
Brookfield no Brasil: Andre Lucarelli, a integração da Tegra e os R$ 25 bilhões que redesenham o capital imobiliário
Com 6,2 mil unidades de multifamily, ocupação de 93% e VGV superior a R$ 3 bilhões, a gestora canadense consolida operação integrada no país.
Resumo Executivo
Principais Insights
- A Brookfield administra R$ 25 bilhões em ativos imobiliários no Brasil, consolidando-se como uma das maiores alocadoras de capital institucional em real estate na América Latina.
- André Lucarelli assume como CEO interino da Tegra, alinhando decisão de investimento e execução operacional sob a mesma governança.
- A aquisição da Tabas integra tecnologia proprietária à gestão de 6,2 mil unidades de multifamily, com ocupação estabilizada de 93%.
- A participação de imóveis residenciais para aluguel deve saltar de 18% para 24% até 2040.
- Mudanças tributárias em FIIs e dividendos corporativos exigem recalibração das estruturas de investimento.
A Brookfield administra R$ 25 bilhões em ativos imobiliários no Brasil, segundo a Revista Buildings. A cifra posiciona a gestora canadense como uma das maiores alocadoras de capital institucional no setor de real estate da América Latina. Em maio de 2026, o movimento que deu contornos operacionais concretos a essa tese foi a nomeação de André Lucarelli, vice-presidente sênior de investimentos da Brookfield, como CEO interino da Tegra Incorporadora, substituindo Ubirajara Freitas, conforme reportado pela SiiLA.
A mudança no comando da Tegra não é um evento isolado. Ela se conecta à aquisição da proptech Tabas, concretizada em março de 2026, e sinaliza uma reorganização estrutural que une desenvolvimento residencial para venda, operação de renda por aluguel de longo prazo e tecnologia proprietária sob uma mesma lógica de governança.
Quem é André Lucarelli e qual o seu papel na estratégia da Brookfield?
André Lucarelli construiu sua trajetória dentro da estrutura global da Brookfield, ocupando posição de vice-presidente sênior de investimentos. Sua atuação historicamente esteve ligada à originação e estruturação de operações de real estate no Brasil, conectando a visão de alocação de capital da matriz canadense com a execução local.
Ao assumir interinamente a Tegra Incorporadora, Lucarelli passa a comandar diretamente o braço de desenvolvimento residencial da Brookfield no país. A Tegra registrou Valor Geral de Vendas (VGV) em lançamentos superior a R$ 3 bilhões e receita líquida de R$ 1,2 bilhão no ano anterior, de acordo com dados da SiiLA. Esses indicadores colocam a incorporadora entre as maiores operações privadas do setor residencial brasileiro.
A leitura do mercado institucional, tema recorrente nos encontros promovidos pelo GRI Institute, é de que a nomeação representa mais do que uma transição de gestão. Trata-se de um alinhamento direto entre a estratégia de investimento e a execução operacional, eliminando camadas intermediárias entre o capital e o ativo.
Como a aquisição da Tabas transforma a operação de multifamily da Brookfield?
A Brookfield adquiriu a Tabas para administrar seu portfólio de multifamily no Brasil e integrar a tecnologia proprietária da proptech à gestão dos ativos de renda residencial, conforme a Revista Buildings. O portfólio de multifamily da gestora compreende 33 projetos distribuídos por oito cidades, totalizando 6,2 mil unidades residenciais.
Das unidades já em operação, cerca de 2,7 mil apresentam taxa média de ocupação estabilizada de 93%, segundo a mesma fonte. Esse indicador é relevante porque demonstra que a tese de renda residencial institucional já superou a fase de validação e opera em patamar de maturidade compatível com ativos geradores de caixa previsível.
A integração da Tabas adiciona uma camada tecnológica à operação. A proptech desenvolveu sistemas proprietários de gestão de locação, precificação dinâmica e relacionamento com locatários, capacidades que a Brookfield busca escalar para todo o portfólio. O modelo resultante combina a robustez de capital da gestora com a agilidade operacional de uma empresa nativa digital.
Para o mercado de capitais, a relevância dessa combinação se amplifica quando observada ao lado do crescimento da base de investidores em Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs). Segundo dados da B3, o número de investidores em FIIs atingiu 3,18 milhões de pessoas em 2026. Essa expansão da demanda por ativos de renda imobiliária cria um ambiente favorável para eventuais estruturações de veículos lastreados em portfólios residenciais institucionais.
