
Engenharia de custos é o verdadeiro gargalo do superciclo de concessões, não o funding
A convergência entre Selic restritiva, inflação de insumos e nova lei de licenciamento força uma revisão estrutural na precificação dos projetos antes de chegarem a leilão
Resumo Executivo
Principais Insights
- O gargalo do superciclo de infraestrutura não é falta de capital, mas a incapacidade de precificar projetos com precisão no cenário macroeconômico atual.
- A convergência entre Selic restritiva (acima de 13,75%), INCC acumulado de ~6,4% e a nova Lei de Licenciamento Ambiental (nº 15.190/2025) distorce a modelagem de capex.
- Modelos de capex com premissas de dois ou três anos atrás tornaram-se obsoletos, gerando revisões de editais e adiamentos de leilões.
- A engenharia de custos passou de etapa técnica secundária a competência estratégica que define a bancabilidade dos projetos.
- Projetos mal precificados resultam em leilões desertos ou renegociações precoces, erodindo a credibilidade do programa de concessões.
A precificação de projetos como variável decisiva da infraestrutura brasileira
O Brasil convive com um paradoxo produtivo. O volume de capital disponível para infraestrutura nunca foi tão expressivo, mas a capacidade de transformar esse capital em projetos bancáveis enfrenta obstáculos crescentes. A engenharia de custos, historicamente tratada como etapa técnica secundária na estruturação de concessões, emergiu como a variável que determina se um projeto avança ou estagna. Em 2026, três forças simultâneas convergiram para criar uma pressão sistêmica sobre a modelagem de capex: a taxa Selic em patamares restritivos, a inflação persistente dos insumos de construção e a adaptação ao novo regime de licenciamento ambiental. Essa tríplice pressão redefine a equação de viabilidade das concessões e exige uma sofisticação inédita na estruturação dos projetos.
A tese é direta: o gargalo do superciclo de infraestrutura brasileiro não reside na escassez de funding, mas na incapacidade de precificar projetos com a precisão que o ambiente macroeconômico atual exige. Modelos de capex construídos com premissas de dois ou três anos atrás tornaram-se obsoletos. E a consequência prática já se manifesta em revisões de editais, adiamentos de leilões e renegociações de contratos que ainda nem começaram a ser executados.
Como a convergência entre Selic, INCC e licenciamento ambiental distorce a modelagem de capex?
Para compreender a dimensão do problema, é necessário analisar cada vetor de pressão e, sobretudo, o efeito cascata que sua convergência produz.
O primeiro vetor é a taxa de juros. A Selic atingiu 15% ao ano entre o final de 2025 e março de 2026, o maior patamar em quase duas décadas, segundo dados do Banco Central. Embora tenha recuado para a faixa de 14% a 14,5% nos meses seguintes, o mercado financeiro projeta, conforme o Boletim Focus, que a taxa encerre 2026 em 13,75% ao ano. Esse nível de juros comprime diretamente as taxas internas de retorno (TIR) dos projetos de concessão, reduzindo a atratividade para investidores privados e elevando o custo de capital próprio e de terceiros nas modelagens de project finance.
O segundo vetor é a inflação de insumos. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela FGV, acumulou alta de 6,40% a 6,46% nos doze meses encerrados em julho de 2026, rodando acima da inflação geral medida pelo IPCA. Essa divergência entre o custo real da construção e os índices gerais de preços cria uma distorção silenciosa nas planilhas de capex. Projetos modelados com premissas de inflação geral subestimam sistematicamente o custo efetivo das obras. Quando essa discrepância se acumula ao longo de concessões com horizontes de 20 ou 30 anos, o impacto sobre a viabilidade financeira é substancial.
O terceiro vetor é regulatório. A Lei nº 15.190/2025, a nova Lei Geral de Licenciamento Ambiental, em vigor desde fevereiro de 2026, padronizou regras nacionais e criou instrumentos como a Licença por Adesão e Compromisso (LAC). A legislação trouxe avanços importantes, como a definição clara de responsabilidade civil para instituições financeiras no Artigo 58, limitando a responsabilidade subsidiária. Contudo, a adaptação ao novo regime adiciona camadas de custo e complexidade à modelagem jurídica das concessões. A necessidade de adequação dos estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental (EVTEA) ao novo marco regulatório representa um custo adicional que precisa ser incorporado às estimativas de capex antes que os projetos cheguem a leilão.
A convergência dessas três forças produz um efeito multiplicador. Não se trata de ajustes marginais em planilhas. Trata-se de uma revisão estrutural do modo como os projetos de infraestrutura são precificados no Brasil. A engenharia de custos deixou de ser uma disciplina técnica confinada aos escritórios de engenharia para se tornar uma competência estratégica que determina a bancabilidade dos empreendimentos.
Quem são os protagonistas da nova engenharia de precificação de concessões?
Em um ambiente onde a modelagem financeira e jurídica se tornou o principal fator de viabilidade, executivos e escritórios especializados ganharam protagonismo inédito na cadeia de valor das concessões.
