Convergência entre infraestrutura e energia na América Latina exige nova arquitetura de capital transfronteiriço

Com investidores estrangeiros dominando 59% das operações de M&A na região, a construção de veículos de co-investimento regional se torna prioridade estratégica para o setor.

3 de abril de 2026Infraestrutura
Escrito por:GRI Institute

Resumo Executivo

A América Latina vive uma convergência entre infraestrutura e energia, mas carece de uma arquitetura de capital transfronteiriço regional. Dados mostram que 59% das operações de M&A em 2025 foram lideradas por investidores estrangeiros, evidenciando que capitais domésticos enfrentam barreiras regulatórias, tributárias e de governança para co-investir na própria região. A padronização de instrumentos financeiros, a harmonização regulatória e o uso de blended finance são apontados como caminhos essenciais. Megaprojetos como a Ferrogrão e o ciclo de M&A projetado para 2026 representam oportunidades para a região avançar de receptora passiva a co-arquiteta das estruturas de investimento.

Principais Insights

  • Investidores estrangeiros responderam por 59% das operações de M&A na América Latina em 2025 (276 de 467 transações).
  • Barreiras regulatórias, tributárias e de governança impedem a formação de veículos de co-investimento intra-regionais.
  • Megaprojetos como a Ferrogrão (R$ 25,2 bi) funcionam como laboratórios de inovação financeira e catalisadores de capital transfronteiriço.
  • Mecanismos de blended finance podem servir de ponte para reduzir custos de capital e incluir investidores regionais.
  • JPMorgan projeta novo ciclo de alta em M&A na América Latina em 2026, criando janela de oportunidade estratégica.

A convergência infra-energia demanda uma reorganização do funding regional

A América Latina atravessa um momento de reconfiguração profunda nos fluxos de capital direcionados a infraestrutura e energia. Os setores, historicamente tratados como verticais distintas nos portfólios de investidores institucionais, passaram a convergir em um pipeline unificado que combina geração renovável, transmissão, logística de escoamento e saneamento em estruturas cada vez mais integradas. Essa convergência, porém, expõe uma lacuna estrutural: a ausência de uma arquitetura de capital verdadeiramente transfronteiriça dentro da própria região.

Enquanto fundos soberanos europeus e gestoras norte-americanas já operam com mandatos multi-país na América Latina, os capitais regionais, de origem brasileira, chilena, colombiana e mexicana, ainda enfrentam barreiras regulatórias, tributárias e de governança que limitam a formação de veículos de co-investimento intra-regionais. A construção dessa nova camada de funding é condição necessária para que a convergência infra-energia produza resultados em escala compatível com as necessidades da região.

Dados compilados pela CRG com base na plataforma S&P Capital IQ Pro revelam que investidores estrangeiros responderam por 59% das operações de fusões e aquisições na América Latina em 2025, totalizando 276 de 467 transações registradas. O Brasil concentrou 217 dessas operações, das quais 101 envolveram compradores estrangeiros. Esses números confirmam que o capital internacional já enxerga a região como um destino consolidado. O desafio agora é garantir que os capitais domésticos participem dessa dinâmica com protagonismo, e não apenas como receptores passivos de investimento externo.

A predominância de capital estrangeiro no M&A latino-americano não é sinal de fraqueza dos mercados locais, mas evidência de que a infraestrutura regulatória para co-investimento regional ainda está por ser construída.

Por que os capitais regionais ainda não formam veículos de co-investimento transfronteiriços em infraestrutura?

A resposta envolve múltiplas camadas de complexidade. Em primeiro lugar, os marcos regulatórios de cada país foram desenhados para atrair capital externo, com foco em garantias cambiais, estabilidade jurídica e mecanismos de arbitragem internacional. Poucos desses marcos contemplam, com a mesma sofisticação, instrumentos que facilitem a alocação de um fundo de pensão brasileiro em uma concessão rodoviária colombiana, ou de uma gestora chilena em um projeto de saneamento no Brasil.

Em segundo lugar, os instrumentos de dívida de longo prazo, como as debêntures incentivadas no Brasil, foram concebidos como ferramentas de política fiscal doméstica. A padronização desses instrumentos em escala regional exigiria acordos bilaterais ou multilaterais que harmonizassem tratamento tributário, critérios de elegibilidade e estruturas de garantia. Esse tipo de coordenação regulatória avança lentamente, mas representa uma fronteira estratégica para a formação de um mercado de capitais de infraestrutura regional.

A terceira barreira é de governança. Estruturas de co-investimento transfronteiriço demandam padrões compartilhados de due diligence, reporte e gestão de riscos. A heterogeneidade dos marcos contábeis e ambientais entre os países da região torna essa padronização um exercício técnico complexo, que requer fóruns especializados de negociação entre reguladores, operadores e alocadores de capital.

A padronização de instrumentos financeiros entre países latino-americanos é pré-condição para que o capital regional dispute espaço com o investimento estrangeiro na infraestrutura da própria região.

