
Ruy Kameyama, Guilherme Paes e Fábio Russo Corrêa: os executivos que definem o mapa do capital em infraestrutura
Movimentações recentes de líderes corporativos revelam a reconfiguração do ecossistema de project finance no Brasil, que deve atingir R$ 300 bilhões em investimentos em 2026.
Resumo Executivo
Principais Insights
- Investimentos em infraestrutura no Brasil devem atingir R$ 300 bilhões em 2026, alta de 7% sobre 2025, segundo a ABDIB.
- 84% do capital investido em infraestrutura em 2025 veio do setor privado (R$ 234,9 bilhões).
- Debêntures incentivadas somaram R$ 74,5 bilhões só no 1º semestre de 2025, superando todo o ano de 2023.
- Pipeline inclui R$ 85 bilhões em rodovias, R$ 60 bilhões em transmissão de energia e US$ 15 bilhões em data centers.
- Executivos com experiência em ativos reais são o recurso mais escasso do setor.
A saída de Ruy Kameyama do cargo de CEO da unidade Fashion & Lifestyle da Azzas 2154, anunciada em abril de 2026, reacendeu o debate sobre o próximo passo de um dos executivos mais observados pelo mercado de capitais brasileiro. Com histórico de liderança à frente da BR Malls, Kameyama construiu reputação na gestão de ativos imobiliários de grande escala, competência que o posiciona naturalmente na fronteira entre real estate e infraestrutura, dois setores que compartilham estruturas de capital cada vez mais convergentes.
A movimentação de Kameyama ocorre em um momento de inflexão para o financiamento de projetos no Brasil. Os investimentos em infraestrutura somaram R$ 280 bilhões em 2025, com R$ 234,9 bilhões provenientes do setor privado, um aumento de 6% em relação a 2024, segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB). Para 2026, a entidade projeta um crescimento adicional de 7%, com o volume total alcançando R$ 300 bilhões (cerca de US$ 56 bilhões), impulsionado principalmente por rodovias e saneamento.
É nesse cenário de capital abundante e projetos de longo prazo que o perfil de gestores com experiência em ativos reais ganha relevância estratégica. Executivos capazes de estruturar governança, captar funding sofisticado e operar concessões de grande porte tornaram-se o recurso mais escasso da cadeia de infraestrutura brasileira.
Quem são os executivos que lideram a nova geração de project finance em infraestrutura?
O ecossistema de financiamento de infraestrutura no Brasil é moldado por um número relativamente restrito de tomadores de decisão. Em 2026, três nomes concentram atenção especial do mercado por razões distintas, mas complementares.
Ruy Kameyama encerra um ciclo na Azzas 2154 após consolidar uma trajetória marcada pela gestão de portfólios complexos de ativos físicos. Sua passagem como CEO da BR Malls, uma das maiores operadoras de shopping centers da América Latina, demonstrou capacidade de execução em estruturas de capital intensivo, governança de múltiplos stakeholders e geração de valor em ativos de longa maturação. Essas competências são diretamente transferíveis para o universo de concessões e PPPs, onde a sofisticação da gestão de ativos determina a rentabilidade dos projetos. Embora Kameyama não tenha atuado diretamente em infraestrutura pesada, o mercado acompanha com atenção seus próximos movimentos, dado o volume crescente de capital institucional que transita entre real estate e infra.
Guilherme Paes, MD Partner e Head de Investment Banking do BTG Pactual, ocupa posição central na arquitetura financeira de grandes projetos. A divisão de Private Capital do BTG Pactual, que inclui a vertical de infraestrutura, administra cerca de US$ 5 bilhões em ativos sob gestão, segundo dados do próprio banco e do GRI Institute. Paes lidera a originação e estruturação de operações que conectam investidores institucionais a concessões, transmissão de energia e logística. Sua atuação reflete uma tendência consolidada: o protagonismo dos bancos de investimento brasileiros na intermediação de project finance de grande porte, especialmente em um ambiente de debêntures incentivadas em expansão acelerada.
Fábio Russo Corrêa assumiu a presidência da Arteris em abril de 2026, passando a gerir mais de 2,6 mil quilômetros de rodovias após 12 anos de atuação na Motiva, conforme reportado pela Agência iNFRA. A nomeação sinaliza a valorização de executivos com experiência operacional profunda em concessões rodoviárias, segmento que deve receber R$ 85 bilhões em novas concessões nos próximos anos, de acordo com estimativas do Bradesco BBI. Corrêa chega à Arteris em um momento em que a empresa precisa equilibrar investimentos em manutenção, expansão de capacidade e renegociação de contratos com o poder concedente.
