Helcio Tokeshi e a geração de ex-gestores públicos que redesenham o financiamento de infraestrutura

Ex-tesoureiros estaduais e ex-diretores de bancos de desenvolvimento migram para o setor privado e criam novos instrumentos de capital para projetos complexos n

26 de fevereiro de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

O artigo analisa como uma geração de ex-gestores públicos brasileiros — ex-tesoureiros estaduais, ex-secretários de fazenda e ex-diretores de bancos de desenvolvimento — está redesenhando o financiamento de infraestrutura ao migrar para o setor privado. Helcio Tokeshi, ex-secretário da Fazenda de São Paulo e hoje na IG4 Capital, é o exemplo central dessa transição. O novo arcabouço legal, especialmente a Lei 14.801/2024, impulsionou emissões recordes de debêntures incentivadas (R$ 120,3 bilhões até novembro de 2024). O artigo argumenta que o conhecimento regulatório desses profissionais é a variável decisiva para fechar a lacuna de R$ 400 bilhões anuais em investimentos.

Principais Insights

  • Ex-gestores públicos como Helcio Tokeshi migram para o private equity, levando expertise regulatória e fiscal que se torna vantagem competitiva na estruturação de capital privado para infraestrutura.
  • A Lei 14.801/2024 criou debêntures de infraestrutura com benefício fiscal ao emissor, ampliando o universo de investidores institucionais.
  • Emissões de debêntures incentivadas atingiram recorde de R$ 120,3 bilhões até novembro de 2024, alta de 77,4% sobre 2023.
  • O Brasil necessita de ao menos R$ 400 bilhões anuais em infraestrutura, e o gargalo atual é de estruturação, não de liquidez.
  • O capital intelectual regulatório é reconhecido como ativo estratégico para tornar projetos complexos bancáveis.

A travessia do setor público para o private equity em infraestrutura

O Brasil enfrenta um desafio estrutural de financiamento. Segundo a Inter B. Consultoria, o investimento anual necessário em infraestrutura no país é de pelo menos R$ 400 bilhões para responder às demandas da população e aos requisitos de competitividade. O orçamento público, sozinho, está longe de cobrir essa lacuna. O que mudou nos últimos anos é que uma nova geração de profissionais formados dentro do aparato estatal, com domínio profundo de regulação, estruturação fiscal e governança de projetos, passou a operar do lado privado, trazendo consigo um repertório técnico que o mercado de capitais ainda não possuía com essa densidade.

Helcio Tokeshi é talvez o exemplo mais emblemático dessa transição. Ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, com passagem por posições estratégicas de gestão fiscal, Tokeshi hoje integra a IG4 Capital, veículo de private equity voltado a ativos de infraestrutura. Sua trajetória ilustra um fenômeno que vai além da biografia individual: trata-se de uma reconfiguração sistêmica na qual o conhecimento regulatório acumulado em tesourarias estaduais e bancos de desenvolvimento se converte em vantagem competitiva para a alocação de capital privado.

Esse movimento envolve outros nomes relevantes. Jefferson Nogaroli, que transita entre loteamentos e infraestrutura urbana inteligente, lidera o projeto Eurogarden em Maringá, com investimento superior a R$ 200 milhões, segundo dados da ACIAG. O projeto representa uma nova fronteira de aplicação de capital em smart cities, segmento que demanda instrumentos financeiros sofisticados e estruturação de longo prazo. Eduardo Fischer Teixeira de Souza, por sua vez, representa o capital imobiliário tradicional, via MRV, se aproximando de soluções urbanísticas que dialogam com a agenda de infraestrutura sustentável. A Ilion Partners atua como boutique de advisory e gestão de fundos, conectando capital imobiliário a ativos de infraestrutura por meio de retrofit e fundos imobiliários de infraestrutura.

O denominador comum entre esses profissionais é a capacidade de operar na intersecção entre regulação pública e estruturação de capital privado, um território que exige fluência em ambas as linguagens.

Como ex-gestores públicos estão transformando os instrumentos de project finance no Brasil?

A resposta passa, necessariamente, pelo novo arcabouço legislativo que o país construiu para o financiamento de infraestrutura. A Lei nº 14.801/2024, sancionada em janeiro de 2024, criou as chamadas debêntures de infraestrutura, um instrumento que concede benefício tributário diretamente à empresa emissora, por meio da dedução dos juros na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Essa lógica difere substancialmente da Lei 12.431/2011, que concentrava o incentivo fiscal no investidor pessoa física via isenção de imposto de renda sobre os rendimentos.

A distinção pode parecer técnica, mas tem implicações estratégicas profundas. Ao deslocar o benefício para o emissor, a nova legislação amplia o universo de investidores potenciais, incluindo fundos de pensão, seguradoras e investidores institucionais estrangeiros, que não se beneficiavam da isenção de IR da lei anterior. Profissionais como Tokeshi, com experiência em gestão de dívida pública e engenharia fiscal, possuem vantagem natural para estruturar emissões sob esse novo regime, calibrando covenants, prazos e garantias de forma a otimizar o custo de capital para o projeto.