Mecanismos de blended finance, que combinam capital catalítico de instituições multilaterais com recursos privados, podem servir como ponte para essa transição. Ao oferecer camadas de proteção contra risco político e cambial, estruturas de blended finance reduzem o custo de capital para investidores regionais e permitem que fundos de menor porte participem de projetos de grande escala.

Qual o papel de megaprojetos como a Ferrogrão na atração de capital cross-border?

Megaprojetos de infraestrutura funcionam como catalisadores de capital transfronteiriço. Eles criam massa crítica suficiente para justificar a estruturação de veículos dedicados, atraem atenção regulatória e política, e geram precedentes jurídicos que podem ser replicados em futuras concessões.

O projeto da Ferrogrão (EF-170) ilustra essa dinâmica. Com custo estimado de R$ 25,2 bilhões, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a ferrovia representa um dos maiores projetos de concessão de infraestrutura logística do Brasil, com prazo previsto de 69 anos. Os estudos técnicos iniciais do projeto foram conduzidos pela Estação da Luz Participações (EDLP), um estruturador que desempenha papel relevante na viabilização de megaprojetos que, por sua natureza, exigem composições de capital diversificadas e de longo prazo.

O projeto encontra-se temporariamente suspenso por decisão judicial relacionada à regulamentação ambiental do entorno, aguardando avaliação do órgão ambiental competente. Essa suspensão, embora crie incerteza de curto prazo, reforça a importância de marcos ambientais claros e previsíveis para a atração de capital estrangeiro e regional.

Projetos dessa magnitude tendem a funcionar como laboratórios de inovação financeira. A Ferrogrão, quando retomar seu cronograma, provavelmente exigirá uma combinação de equity doméstico, dívida de projeto com garantias multilaterais e, potencialmente, participação de fundos regionais que enxerguem na logística agroindustrial brasileira uma tese de retorno de longo prazo conectada à segurança alimentar global.

Megaprojetos como a Ferrogrão não são apenas obras de engenharia. São plataformas de estruturação financeira que testam a capacidade de um país, ou de uma região, de mobilizar capital em escala compatível com suas ambições de desenvolvimento.

O ciclo de M&A cross-border e a janela de oportunidade para 2026

A projeção do JPMorgan aponta para um novo ciclo de alta nas atividades de fusões e aquisições na América Latina em 2026, impulsionado justamente por transações transfronteiriças e pelo interesse contínuo de investidores estrangeiros. Esse cenário cria uma janela de oportunidade para que a região avance na construção de mecanismos que canalizem parte desse fluxo para veículos de investimento com participação regional.

A questão central é se os países latino-americanos conseguirão, nesse ciclo, ir além da posição de receptores de capital para se tornarem co-arquitetos das estruturas de investimento. Isso implica desenvolver não apenas instrumentos financeiros, mas também a infraestrutura institucional necessária: câmaras de compensação regionais, padrões de classificação de risco harmonizados e acordos de dupla tributação que contemplem especificamente veículos de investimento em infraestrutura.

O GRI Institute tem acompanhado essa evolução de perto. O evento Latam GRI Infra & Energy 2026, programado para 16 de junho em Madri, coloca no centro da agenda exatamente os temas de geopolítica, custo de capital e fluxos de investimento transfronteiriço para a região. A escolha de Madri como sede reflete a importância do eixo ibérico como ponte de capital entre a Europa e a América Latina, um corredor que historicamente concentra parcela significativa do investimento direto no continente.

A comunidade de líderes reunida pelo GRI Institute, composta por CEOs, presidentes e heads de investimento das maiores gestoras, concessionárias e desenvolvedoras da região, tem debatido com crescente intensidade a necessidade de mecanismos institucionais que facilitem o co-investimento regional. Esse debate não é acadêmico. Trata-se de uma demanda concreta de mercado, expressa na dificuldade prática que alocadores de capital enfrentam quando tentam montar posições multi-país em infraestrutura latino-americana.

Uma agenda para a próxima década

A convergência entre infraestrutura e energia na América Latina é um fato consumado do ponto de vista técnico e operacional. Projetos de transmissão alimentam parques eólicos que dependem de rodovias para logística de componentes. Usinas solares se conectam a redes de distribuição que, por sua vez, atendem estações de tratamento de água. A cadeia de valor é una.

O que falta é que a arquitetura de capital reflita essa integração. A fragmentação regulatória e a ausência de instrumentos padronizados de investimento cross-border mantêm o financiamento da infraestrutura regional dependente de estruturas ad hoc, negociadas projeto a projeto, país a país. Essa abordagem é ineficiente e limita a escala dos investimentos.

A agenda para a próxima década passa pela criação de um ecossistema de capital que espelhe a interconexão física dos ativos. Instrumentos de dívida com aceitação regional, veículos de equity com governança padronizada e mecanismos de blended finance com participação de multilaterais são componentes necessários dessa arquitetura. O progresso será incremental, mas a direção está definida.

A pesquisa e as plataformas de discussão do GRI Institute continuarão a mapear essa evolução, conectando os tomadores de decisão que, na prática, estão construindo esse novo mercado.

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