Esses três perfis ilustram as diferentes engrenagens do project finance contemporâneo: a gestão de ativos reais, a intermediação de capital e a operação de concessões. Juntos, compõem um mapa de liderança que o GRI Institute acompanha de forma sistemática por meio de seus encontros reservados entre C-level executives do setor.
Qual o tamanho do pipeline de project finance no Brasil em 2026?
O volume de capital disponível para infraestrutura no Brasil atingiu um patamar sem precedentes. A emissão de debêntures incentivadas, instrumento exclusivo para projetos de infraestrutura, alcançou R$ 74,5 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025, superando o total emitido ao longo de todo o ano de 2023, segundo levantamento do Bradesco BBI publicado pela LatinFinance. Esse dado revela não apenas a liquidez do mercado, mas a maturidade institucional dos instrumentos de financiamento de longo prazo no país.
O pipeline de concessões previsto reforça a dimensão do ciclo atual. Além dos R$ 85 bilhões em rodovias, o Bradesco BBI estima R$ 60 bilhões em investimentos em transmissão de energia para os próximos anos. A infraestrutura digital adiciona uma camada extra de demanda: o setor de data centers deve atrair US$ 15 bilhões em investimentos entre 2026 e 2029, segundo a mesma instituição, embora com grau de confiança moderado dada a volatilidade das decisões de alocação nesse segmento.
O marco legal que sustenta essa expansão permanece ancorado nas Leis 8.987/1995 e 9.074/1995, que regem as concessões tradicionais pagas pelo usuário. Essas normas continuam sendo a espinha dorsal jurídica para a estruturação de financiamento de projetos em rodovias, aeroportos, portos e energia, oferecendo a previsibilidade contratual que investidores de longo prazo exigem.
A escala dos projetos em estruturação exige modelagem financeira cada vez mais sofisticada. Operações de project finance non recourse, nas quais o risco de crédito recai sobre o fluxo de caixa do projeto e não sobre o balanço do patrocinador, tornaram-se o padrão para grandes concessões. Esse modelo demanda equipes de estruturação altamente especializadas, tanto nos bancos de investimento quanto nas próprias concessionárias.
A convergência entre real estate e infraestrutura como vetor de liderança
A trajetória de Ruy Kameyama exemplifica um fenômeno crescente no mercado brasileiro: a migração de talentos entre real estate e infraestrutura. Ambos os setores compartilham fundamentos operacionais, como a gestão de ativos de longo prazo com fluxos de caixa previsíveis, a necessidade de governança robusta e a dependência de estruturas de capital sofisticadas. A diferença reside na escala regulatória e no perfil de risco político, dimensões que executivos oriundos do mercado imobiliário precisam absorver ao transitar para concessões públicas.
Essa convergência é observada com frequência nos encontros promovidos pelo GRI Institute, onde líderes dos dois setores debatem temas como alocação de capital, gestão de riscos regulatórios e inovação em instrumentos de financiamento. A presença recorrente de executivos com dupla fluência, em real estate e infra, nos comitês de investimento de grandes fundos reflete a valorização desse perfil híbrido pelo mercado.
O capital privado representa hoje a parcela dominante do investimento em infraestrutura no país. Dos R$ 280 bilhões investidos em 2025, 84% vieram do setor privado, proporção que tende a se manter em 2026. Essa realidade coloca bancos de investimento como o BTG Pactual, sob liderança de executivos como Guilherme Paes, no centro da equação, desempenhando o papel de ponte entre poupadores institucionais e projetos de concessão.
O que esperar dos próximos movimentos no setor?
O ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil combina três vetores simultâneos: volume recorde de capital disponível, pipeline robusto de concessões e uma geração de executivos com capacidade de execução comprovada em ativos de grande porte. A projeção de R$ 300 bilhões em investimentos para 2026, segundo a ABDIB, representa o maior patamar já registrado e exige lideranças capazes de converter compromissos financeiros em entregas operacionais.
A nomeação de Fábio Russo Corrêa na Arteris, a liderança de Guilherme Paes na estruturação de operações de grande escala no BTG Pactual e o retorno de Ruy Kameyama ao mercado como executivo disponível para novos desafios configuram um momento de reconfiguração das lideranças setoriais. O mapa do capital em infraestrutura no Brasil é, em última análise, um mapa de pessoas, e 2026 está redesenhando esse mapa de forma acelerada.
O GRI Institute continuará monitorando essas movimentações e promovendo o diálogo entre os executivos que definem a alocação de capital no setor, em um ambiente reservado que privilegia a troca de inteligência entre pares.