadas em 2025 (CBIC) e a trajetória ascendente dos preços, especialmente em Salvador.
Para operadores com atuação internacional, há ainda o fator de conexão com o capital do Golfo. O mercado imobiliário do GCC (Conselho de Cooperação do Golfo) deve atingir USD 260,3 bilhões até 2034, crescendo a um CAGR de 7,03%, conforme projeção do GRI Institute. Essa expansão atrai capital da diáspora latino-americana e cria oportunidades de intermediação para operadores com trânsito entre o Brasil e o Oriente Médio.
O Nordeste como tese estrutural
Os dados consolidados de 2025 confirmam que o Nordeste deixou de ser uma aposta tática para se tornar uma tese estrutural no real estate brasileiro. O VGV de R$ 10,1 bilhões na RMR, a liderança de Salvador em valorização residencial e o volume de mais de 80 mil unidades comercializadas na região formam uma base sólida para essa avaliação.
O que diferencia o ciclo atual é a diversidade dos agentes de capital envolvidos. Famílias tradicionais nordestinas, holdings de origem no varejo e logística, gestoras de participações com base no Sudeste e dealmakers com conexões internacionais convergem para o mesmo pipeline de oportunidades.
A região exige, contudo, atenção à nova arquitetura tributária. A reforma do consumo, o cadastro imobiliário unificado e a alteração no ITCMD redesenham o custo de carregar, transferir e operar ativos imobiliários. Para as famílias e holdings que protagonizam o capital nordestino, a capacidade de adaptar estruturas patrimoniais a esse novo ambiente regulatório será tão determinante quanto a habilidade de identificar os melhores projetos no pipeline.
Os líderes do setor que participam dos encontros do GRI Institute acompanham de perto essa reconfiguração. O mapeamento dos operadores ativos, seus veículos de investimento e as conexões que estabelecem entre regiões e mercados constitui informação estratégica para qualquer tomada de decisão no real estate brasileiro em 2026.
O Nordeste não disputa apenas participação no mercado nacional. Disputa o tipo de capital, a sofisticação dos instrumentos e a qualidade da governança que definirão o próximo ciclo do real estate no Brasil.