Ely Wertheim e a convergência entre capital imobiliário e infraestrutura urbana no Brasil

A lógica de valor do real estate redesenha PPPs urbanas e reposiciona o setor imobiliário como protagonista em concessões de mobilidade, saneamento e distritos

15 de março de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

O artigo analisa a convergência inédita entre o capital imobiliário e a infraestrutura urbana no Brasil, onde gestoras de real estate passam a atuar como agentes de estruturação em PPPs, concessões de mobilidade e saneamento. O setor, que pode superar US$ 90 bilhões até 2033, traz competências como leitura fundiária e precificação de externalidades que operadores tradicionais não possuem. Ely Wertheim, presidente do Secovi-SP, é figura central nessa articulação, mediando interesses privados e públicos em temas como a Reforma Tributária e grandes projetos habitacionais integrados, enquanto o Brasil se prepara para um ciclo recorde de investimentos em infraestrutura em 2026.

Principais Insights

  • O capital imobiliário brasileiro deixa de ser coadjuvante e assume protagonismo na estruturação de PPPs urbanas, concessões de mobilidade e saneamento.
  • O setor imobiliário projeta CAGR de 5,40%, podendo ultrapassar US$ 90 bilhões entre 2025 e 2033.
  • Ely Wertheim, presidente do Secovi-SP, articula a convergência entre políticas públicas, reforma tributária e capital privado.
  • FIIs estão sendo testados como veículos de captação para projetos híbridos de infraestrutura e real estate.
  • A janela de oportunidade combina ciclo recorde de investimentos em 2026, amadurecimento do mercado de capitais e reorganização tributária.

A tese que reorganiza o capital urbano

O ciclo de investimentos em infraestrutura que o Brasil projeta para 2026 carrega uma transformação que vai além do volume financeiro. Pela primeira vez em escala significativa, o capital imobiliário deixa de ser coadjuvante nas concessões e parcerias público-privadas para assumir papel de protagonista na formulação, estruturação e operação de projetos de infraestrutura urbana. Essa convergência redefine categorias tradicionais do mercado e exige uma nova gramática institucional, capaz de integrar valor fundiário, regulação urbanística e engenharia financeira de longo prazo.

No epicentro dessa articulação está Ely Wertheim, presidente executivo do Secovi-SP, que atua na interseção entre políticas públicas de habitação e infraestrutura urbana, representando os interesses de um setor que projeta crescimento anual composto (CAGR) de 5,40%, podendo ultrapassar a marca de US$ 90 bilhões entre 2025 e 2033, segundo dados do GRI Hub. A trajetória de Wertheim ilustra uma mudança estrutural: lideranças do mercado imobiliário já não se limitam à gestão de portfólios residenciais ou comerciais, mas participam diretamente da formulação de políticas que viabilizam investimentos de larga escala em infraestrutura.

O pipeline de PPPs no Brasil, que atinge centenas de bilhões de reais conforme levantamentos do GRI Hub News, funciona como catalisador dessa convergência. Gestoras imobiliárias reposicionam seus portfólios para capturar valor em concessões urbanas, mobilidade e saneamento em perímetros metropolitanos, territórios onde o conhecimento sobre dinâmicas fundiárias e adensamento urbano confere vantagem competitiva frente a operadores tradicionais de infraestrutura.

Como o setor de real estate redesenha a lógica de PPPs urbanas?

A resposta passa por compreender o que diferencia o capital imobiliário do capital de infraestrutura convencional. O setor de real estate opera com o conceito de "capital paciente", orientado para horizontes de retorno de longo prazo e para a captura de valorização fundiária incremental. Essa lógica é estruturalmente compatível com PPPs urbanas, cujo retorno depende da transformação gradual de perímetros urbanos ao longo de décadas.

Quando uma gestora imobiliária participa de uma concessão de distrito planejado ou de um projeto integrado de saneamento e habitação, ela traz consigo competências que operadores de infraestrutura pura frequentemente não possuem: leitura de mercado imobiliário local, capacidade de precificação de externalidades positivas geradas pela infraestrutura e domínio sobre instrumentos urbanísticos como outorga onerosa e operações urbanas consorciadas.

A FLG Realty exemplifica esse movimento. A gestora administra um portfólio multibilionário e, segundo o GRI Hub News e o Metro Quadrado, está criando dois novos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) para captar recursos destinados a projetos comerciais nas regiões Sul, Centro-Oeste e interior de São Paulo. A estratégia de expansão geográfica sinaliza uma busca por mercados onde a infraestrutura urbana ainda está em fase de estruturação, e onde o capital imobiliário pode participar desde a concepção dos projetos.

