
Rafael Strauch, Antonio Brennand e o mapa dos investidores nordestinos em infraestrutura
Com R$ 19 bilhões em saneamento e R$ 14,9 bilhões na Transnordestina, o Nordeste concentra o próximo grande ciclo de capital privado em concessões.
Resumo Executivo
Principais Insights
- A concessão da Compesa (R$ 19 bi) é a maior de saneamento da história do Nordeste, sinalizando protagonismo da região em infraestrutura.
- Compesa e Transnordestina somam quase R$ 34 bilhões em investimentos concentrados no Nordeste.
- O capital familiar nordestino migra de setores tradicionais (açúcar, energia, agronegócio) para grandes concessões de infraestrutura.
- Rafael Strauch (Sabesp/ex-BNDES) e Antonio Brennand (Brennand Energia) representam perfis complementares desse novo ciclo.
- A universalização do saneamento no ritmo atual só ocorreria em 2070, ampliando espaço para operadores privados.
O leilão de concessão parcial de saneamento da Compesa, em Pernambuco, viabilizará investimentos na ordem de R$ 19 bilhões, segundo dados da B3 e do Diario de Pernambuco. Trata-se da maior concessão de saneamento da história do Nordeste, e o negócio sinaliza um ponto de inflexão: a região deixa de ser coadjuvante no pipeline nacional de infraestrutura e passa a disputar protagonismo com os grandes centros de capital do Sudeste.
Nesse novo cenário, dois nomes concentram a atenção do mercado. Rafael Strauch, executivo com passagem pelo BNDES e atual diretor de projetos e novos negócios da Sabesp, representa a nova geração de lideranças que conecta experiência em financiamento público à gestão privada de ativos regulados. Antonio Brennand, vinculado à Brennand Energia, com atuação relevante em PCHs e renováveis, é parte de uma tradição de capital familiar nordestino que agora encontra escala em grandes concessões federais.
O mapeamento desses perfis revela uma tendência estrutural. O capital regional nordestino, historicamente concentrado em setores como açúcar, energia e agronegócio, migra com velocidade crescente para infraestrutura de base, atraído por marcos regulatórios mais estáveis, pipelines robustos e incentivos federais.
Qual é o tamanho do pipeline de infraestrutura no Nordeste?
O Nordeste acumula, hoje, dois dos maiores projetos de infraestrutura em andamento no Brasil. A Ferrovia Transnordestina, maior obra de infraestrutura logística em execução na região, tem investimento total estimado de R$ 14,9 bilhões e passará por 53 municípios, conforme dados do Ministério dos Transportes e da Gazeta de S. Paulo. A concessão da Compesa, já mencionada, soma outros R$ 19 bilhões. Juntos, esses dois projetos representam quase R$ 34 bilhões em investimentos concentrados em uma única região.
Esse volume ganha ainda mais relevância quando inserido no contexto nacional. O governo federal prevê a concessão de 14 rodovias em 2026, projetando um total de R$ 158 bilhões em investimentos, segundo o Ministério dos Transportes. O Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), por sua vez, deve alcançar R$ 1,3 trilhão em investimentos executados até o fim de 2026, de acordo com a Casa Civil, conforme publicado pela Folha de S.Paulo.
A dimensão do pipeline nordestino é, portanto, compatível com a escala dos maiores programas federais, e o capital necessário para viabilizar esses projetos excede a capacidade de financiamento exclusivamente estatal. É precisamente nessa lacuna que investidores regionais encontram oportunidade.
Como Rafael Strauch se posiciona no novo ciclo de saneamento?
Rafael Strauch assumiu a diretoria de projetos e novos negócios da Sabesp com a missão de liderar o planejamento estratégico e buscar oportunidades de crescimento no novo contexto de desestatização, conforme reportado pelo Portal Saneamento Básico em outubro de 2024. Sua trajetória no BNDES confere ao executivo conhecimento detalhado das estruturas de financiamento de longo prazo que sustentam concessões de saneamento e transporte.
A posição de Strauch na Sabesp é estratégica por uma razão objetiva: o Novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020) estabelece metas de universalização ambiciosas, com 99% da população atendida por água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. A lei incentiva a regionalização e a participação privada, criando o arcabouço jurídico para operações como a da Compesa.