No campo da estruturação financeira, profissionais como Guilherme Paes, que atua na liderança de investment banking do BTG Pactual, ocupam posição central na engenharia de project finance das grandes concessões. A capacidade de estruturar operações que absorvam o impacto da Selic elevada e da inflação de insumos, mantendo taxas de retorno competitivas, tornou-se uma competência rara e valorizada. A sofisticação exigida nas modelagens vai além da simples alocação de capital: envolve a construção de mecanismos de hedge, a calibração de gatilhos contratuais e a negociação de condições de financiamento que reflitam a realidade dos custos de construção.
Na esfera pública, lideranças como Reinaldo Iapequino, presidente da CDHU, têm conduzido a estruturação de PPPs e projetos habitacionais que testam novos modelos de precificação. A experiência acumulada na modelagem de parcerias público-privadas em setores como habitação oferece lições transferíveis para concessões de saneamento, transporte e energia, onde os desafios de capex são igualmente agudos.
No âmbito jurídico-regulatório, escritórios especializados como Moysés & Pires e Amatuzzi Advogados consolidaram-se como agentes decisivos na viabilidade dos projetos. O Moysés & Pires acumula experiência relevante em PPPs de iluminação pública, aeroportos e irrigação, segmentos onde a complexidade regulatória e a necessidade de modelagem jurídica sofisticada são elevadas. O Amatuzzi Advogados, com foco em modelagem jurídica, fundos imobiliários e estruturação de garantias, atua diretamente na construção da arquitetura contratual que confere bancabilidade aos projetos antes de chegarem a leilão.
Essa constelação de competências financeiras, jurídicas e regulatórias constitui o que se pode chamar de nova engenharia de precificação. A viabilidade de uma concessão em 2026 depende menos da existência de capital disponível e mais da capacidade de integrar essas disciplinas em modelos coerentes e resilientes.
Por que o superciclo depende da qualidade da estruturação, e não apenas do volume de investimentos?
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) projeta crescimento de 1,2% para a construção civil em 2026, sustentado pelo avanço das obras de infraestrutura e PPPs, conforme dados publicados pela InfoMoney. Essa projeção positiva, embora modesta, confirma que o superciclo de infraestrutura segue ativo. A questão central, porém, é qualitativa: o ritmo de leilões e a qualidade dos projetos licitados dependem diretamente da capacidade de absorver as pressões de custo na fase de modelagem.
Projetos que chegam a leilão com premissas de capex desatualizadas enfrentam dois destinos igualmente problemáticos. O primeiro é a ausência de proponentes, quando os investidores privados identificam que a TIR implícita no edital não compensa o risco ajustado. O segundo é a adjudicação seguida de renegociação precoce, quando o vencedor percebe, já na fase de implementação, que os custos reais superam as estimativas em magnitude suficiente para comprometer o equilíbrio econômico-financeiro do contrato.
Ambos os cenários representam desperdício de recursos públicos e erosão da credibilidade do programa de concessões. A solução passa por investir na qualidade da estruturação antes do leilão, e não por corrigir distorções depois.
Três princípios orientam essa agenda de aprimoramento. Primeiro, a atualização contínua das bases de custo, com revisões que reflitam a dinâmica real do INCC e de índices setoriais específicos. Segundo, a incorporação antecipada dos custos de adequação à Lei nº 15.190/2025 nos estudos de viabilidade, evitando surpresas regulatórias na fase de implantação. Terceiro, a construção de mecanismos contratuais que permitam ajustes de capex vinculados a indicadores verificáveis, protegendo tanto o poder concedente quanto o concessionário de oscilações imprevisíveis.
O papel do ecossistema GRI Institute na construção de soluções
O GRI Institute tem funcionado como espaço privilegiado para o debate dessas questões entre os principais tomadores de decisão do setor. Encontros dedicados à modelagem de concessões e à engenharia de custos reúnem lideranças de concessionárias, instituições financeiras, escritórios especializados e poder público, promovendo o tipo de diálogo qualificado que a complexidade do momento exige.
A experiência acumulada pela comunidade de membros do GRI Institute indica que a resposta ao dilema da estruturação não virá de soluções isoladas, mas da integração de competências financeiras, jurídicas, regulatórias e de engenharia. A sofisticação da modelagem de capex é, em última análise, um exercício de colaboração entre disciplinas que historicamente operaram em silos.
O superciclo de infraestrutura brasileiro permanece robusto em suas fundações. O capital existe, a demanda por serviços públicos de qualidade é inequívoca e o marco regulatório avançou. O que falta, e o que determinará o sucesso ou o fracasso desse ciclo, é a capacidade de traduzir essa abundância de recursos em projetos precificados com rigor, modelados com sofisticação e estruturados para resistir à volatilidade que o ambiente macroeconômico impõe. A engenharia de custos é, hoje, a disciplina que separa os projetos que saem do papel daqueles que permanecem como promessas em apresentações de PowerPoint.