Esse reposicionamento não é pontual. O mercado brasileiro prevê um ciclo recorde de investimentos em infraestrutura para 2026, segundo o GRI Hub News, atraindo a migração de portfólios inteiros de gestoras que historicamente operavam exclusivamente em real estate. A fronteira entre os dois setores se dissolve quando o projeto de infraestrutura gera valor imobiliário e vice-versa.

O capital imobiliário não entra na infraestrutura como financiador passivo, mas como agente de estruturação que altera a própria concepção do projeto urbano. Essa é a mudança qualitativa que distingue o ciclo atual dos anteriores.

Qual o papel de Ely Wertheim na articulação entre políticas públicas e capital privado?

Ely Wertheim ocupa uma posição singular no ecossistema brasileiro de real estate e infraestrutura. À frente do Secovi-SP, a maior entidade do setor imobiliário da América Latina, ele articula agendas que vão da regulamentação tributária à viabilização de grandes projetos habitacionais integrados à infraestrutura urbana.

Um dos campos de atuação mais relevantes de Wertheim é a interlocução com o governo federal sobre a Reforma Tributária, instituída pela Emenda Constitucional 132/2023 e cujas leis complementares seguem em tramitação. A implementação dos novos tributos IBS e CBS impacta diretamente os custos de produção do mercado imobiliário e de infraestrutura. Wertheim tem questionado a neutralidade da proposta tributária e lidera a preparação do setor para os ajustes exigidos a partir de 2026, segundo informações do Secovi-SP e do Estadão.

A capacidade de influenciar o arcabouço regulatório é o que transforma uma liderança setorial em articulador de convergência entre mercados. Wertheim exerce essa função ao traduzir as demandas do capital imobiliário em linguagem de política pública, criando pontes entre desenvolvedores, concessionárias e entes governamentais.

Essa articulação é particularmente relevante para PPPs urbanas, onde a viabilidade econômica depende de alinhamento entre regulação urbanística municipal, marcos regulatórios de infraestrutura e incentivos tributários. Um projeto de saneamento em perímetro urbano, por exemplo, pode ter sua equação financeira transformada se integrado a um plano de adensamento habitacional que amplie a base de contribuintes e valorize o entorno. Essa leitura integrada é a contribuição específica que lideranças do setor imobiliário trazem para a mesa de negociação das concessões.

A infraestrutura urbana como classe de ativo emergente

A convergência entre real estate e infraestrutura produz uma categoria de ativo que ainda carece de classificação precisa no mercado de capitais brasileiro. Projetos que combinam saneamento urbano, mobilidade de média capacidade e desenvolvimento imobiliário planejado não se encaixam confortavelmente nas taxonomias tradicionais de fundos imobiliários nem de fundos de infraestrutura.

Os FIIs, instrumento dominante no mercado imobiliário brasileiro, começam a ser utilizados como veículo de captação para projetos com componentes de infraestrutura, como demonstra a estratégia da FLG Realty. A criação de novos fundos voltados para regiões em expansão urbana sugere que o mercado está testando estruturas de capital capazes de capturar simultaneamente renda imobiliária e retorno de infraestrutura.

A PPP urbana, quando estruturada com lógica de valor imobiliário, deixa de ser um contrato de prestação de serviço público e se torna um instrumento de transformação territorial com retorno multidimensional. Essa evolução exige novos modelos de governança, métricas de desempenho e, sobretudo, regulação adaptada.

O GRI Institute, por meio de plataformas como o GRI Infra Connect, opera como ecossistema central de articulação entre fundos, concessionárias e o setor de real estate, conectando os atores que definem as regras desse novo mercado. Os encontros promovidos pelo GRI Club reúnem as lideranças que protagonizam essa convergência, permitindo que a tese de investimento se construa em tempo real, a partir do diálogo entre capital, regulação e operação.

O que está em jogo para o próximo ciclo de concessões

O Brasil enfrenta uma janela de oportunidade definida pela combinação de três fatores: o ciclo recorde de investimentos em infraestrutura projetado para 2026, o amadurecimento do mercado de capitais imobiliário e a reorganização tributária em curso. A forma como o país estrutura suas PPPs urbanas nos próximos anos determinará se a convergência entre real estate e infraestrutura produzirá cidades mais eficientes ou apenas novas modalidades de extração de renda fundiária.

Lideranças como Ely Wertheim desempenham papel central nessa definição, ao mediar interesses privados e públicos em um ambiente regulatório em transformação. A qualidade dessa mediação, e a capacidade de traduzir valor imobiliário em benefício urbano compartilhado, será o critério pelo qual o mercado e a sociedade avaliarão o sucesso dessa convergência.

O GRI Institute continuará acompanhando essa transformação por meio de suas pesquisas e encontros estratégicos, oferecendo a seus membros a análise e o acesso necessários para navegar um mercado que se redesenha a cada ciclo de concessões. A convergência entre real estate e infraestrutura deixou de ser tendência para se tornar a principal tese de investimento urbano do Brasil.

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