Contudo, o ritmo atual de investimentos indica que a universalização do saneamento básico no Brasil só será alcançada em 2070, muito além da meta legal de 2033, segundo o Instituto Trata Brasil. Essa discrepância entre a ambição regulatória e a execução real amplia o espaço para operadores privados com capacidade de mobilizar capital e gestão eficiente. Profissionais como Strauch, que transitam entre o universo público e o privado, tornam-se peças centrais na engrenagem de viabilização desses projetos.
A experiência da Sabesp, maior operadora de saneamento da América Latina, pode servir de modelo para concessões regionais no Nordeste, especialmente em estados onde a infraestrutura hídrica e de esgoto ainda apresenta defasagem significativa.
O capital familiar nordestino e a fronteira das renováveis
Antonio Brennand integra um ecossistema de capital familiar com raízes profundas no Nordeste. A Brennand Energia consolidou atuação relevante em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e projetos de energia renovável, setores que funcionam como porta de entrada natural para investimentos em infraestrutura de maior porte.
O Nordeste concentra condições excepcionais para geração eólica e solar, e a transição energética brasileira passa necessariamente pela região. Famílias com tradição empresarial no Nordeste, como os Brennand, reúnem três vantagens competitivas relevantes: conhecimento territorial profundo, redes institucionais consolidadas e horizonte de investimento de longo prazo, compatível com a maturação de projetos de infraestrutura.
Essa lógica de capital paciente, típica de famílias empresariais, encontra terreno fértil em concessões de 20 a 35 anos, onde a previsibilidade regulatória e o fluxo de caixa estável remuneram investidores dispostos a aceitar menor liquidez em troca de retornos consistentes.
A PEC 2/2016, que transforma o acesso ao saneamento básico em direito constitucional, foi aprovada no Senado em abril de 2025 e aguarda votação na Câmara dos Deputados. Se promulgada, a emenda constitucional deve intensificar a pressão por investimentos e abrir novas frentes de concessão em estados onde o déficit é mais agudo, muitos deles no Nordeste.
Qual é o papel do ecossistema institucional na conexão de capital e projetos?
A existência de plataformas de articulação entre investidores, operadores e poder público é determinante para transformar pipeline em execução. Eventos como o Infra Nordeste GRI 2026, organizado pelo GRI Institute e agendado para 8 de abril de 2026, em Fortaleza, refletem o reconhecimento do mercado de que a região exige fóruns dedicados à conexão entre capital regional, capital institucional e grandes projetos.
O GRI Institute, como clube global de líderes em real estate e infraestrutura, funciona como catalisador dessas conexões. A concentração de investidores familiares nordestinos, executivos de concessionárias, gestores de fundos e representantes do setor público em um mesmo ambiente de discussão estratégica acelera a formação de consórcios e parcerias que, de outra forma, levariam anos para se materializar.
O interesse crescente nessa vertical geográfica confirma uma tese que ganha força entre os membros do setor: o próximo grande ciclo de infraestrutura no Brasil será descentralizado, e o Nordeste reúne as condições para capturar parcela significativa desse fluxo de capital.
Convergência de perfis e oportunidades
Rafael Strauch e Antonio Brennand representam vertentes complementares do mesmo fenômeno. Strauch traz a expertise de estruturação financeira e gestão de ativos regulados em saneamento. Brennand traz o capital familiar e o conhecimento territorial em energia. A convergência desses perfis ilustra como o Nordeste constrói, organicamente, um ecossistema próprio de investimento em infraestrutura.
O volume de capital necessário para atender às metas de universalização e à expansão logística da região é substancial. Apenas a Compesa e a Transnordestina demandam quase R$ 34 bilhões combinados. Quando se adiciona o pipeline rodoviário federal e os projetos de energia renovável, a região configura um dos mercados de infraestrutura mais dinâmicos do país.
Para investidores com visão de longo prazo e apetite por ativos regulados, o Nordeste apresenta uma combinação rara de déficit estrutural, arcabouço regulatório favorável e escala de projeto. Os nomes que emergem nesse ciclo, sejam executivos como Strauch ou famílias como os Brennand, tendem a definir os contornos do setor nas próximas duas décadas.