
O próximo ciclo de saneamento depende de uma nova lógica de originação na estruturação de concessões
A arquitetura institucional por trás da modelagem de PPPs define o ritmo real do pipeline e exige governança que combine fluência regulatória com disciplina de mercado.
Resumo Executivo
Principais Insights
- O gargalo do saneamento no Brasil é institucional, não financeiro: falta capacidade técnica para estruturar concessões complexas.
- Apenas 4 grandes PPPs podem ir a leilão em 2026, atendendo 477 municípios com R$ 20,3 bi — fração insuficiente para a meta de 2033.
- O Nordeste demanda R$ 274 bilhões até 2033, com 11 projetos em estruturação somando R$ 39,7 bi.
- Contratos de 30 anos sem modelagem climática estão fadados à renegociação.
- É necessário ampliar a base institucional de estruturação, padronizar processos e integrar critérios ESG desde a originação.
A variável decisiva do pipeline de saneamento é institucional, não financeira
O Brasil enfrenta um desafio que transcende a disponibilidade de capital. A Lei 14.026/2020, o Marco Legal do Saneamento, fixou a meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033. Os decretos de 2023, que eliminaram a trava de 25% para subdelegação de contratos por empresas estaduais, destravaram a modelagem de novas PPPs para o ciclo 2025-2026. O arcabouço regulatório avançou. Os recursos existem, públicos e privados. A pergunta que permanece, porém, é outra: a capacidade institucional de estruturação de projetos acompanha a ambição do marco legal?
A resposta a essa pergunta determina se 2026 será de fato o "ano das PPPs" no saneamento, como projeta a Abcon, com a maior quantidade de projetos de impacto relevante indo ao mercado desde a sanção do marco legal. E determina, sobretudo, se o país conseguirá mobilizar os investimentos necessários para atender regiões historicamente desassistidas, como o Nordeste, onde a Sudene e o Ministério das Cidades estimam uma necessidade de R$ 274 bilhões até 2033 para universalizar os serviços.
A tese central deste artigo é direta: o gargalo do próximo ciclo de saneamento reside na arquitetura de originação dos projetos, ou seja, na capacidade técnica, jurídica e econômica das instituições que desenham as concessões antes que elas cheguem ao mercado. Estruturar uma concessão de saneamento com 30 anos de horizonte contratual, em municípios com baixa capacidade fiscal e demandas climáticas crescentes, é um exercício de engenharia institucional que poucos entes no Brasil dominam com profundidade.
Por que a modelagem técnica das concessões se tornou o verdadeiro gargalo do setor?
A estruturação de uma concessão ou PPP em saneamento envolve camadas de complexidade que vão muito além da engenharia financeira. A modelagem precisa equacionar tarifas compatíveis com a capacidade de pagamento da população, alocação de riscos entre poder concedente e operador privado, projeções de demanda em cenários demográficos incertos e, cada vez mais, cláusulas de resiliência climática.
Atualmente, 11 projetos de saneamento na região Nordeste estão em fase de estruturação, distribuídos por seis estados, com investimentos totais estimados em R$ 39,7 bilhões nos contratos com valores definidos, segundo dados do Movimento Econômico. Esses projetos ilustram a escala do desafio: são concessões que precisam atender populações dispersas, em municípios com realidades fiscais e operacionais radicalmente distintas, sob um mesmo arcabouço contratual.
O problema central é que a capacidade de originação, ou seja, de concepção, modelagem e preparação desses projetos para leilão, é finita. As equipes de project finance especializadas em saneamento são escassas no país. A governança interna das instituições estruturadoras impõe etapas sequenciais de aprovação que, embora necessárias para garantir qualidade técnica, criam um funil natural que limita o número de projetos que podem avançar simultaneamente.
Essa limitação institucional tem consequências práticas. Quatro grandes projetos de PPPs em saneamento podem ir a leilão ainda em 2026, com previsão de atender 477 municípios e injetar R$ 20,3 bilhões em investimentos, conforme levantamento da Abcon divulgado pela Agência iNFRA. É um volume expressivo, mas representa uma fração do que seria necessário para cumprir as metas de universalização. O ritmo de estruturação, e não a escassez de capital, é o fator limitante.
A qualidade da modelagem determina diretamente a atratividade do projeto para investidores privados. Concessões mal estruturadas geram leilões desertos ou contratos que precisam ser renegociados prematuramente. Em saneamento, onde os retornos são de longo prazo e as externalidades sociais são elevadas, a margem para erros de modelagem é mínima.