O modelo integrado: desenvolvimento, renda e tecnologia
A estratégia da Brookfield no Brasil pode ser compreendida como uma plataforma de três pilares operacionais. O primeiro é o desenvolvimento residencial para venda, executado pela Tegra, que gera fluxo de caixa e permite reciclagem de capital. O segundo é a operação de renda residencial de longo prazo, o multifamily, que produz receita recorrente e valorização patrimonial. O terceiro é a camada tecnológica herdada da Tabas, que otimiza a gestão operacional dos ativos de aluguel.
Essa arquitetura permite que a Brookfield capture valor em diferentes pontos do ciclo imobiliário. Em momentos de demanda aquecida por compra, a Tegra acelera lançamentos. Em cenários de juros elevados, nos quais a demanda migra para locação, o portfólio de multifamily absorve essa demanda com eficiência operacional.
André Lucarelli indicou que a Brookfield prevê um ciclo relevante de investimentos nos próximos anos para expansão e fortalecimento da operação de multifamily no Brasil após a aquisição da Tabas. A declaração reforça que o pipeline de novos projetos residenciais para renda permanece ativo.
A projeção da Brain Inteligência Estratégica sustenta essa tese estrutural: a proporção de imóveis residenciais destinados ao aluguel no Brasil deve saltar dos atuais 18% para 24% do mercado imobiliário até 2040. Se confirmada, essa trajetória amplia significativamente o mercado endereçável para operadores institucionais de multifamily.
Qual o impacto do novo ambiente tributário sobre a estratégia?
O cenário regulatório de 2026 introduz variáveis relevantes para a estruturação de ativos imobiliários de renda. A Medida Provisória nº 1.303/2025 alterou a tributação de FIIs e Fiagros, instituindo alíquota de 5% de imposto de renda sobre rendimentos para cotas emitidas a partir de 1º de janeiro de 2026 e reduzindo o imposto sobre ganho de capital de 20% para 17,5%.
Paralelamente, a Lei nº 15.570/25 instituiu a tributação de dividendos corporativos a 10% para valores superiores a R$ 50 mil mensais a partir de 2026. Esse dispositivo aumenta a atratividade relativa dos FIIs que mantêm isenção para cotas anteriores à mudança, criando uma assimetria tributária que favorece veículos imobiliários já constituídos.
Para uma operação do porte da Brookfield, com R$ 25 bilhões em ativos sob gestão no setor, essas mudanças exigem recalibração das estruturas de veículos de investimento. A combinação de tributação diferenciada para cotas novas de FIIs com a taxação de dividendos corporativos altera a equação de atratividade entre investir via fundo imobiliário ou via estrutura societária tradicional.
No âmbito municipal, o Projeto de Lei 107/2025, em tramitação na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, visa regulamentar serviços de intermediação e hospedagem de curta temporada. A eventual aprovação impactaria diretamente o modelo operacional de ativos residenciais de renda em uma das praças prioritárias do portfólio de multifamily da Brookfield.
O que a consolidação da Brookfield sinaliza para o mercado institucional
A operação combinada Tegra, Tabas e multifamily representa o modelo mais avançado de integração vertical de real estate residencial por um investidor institucional global no Brasil. A escala de 6,2 mil unidades em oito cidades, combinada com VGV de lançamentos superior a R$ 3 bilhões e ocupação estabilizada de 93%, configura uma plataforma com poucos paralelos domésticos.
O movimento da Brookfield ocorre em um momento no qual o capital institucional internacional amplia sua exposição ao mercado imobiliário brasileiro, tema debatido com frequência nos eventos do GRI Institute ao longo de 2026. A presença de grandes alocadores globais, operando com governança integrada e horizonte de longo prazo, tende a elevar os padrões de profissionalização do setor.
A nomeação de André Lucarelli para o comando direto da Tegra é um indicativo claro de que a Brookfield prioriza a convergência entre decisão de investimento e execução operacional. Em um mercado historicamente fragmentado, essa integração pode redefinir benchmarks de eficiência e retorno para o capital institucional imobiliário no Brasil.
Os próximos trimestres serão decisivos para avaliar se a plataforma integrada consegue converter sua escala e governança em resultados operacionais consistentes, especialmente diante de um ambiente regulatório em transformação e de uma base de investidores de FIIs que já ultrapassa 3 milhões de pessoas.