O Decreto nº 11.964/2024 complementa esse arcabouço ao regulamentar os critérios de enquadramento de projetos prioritários aptos a captar recursos via debêntures incentivadas e de infraestrutura. A combinação dos dois marcos normativos cria um ambiente regulatório mais robusto e previsível, condição essencial para atrair capital de longo prazo.

Os números confirmam a tese. Segundo a ANBIMA, as emissões de debêntures incentivadas atingiram o volume recorde de R$ 120,3 bilhões entre janeiro e novembro de 2024, um crescimento de 77,4% em relação a todo o ano de 2023. O setor de energia elétrica liderou essas emissões, concentrando 39,4% do volume total no mesmo período. O mercado secundário, por sua vez, movimentou R$ 254,7 bilhões de janeiro a novembro de 2024, quase o dobro do registrado em 2023.

Esses volumes expressam uma mudança estrutural. O mercado de capitais brasileiro deixou de ser coadjuvante no financiamento de infraestrutura e passou a ocupar posição central, especialmente diante da redução relativa do papel do BNDES como financiador predominante. Ex-gestores que conhecem as duas pontas, a lógica do crédito público e a dinâmica do mercado de capitais, são os profissionais mais bem posicionados para operar nessa transição.

Qual o impacto de debêntures de infraestrutura e FIDCs setoriais na próxima geração de concessões?

A agenda de concessões e PPPs no Brasil segue em expansão. Segundo projeção da ANBIMA, o mercado de debêntures incentivadas e de infraestrutura manterá viés positivo em 2025, impulsionado por uma agenda de leilões de concessão ainda mais ativa do que a de 2024. Isso significa que a demanda por instrumentos financeiros sofisticados tende a crescer proporcionalmente à complexidade dos projetos licitados.

Nesse contexto, os FIDCs setoriais e os CRIs de infraestrutura ganham relevância como complementos às debêntures. A lógica de blended finance, que combina recursos públicos, privados e multilaterais em uma mesma estrutura de capital, exige exatamente o tipo de conhecimento híbrido que ex-diretores de bancos de desenvolvimento e ex-tesoureiros estaduais acumularam ao longo de suas carreiras públicas.

Profissionais com esse perfil entendem, por experiência direta, as restrições fiscais que limitam o aporte de recursos públicos a fundos garantidores. Compreendem os mecanismos de mitigação de risco que agências multilaterais exigem para participar de estruturas de cofinanciamento. Dominam a linguagem dos editais de concessão e conhecem, muitas vezes pessoalmente, os quadros técnicos dos órgãos reguladores e das agências setoriais.

A Ilion Partners exemplifica como essa expertise se materializa no mercado. Ao conectar capital imobiliário a ativos de infraestrutura, a boutique opera em um nicho que exige conhecimento simultâneo de regulação urbanística, estruturação de fundos imobiliários e avaliação de riscos de engenharia. O projeto Eurogarden, liderado por Jefferson Nogaroli, representa outra vertente dessa convergência: infraestrutura urbana inteligente financiada com instrumentos de mercado, em escala que ultrapassa R$ 200 milhões.

O mercado brasileiro está diante de uma inflexão. A sofisticação dos instrumentos financeiros disponíveis para infraestrutura cresceu significativamente com a Lei 14.801/2024, e a liquidez do mercado secundário demonstra que há apetite dos investidores por esses papéis. O gargalo agora é de estruturação: faltam profissionais e instituições capazes de desenhar emissões que conciliem as exigências regulatórias dos projetos com as expectativas de retorno e risco dos investidores.

O capital intelectual como ativo de infraestrutura

O fenômeno descrito nesta análise revela algo que os modelos tradicionais de avaliação de mercado tendem a subestimar: o capital intelectual regulatório é, ele próprio, um ativo de infraestrutura. Profissionais que passaram anos dentro de tesourarias estaduais, diretorias de bancos de desenvolvimento ou secretarias de fazenda carregam um mapa cognitivo do funcionamento do Estado que nenhum MBA consegue replicar.

Quando esses profissionais migram para o setor privado, não levam apenas uma agenda de contatos. Levam a capacidade de antecipar decisões regulatórias, de estruturar garantias que dialoguem com a lógica fiscal dos entes públicos e de calibrar riscos políticos com precisão que o mercado financeiro convencional raramente alcança.

O GRI Institute tem acompanhado essa transformação de perto, promovendo encontros que reúnem gestores públicos, investidores institucionais e estruturadores de project finance em um ambiente de diálogo franco e estratégico. As discussões realizadas nos eventos do GRI Club Infra evidenciam que a comunidade de líderes do setor reconhece essa transição como uma das dinâmicas mais relevantes para o futuro do financiamento de infraestrutura no Brasil.

A pergunta que permanece é se o mercado será capaz de absorver esse talento em escala suficiente para fechar a lacuna de investimento que o país enfrenta. Com uma necessidade anual de pelo menos R$ 400 bilhões e instrumentos financeiros cada vez mais robustos, a variável decisiva pode ser justamente a disponibilidade de profissionais que saibam operar na fronteira entre o público e o privado, transformando regulação em rentabilidade e política pública em projeto bancável.

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