
Helcio Tokeshi e o novo desenho institucional do financiamento de infraestrutura no Brasil
Ex-gestores públicos migram para o setor privado e moldam os instrumentos de captação num ciclo que deve alcançar R$ 300 bilhões em investimentos em 2026.
Resumo Executivo
Principais Insights
- Investimento em infraestrutura no Brasil deve alcançar R$ 300 bilhões em 2026, recorde absoluto segundo a ABDIB.
- O setor privado respondeu por 72,2% do investimento em infraestrutura em 2025, segundo a CNI.
- A Lei 14.801/2024 criou as debêntures de infraestrutura, transferindo o benefício fiscal do investidor para o emissor, atraindo fundos de pensão e investidores estrangeiros.
- Ex-gestores públicos como Helcio Tokeshi migram para o setor privado e aplicam conhecimento regulatório na estruturação de veículos de financiamento.
- Transporte/logística (R$ 76,5 bi) e saneamento (R$ 44,5 bi) devem liderar os investimentos em 2026.
O investimento em infraestrutura no Brasil atingiu R$ 280 bilhões em 2025, segundo a ABDIB (Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base). A projeção para 2026 é de R$ 300 bilhões, recorde absoluto para o setor. Esse salto não se explica apenas pelo volume de capital disponível; ele resulta de uma reconfiguração institucional profunda, na qual profissionais com décadas de experiência em gestão pública ocupam posições estratégicas na estruturação de veículos privados de financiamento. A trajetória de Helcio Tokeshi, hoje Diretor Geral e Economista-Chefe da IG4 Capital, é o caso mais emblemático desse fenômeno.
A trajetória institucional como ativo estratégico
Helcio Tokeshi acumulou posições centrais na arquitetura fiscal e regulatória brasileira. Foi Secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda, economista no Banco Mundial e Secretário da Fazenda do Estado de São Paulo entre 2016 e 2018, segundo informações da IG4 Capital e do Instituto OPY. Antes de ingressar na IG4, atuou como Sócio na GP Investimentos, com foco em infraestrutura, e como Diretor Geral na Estruturadora Brasileira de Projetos (EBP), entidade dedicada à estruturação de projetos de concessões e parcerias público-privadas.
Essa sequência de posições confere a Tokeshi uma compreensão rara do ciclo completo de um projeto de infraestrutura: da concepção regulatória à modelagem financeira, da aprovação orçamentária à captação de mercado. Em fevereiro de 2026, Tokeshi renunciou ao cargo de CEO da Corredor Logística e Infraestrutura S.A. (CLI), permanecendo no posto até 27 de fevereiro de 2026, conforme registrado pelo Brazil Stock Guide. A movimentação reforça a dinâmica de realocação de lideranças entre veículos e plataformas de investimento no setor.
A experiência regulatória dos estruturadores influencia diretamente a governança e a atratividade dos instrumentos de financiamento. Profissionais que dominam a lógica fiscal do Estado compreendem os incentivos que tornam um título competitivo para investidores institucionais, e essa inteligência se traduz em inovação nos mecanismos de funding.
Como a Lei 14.801/2024 redesenha o mercado de capitais para infraestrutura?
A Lei nº 14.801/2024, sancionada e em vigor desde 10 de janeiro de 2024, instituiu as chamadas debêntures de infraestrutura. Diferentemente das debêntures incentivadas previstas na Lei 12.431/2011, que concedem benefício fiscal ao investidor pessoa física, o novo instrumento transfere o incentivo para o emissor do título. As empresas emissoras podem deduzir os juros pagos do IRPJ e da CSLL e ainda excluir da base de cálculo um valor adicional correspondente a 30% dos juros.
O Decreto nº 11.964/2024, publicado em 27 de março de 2024, regulamentou a lei ao estabelecer critérios e condições para o enquadramento de projetos de investimento considerados prioritários. A mudança é estrutural: ao deslocar o benefício fiscal do investidor para o emissor, o arcabouço abre espaço para a participação de fundos de pensão, seguradoras e investidores estrangeiros que, até então, não se beneficiavam da isenção de imposto de renda aplicável a pessoas físicas.
Esse redesenho institucional amplia a base de capital de longo prazo acessível ao setor. Fundos de pensão brasileiros, que administram patrimônios expressivos, ganham incentivo econômico concreto para alocar recursos em projetos de infraestrutura via debêntures emitidas sob o novo regime. Da mesma forma, investidores internacionais passam a encontrar condições mais competitivas de entrada, uma vez que a redução no custo de captação do emissor se reflete em estruturas de remuneração mais atrativas.