Qual governança institucional o próximo ciclo de concessões exige?
O evento "Desafios do próximo ciclo de estruturação e implementação de projetos", realizado em São Paulo em 10 de junho de 2026 pelo GRI Institute, trouxe à tona uma discussão que extrapola o debate habitual sobre funding. O foco recaiu sobre os desafios pós-estruturação e sobre a resiliência climática dos contratos, sinalizando que o mercado já reconhece que a qualidade da originação é tão relevante quanto o volume de recursos disponíveis.
O debate entre líderes do setor no GRI Institute evidenciou três dimensões críticas da governança necessária para o próximo ciclo.
A primeira é a tensão entre mandato social e critérios de bankability. Projetos de saneamento em regiões de baixa renda precisam conciliar universalização do acesso com viabilidade econômico-financeira. Essa equação exige modelagens sofisticadas que combinem subsídios cruzados, aportes de contraprestação pública e estruturas tarifárias progressivas. A governança das instituições estruturadoras precisa comportar essa complexidade sem paralisar o processo decisório.
A segunda dimensão é a integração de variáveis climáticas nos contratos de longo prazo. A região Nordeste, onde se concentra parte significativa do pipeline atual, enfrenta estresse hídrico crescente. Contratos de concessão com horizonte de 30 anos que ignorem cenários de escassez hídrica severa estão fadados à renegociação. As equipes de estruturação precisam incorporar modelagem climática com o mesmo rigor que aplicam à modelagem financeira.
A terceira é a necessidade de lideranças que transitem entre a lógica do setor público e a disciplina do mercado privado. O sucesso do próximo ciclo de infraestrutura depende de uma governança que una fluência regulatória com rigor financeiro para destravar o pipeline de projetos. A trajetória de executivos como Hélcio Tokeshi, que acumulou experiência no setor público e em conselhos de saneamento antes de ser nomeado CEO da Braskem em junho de 2026, ilustra o perfil de liderança que o setor demanda: profissionais capazes de compreender simultaneamente a regulação, a alocação de capital e a operação de ativos complexos.
O redesenho necessário na originação de projetos
O ciclo atual de saneamento exige uma reconfiguração da forma como projetos são originados no Brasil. Três mudanças estruturais se impõem.
Primeiro, a ampliação da base institucional de estruturação. O país concentra excessivamente a capacidade de modelagem de concessões em poucas instituições. Governos estaduais, agências reguladoras e consultorias especializadas precisam desenvolver competências complementares que permitam ampliar o funil de projetos sem sacrificar a qualidade técnica.
Segundo, a padronização de processos sem engessamento. A criação de metodologias replicáveis para categorias semelhantes de projetos, como concessões de saneamento em municípios de pequeno porte, pode acelerar significativamente o ciclo de estruturação. Cada projeto tem especificidades, mas a arquitetura básica de alocação de riscos e modelagem financeira pode seguir padrões que reduzam o tempo de concepção.
Terceiro, a incorporação sistemática de critérios ESG e de resiliência climática desde a fase de originação. Inserir essas variáveis na etapa de estruturação, e não como camada adicional após a modelagem financeira, produz contratos mais robustos e reduz o risco de renegociação futura.
O pipeline de saneamento no Brasil é robusto. A demanda é inequívoca. O capital está disponível. A variável que define o ritmo real da universalização é a capacidade institucional de transformar demanda em projetos bancáveis. A arquitetura de originação precisa ser redesenhada para que a meta de 2033 deixe de ser uma aspiração regulatória e se torne um programa de implementação.
O papel do ecossistema de conhecimento
O GRI Institute tem funcionado como plataforma de convergência entre os atores que definem o futuro do saneamento no Brasil. Ao reunir investidores, operadores, reguladores e estruturadores em discussões de alto nível, como o evento de junho de 2026 em São Paulo, a instituição cumpre uma função estratégica: criar o ambiente de confiança e troca de inteligência que acelera a maturação do pipeline.
O próximo ciclo de saneamento será definido menos pelo volume de recursos e mais pela sofisticação da governança que conecta estruturação, regulação e execução. O setor tem os instrumentos legais e o apetite de mercado. Falta a engenharia institucional que traduza ambição em contratos sólidos, resilientes e socialmente eficazes. Essa é a fronteira que separará o cumprimento da meta de universalização de 2033 de mais uma promessa regulatória adiada.