A Lei 14.801/2024 representa o pilar normativo de uma nova fase do financiamento de infraestrutura no Brasil, ao criar condições para que veículos privados de estruturação de dívida operem com maior eficiência fiscal.
Qual é o peso do capital privado no ciclo atual de investimentos?
Os dados confirmam a predominância do setor privado no financiamento da infraestrutura brasileira. Em 2025, a iniciativa privada respondeu por 72,2% do valor total investido, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Essa proporção evidencia que a expansão do setor depende, cada vez mais, da sofisticação dos instrumentos de captação privada, e não apenas de aportes orçamentários do governo.
Com a projeção de R$ 300 bilhões em investimentos para 2026, conforme estimativas da ABDIB, os setores de transporte e logística, com previsão de R$ 76,5 bilhões, e saneamento, com R$ 44,5 bilhões, devem liderar o crescimento, segundo a mesma associação. Esses volumes exigem instrumentos de dívida e equity capazes de mobilizar capital institucional em escala inédita.
O novo arcabouço regulatório, combinado com a presença de gestores que compreendem a lógica estatal, cria um ambiente propício para a proliferação de veículos especializados de estruturação de projetos. A Estruturadora Brasileira de Projetos (EBP), onde Tokeshi atuou como Diretor Geral, representou uma primeira geração desse modelo, com foco em parcerias com o setor público. A tendência atual aponta para uma segunda geração de plataformas, inteiramente privadas, que utilizam o conhecimento regulatório como diferencial competitivo.
O perfil institucional dos estruturadores como variável de performance
A migração de ex-gestores públicos para o setor privado constitui uma tendência consolidada na infraestrutura brasileira. Profissionais com passagem pelo Tesouro Nacional, secretarias de fazenda estaduais e entidades de fomento carregam consigo o entendimento da mecânica fiscal, da dinâmica de concessões e dos critérios de enquadramento de projetos prioritários. Esse conhecimento se converte em vantagem operacional na estruturação de veículos de investimento.
Helcio Tokeshi exemplifica essa dinâmica com precisão. Sua atuação na Secretaria da Fazenda de São Paulo lhe conferiu domínio sobre a política fiscal estadual, enquanto a passagem pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Mundial ampliou sua visão para o contexto macroeconômico e multilateral. Na EBP, aplicou esse repertório à modelagem de concessões. Na GP Investimentos e, atualmente, na IG4 Capital, traduz essa experiência em teses de investimento de private equity em infraestrutura.
O mercado reconhece que a governança dos veículos de financiamento ganha robustez quando liderada por profissionais com esse perfil. Investidores institucionais, especialmente fundos de pensão e seguradoras, valorizam estruturas cujos gestores demonstram familiaridade com o ambiente regulatório e capacidade de antecipar mudanças normativas.
Perspectivas para o ciclo 2026
O cenário para 2026 combina três vetores de expansão: volume recorde de investimentos projetados, novo arcabouço legal para instrumentos de dívida e uma geração de estruturadores com experiência institucional sem precedentes.
A meta de R$ 300 bilhões em investimentos, sustentada por projeções da ABDIB, exige que o mercado de capitais absorva uma parcela crescente do funding. Com o setor privado já responsável por mais de 72% dos investimentos, a pressão por inovação nos instrumentos financeiros só tende a aumentar.
As debêntures de infraestrutura criadas pela Lei 14.801/2024 representam o instrumento mais relevante desse novo ciclo. Sua eficácia dependerá da capacidade dos estruturadores de desenhar emissões que atendam simultaneamente aos critérios de enquadramento regulatório e às exigências de retorno dos investidores institucionais.
O GRI Institute acompanha essa reconfiguração do financiamento de infraestrutura como tema central em seus encontros e publicações. A interseção entre experiência pública e execução privada define o perfil dos líderes que conduzirão a próxima fase de investimentos no setor. Os debates promovidos pelo GRI entre gestores, investidores e formuladores de política pública contribuem para mapear as tendências que moldam esse mercado.
A infraestrutura brasileira vive um momento de inflexão institucional. O volume de capital é condição necessária, mas a qualidade do desenho dos instrumentos de captação determina a velocidade e a sustentabilidade da expansão. Profissionais como Helcio Tokeshi, que transitam entre o Estado e o mercado com fluência técnica, ocupam posição central nessa equação.